Viagem pra Dentro

Como viajar mudou minha vida

Às vezes é preciso um pouco de distanciamento pra perceber o impacto de certos acontecimentos nas nossas vidas, né? Pra mim tem sido assim com as viagens. Sempre soube que elas estavam me transformando, mas cada vez mais me dou conta da dimensão dessa mudança, e às vezes penso que minha versão pré-viagens nem acreditaria se visse o que sou hoje.

Se você acompanha o blog, já deve saber que eu não acho que “voltamos diferentes de toda viagem”, como dizem por aí. Não acredito que se deslocar fisicamente seja uma solução mágica pra “se encontrar”, nem um pó de pirlimpimpim que vai resolver todos os seus problemas. Muito menos que viajantes são pessoas melhores do que as que não costumam se jogar por aí, ou que seja impossível ser feliz na rotina.

Com certeza existem tantas formas de “mudar a vida” quanto memes na internet. E cada um tem que encontrar a sua, pessoal e intransferível. Mas não é incomum encontrar gente que passou a ver as coisas de forma diferente depois de dar umas chacoalhadas em concepções profundamente arraigadas durante períodos longe de casa. Prazer, sou uma delas. :)

gante

Desconfio que o tempo (e o autoconhecimento) ainda vão me mostrar outras formas em que viajar mudou minha vida. Mas hoje, depois de cinco períodos chamando outros países de casa e mais seis meses mochilando sozinha por aí, sinto que esses aspectos estão entre os mais importantes:

Insegurança e ansiedade

Há algum tempo, comecei a falar aqui de uma coisa bem pessoal: eu sempre fui MEGA ansiosa e insegura, chegando ao ponto de me privar de algumas experiências na adolescência porque não conseguia lidar. Tinha crises de ansiedade e chegava a passar mal quando me sentia fora da zona de conforto. É claro que na minha primeira viagem internacional, aos 15 anos, não foi diferente. Desde os primeiros momentos sozinha no avião, meu estômago embrulhou. Vivi momentos bem legais, mas voltei pra casa sem vontade de passar por isso novamente.

Alguns anos depois, caí na real: que vida mais sem gracinha eu teria se continuasse assim, viu? Meu apego à bolha que envolvia o que parecia familiar era enorme, mas resolvi – como definiu dia desses um amigo – hackear essa minha predisposição. Eu podia ter entrado num curso de teatro (ainda quero fazer isso), feito uma lista de situações que me davam medo e me desafiado a enfrentá-las, ter ido pra um retiro espiritual, sei lá. Mas escolhi fazer o que pra mim, na época, era um tratamento de choque: embarcar pra meu primeiro intercâmbio.

Essa historinha pode dar a entender que eu voltei de lá “curada” e doida pra embarcar na próxima viagem, né? Sinto desapontar, mas na real voltei foi repensando tudo. Adorei a experiência, mas também me senti desconfortável em vários momentos e achei isso emocionalmente cansativo. Só que algo em mim impediu a autossabotagem e me obrigou a ir pra um segundo intercâmbio.

Não vou mais me alongar porque esse assunto sozinho rende um post, mas o resumo da ópera é que fui me acostumando a romper a bolha. Claro que também teve a ajuda do tempo, experiências acadêmicas e profissionais aqui no Recife, amizades e relacionamentos amorosos, terapia e leituras. Mas acredito que nada teve um impacto tão grande sobre esse meu pânico do “desconhecido” quanto as viagens. Esses e outros intercâmbios, um mestrado e um estágio bem longe do Brasil foram me ensinando a lidar com o desconhecido – e gostar disso, vejam só.

Me vejo, hoje, dizendo “sim” pra situações que me apavorariam antes. E ao viajar me sinto muito mais inclinada a superar barreiras e ir abrindo janelinhas pra novas experiências e outros lados de mim. <3

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Consciência social

Acho que nunca fui propriamente alienada, mas boa parte da minha consciência social da vida adulta, por assim dizer, também deve muito às viagens. É lógico que eu podia ter aprendido tanto (ou muito mais) sobre ativismo e quetais no meu próprio bairro, mas cada um tem seu processo, né? Presa à rotina, sempre achava uma desculpa, mas inserida em outro ambiente e com outras oportunidades foi mais fácil.

Um grande empurrão foi a hora de escolher meu tema de pesquisa no mestrado na Espanha. Optei por estudar veículos de comunicação alternativos e, mergulhada nesse universo, me joguei em tudo que era oportunidade pra aprender sobre direitos humanos.

Fiz cursos sobre migração, me tornei voluntária da Anistia Internacional e fui aprender sobre jornalismo com fins sociais no jornal El Mundo, em Madri, e sobre representação de minorias na mídia em Budapeste. Terminado o mestrado, fui direto estagiar numa ONG voltada pra defesa dos direitos de minorias, também em Budapeste.

De volta ao Recife, uma coisa continuou puxando a outra e me tornei voluntária na ONG maravilhosa Mirim Brasil, fui uma das representantes do país no World Forum for Democracy e viajei pra participar de um acampamento enorme na Alemanha com foco em direitos humanos, ajudando a coordenar o espaço de meios de comunicação.

Mais uma vez, repito: eu poderia ter vivido coisas parecidas ou muito mais transformadoras no Brasil; poderia também ter colaborado muito mais. Mas esse “uma coisa leva à outra” foi me expondo a situações em que nunca tinha pensado em estar. Ajudou a abrir minha cabeça pra problemáticas de outros países e a enxergar o meu país com outros olhos.

Juntando isso com todas as conversas que tive com gente de nacionalidades que eu nem sabia que existiam e conceitos que me foram pacientemente ensinados por pessoas com muita experiência, sinto que ganhei um presente enorme em termos de consciência (e isso é só o começo de tudo que ainda tenho pra aprender).

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Outras formas de viver

Falando em conversas com gente de lugares diferentes, não tenho como não repetir: uma das minhas partes preferidas de viajar é conhecer pessoas com quem provavelmente não cruzaria na minha rotina (não por acaso, essa também era uma das coisas que mais curtia em ser repórter).

Morei, fiz amizade, discuti, viajei, me apaixonei, trabalhei e bebi (muitas) cervejas com gente com costumes diferentes dos meus. E apesar de sermos muito parecidos lá no fundo, podemos ser diferentes em tanta coisa, né? Na hora de comer, se relacionar, cuidar da casa, trabalhar, cuidar do meio ambiente, se locomover na cidade, dançar, educar crianças…

Desafiar as concepções do que a gente acha “certo” ou “natural” é, sem dúvidas, uma das partes mais poderosas de sair da zona de conforto. Ajuda a superar preconceitos, pensar duas vezes antes de julgar o que é diferente e, quem sabe, repensar nossas próprias formas de fazer as coisas. Um processo infinito e incrível.

Morro de orgulho de ser brasileira e amo muitas das características que são tendência do nosso povo, mas tem coisa mais gostosa do que se inspirar pra se tornar uma pessoa ainda melhor? Pouco a pouco, fui acumulando exemplos de gente que produz muito menos lixo, come coisas diferentes e deliciosas, se torna independente dos pais mais cedo que a média por aqui, tem mais abertura e objetividade nos relacionamentos, trata o empreendedorismo e a criatividade com mais naturalidade, aproveita mais os espaços públicos, entre tantas outras coisas com as quais quero aprender.

Outras formas de trabalhar

E, é claro, não podia deixar de mencionar o Janelas Abertas. Tive alguns blogs desde adolescente, estudei jornalismo e trabalhei em veículos de comunicação, mas nunca tinha pensado em criar o meu próprio. Comecei esse blog, como tanta gente, despretensiosamente. Queria oferecer informação de qualidade, mas não pensava que seria possível um dia ganhar dinheiro com ele. Passadas as muitas invencionices da infância, não me considerava uma pessoa criativa, e empreendedorismo era algo que passava longe do meu vocabulário na hora de me definir.

Quando estava naquela típica crise tentando escolher o que fazer da vida, investir num blog como um negócio não parecia uma possibilidade. Ser freelancer e não ter um salário fixo também não. E o que aquela adolescente apegada à rotina pensaria sobre o sonho de trabalhar de qualquer lugar do mundo?

Conhecer gente com diferentes modos de vida, especialmente jovens que estão na estrada há muito tempo, me fez rever prioridades e perceber que nossa existência (principalmente de gente tão ou mais privilegiada como eu, é claro) é feita de muito mais possibilidades do que a rotina costuma sugerir.

Me ajudou a questionar padrões. Nunca tive sonhos de ser mãe ou ter um carro, ou tantos outros que a sociedade tenta enfiar goela abaixo da gente. Ainda assim, até pouco tempo atrás pedir demissão e seguir um caminho incerto me pareceria loucura, e colecionar mais despedidas do que aniversários também.

A paixão pelas viagens, a vontade de me tornar uma produtora de conteúdo cada vez melhor, as pessoas que o blog me fez conhecer e as histórias com que cruzei enquanto viajava me ajudaram a despertar pra muitas coisas. Entre elas, algumas das infinitas possibilidades de me sustentar com coisas que gosto de fazer, formas de viver bem com menos dinheiro e, por que não, maneiras de ser feliz trabalhando em áreas diferentes da minha.

notebook em pousada em paraty

Não sei onde estarei em um ano ou mais, não faço ideia das transformações que ainda vêm por aí. Mas sei que nunca estive tão realizada com o que faço com as horas do meu dia. E agradeço às viagens por esse grande presente. O frio na barriga que invade hoje é diferente daquele ao entrar no avião aos 15 anos: tem a ver com tudo que quero alcançar e as montanhas que às vezes parecem difíceis de escalar. Mas que sorte é poder tentar.

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6 Comentários

  1. Tainara

    Nossa, que texto incrível!
    Amo seu blog e você me inspira, não só a viajar mas também a ” abrir as janelas ” pro mundo!

    • Oi, Tainara! Que alegria ler esse comentário, fez meu dia! :) Muito obrigada por me acompanhar aí do outro lado <3 Espero que nossas janelas nunca deixem de se abrir! Um abraço

  2. Raphaela

    Bom dia Lu!
    Não conhecia o seu blog, estou pesquisando dicas de viagens pois farei minha primeira viagem pra fora, e me deparei com o seu blog, tão explicativo e meigo.
    Obrigada, com certeza seguirei tuas dicas, e se puder falar mais para iniciante ficarei muito feliz.

    Bjs.

  3. Caroline Barbosa

    Querida Luísa, desde que li (e me apaixonei) pelo seu post “Recordações de viagens: sobre os momentos que não cabem em fotos” não saio mais do seu blog… você é a projeção do que eu quero viver. Voltei de Vancouver a poucos meses, e cada dia que passa eu sinto dentro de mim um zumzumzum e uma inquietação que me indicam que meu lugar é na estrada. Quando leio seus textos, me inspiro demais! Obrigada! Por favor, não para!!! Espero um dia poder viver da forma como você vive.

    • Oi, Caroline! Que comentário mais lindo <3 Muito obrigada por vir aqui deixar esse feedback. Faz toda a diferença :) E mesmo sem te conhecer, acredito que você pode, sim, viver da forma em que sonha. A vida às vezes é cheia de obstáculos, mas é impressionante o que conseguimos com planejamento e muita força de vontade. Um abraço!

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