Viagem pra Dentro

Welcome to Another World: 17 dias acampando no sul da Alemanha

Viagem pra Dentro | 16/08/16 | Atualizado em 25/08/16 | 4 comentários

Eram 20h de uma sexta-feira quando eu consegui me conectar ao wi-fi do aeroporto de Munique, na Alemanha, enquanto esperava a mochila aparecer na esteira. A primeira coisa que vi foi a mensagem no Whatsapp: “tás sabendo do que aconteceu no shopping aí?”. Descobri, então, que duas horas antes 10 pessoas tinham morrido em um tiroteio num centro comercial no mesmo bairro do hotel onde fiquei hospedada.

Soube ainda que nesse dia se completavam cinco anos desde o massacre em que um homem de extrema-direita matou dezenas de jovens em um acampamento de verão na Noruega. Um evento bem parecido com o que tinha motivado minha ida à Alemanha naquele dia: o acampamento Welcome to Another World, do IFM-SEI, organização guarda-chuva que inclui o Mirim Brasil, ONG em que sou voluntária.

Foi uma noite tensa enquanto a polícia não identificava o atirador (inicialmente pensavam que fossem três e que tinham fugido) e eu não recebia notícias da amiga que chegou num voo mais cedo e ficou presa no centro quando todos os transportes foram interrompidos. E a ela se seguiu uma manhã ainda tensa, enquanto meus pais me falavam da sua preocupação com relação à segurança no acampamento, que começaria nesse dia.

Felizmente, as duas semanas seguintes foram supertranquilas lá em Reinwarzhofen, no sul da Alemanha. E enquanto se desenrolava o acampamento, que reuniu 2500 crianças e jovens de quase 30 países pra viver sob os princípios de amizade internacional e democracia, ficava mais forte a certeza de que estamos do lado certo, lutando contra a intolerância e a violência e a favor de um mundo mais igualitário.

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Durante 17 dias, dormi numa barraca congelando num saco de dormir de má qualidade, comi o mesmo pão com queijo e presunto toda manhã e noite, tomei banho em chuveiros sem porta e tive que andar por cinco minutos no escuro pra ir ao banheiro.

Foi tempo suficiente pra pensar sobre como não preciso de tantas coisas quanto penso e também sobre o imenso privilégio que tenho por viver numa casa confortável e ter acesso a alimentos saudáveis. Fiquei cansada, confesso, mas faria tudo de novo sem pensar duas vezes pra ter novamente a chance de viver uma experiência tão incrível.

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E que experiência, viu? Workshops sobre temas como direitos das crianças, comunicação, democracia, feminismo, cooperação, educação sexual e processos de paz preenchiam a programação do acampamento, ao lado de várias atividades espontâneas como campeonatos de futebol e quadribol, brincadeiras, fogueiras, shows, exibição de filmes e muito mais.

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Dividido em cinco cidades, cada uma composta por cinco vilas, o acampamento funcionava com princípios colaborativos, em que quase tudo era feito por voluntários e muitas coisas eram decididas e construídas pelos participantes no dia a dia.

Tinha gente criando móveis e até piscinas com pallets e pedaços de madeira, cozinhando comidas típicas do seu país pra todo mundo da vila e ensinando diferentes brincadeiras. E também fazendo manifestações, por exemplo, pra aumentar a variedade da comida, pra que houvesse mais banheiros adequados às pessoas trans e pra conscientizar o pessoal sobre as dificuldades que muitos países impõem a quem precisa de visto pra visita-los.

No meio de tudo isso, um exercício e exemplo constante de abertura (não era nada estranho alguém abordar um grupo aleatório e pedir pra participar de um jogo ou conversa, sendo recebido sem cerimônias), democracia (as decisões nas vilas eram tomadas em comum acordo), respeito (diferentes culturas e modos de vida conviveram em harmonia), simplicidade (todo mundo usava roupas confortáveis, repetidas, amassadas etc. sem preocupação com julgamentos alheios), solidariedade (quem tinha algo a mais, tipo roupas de frio, emprestava a quem não tinha) e humildade (pessoas com altos cargos eram voluntárias na cozinha, por exemplo), entre tantas outras coisas.

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Infelizmente eu não pude participar de tantas atividades quanto gostaria, mas foi por uma ótima causa: trabalhei como voluntária no Media Space do acampamento, coordenando o espaço junto com uma equipe massa. Com uma alemã e uma inglesa super queridas e competentes, facilitei workshops, orientei crianças e adolescentes pra produzirem conteúdo sobre o que lhes chamava atenção por lá, editei e traduzi matérias e fiquei até depois da meia-noite imprimindo e dobrando os jornais, que seriam entregues nas vilas junto com o café da manhã. <3

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Felizmente, sobrou um tempinho pra tomar muito Club-mate (viciada o/), ver um bom filme (Iron Jawed Angels) e uns shows, provar algumas cervejas alemãs, visitar o memorial do campo de concentração de Dachau e conhecer um pouco da linda Nuremberg, cidade próxima onde fizemos protesto e festa. E também pra conhecer muita gente incrível, me adaptar a diferentes jeitos de ser e trabalhar, descobrir brincadeiras e metodologias pra workshops, aprender um pouco sobre diferentes países e vivenciar um dia a dia baseado na cooperação.

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E o que é ainda melhor: me encher de energia e inspiração pra acreditar e lutar por um novo mundo, onde todas as pessoas tenham a oportunidade de explorar seus potenciais e onde o respeito e a solidariedade estejam sempre em primeiro lugar. Pra que um dia, quem sabe, todo mundo possa viver sem medo e tragédias como as que mencionei no início do post (e tantas outras que acontecem pertinho e longe de nós todos os dias) sejam coisa do passado.

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4 Comentários

  1. Juliana Gimenez

    Olá,

    Simplismente sensacional seus post adoro, entro todo dia para olhar se tem novidades.

    Abraços,
    Juliana

    • Oi, Juliana! Que massa :D Valeu pelo comentário! Ultimamente não tou conseguindo postar com tanta frequência, mas tem um monte de posts no rascunho que espero poder ir publicando em breve. Um abraço e volte sempre! ;)

  2. Natália

    Querida, não nos conhecemos. Cheguei nessa sua postagem por acaso e precisava dizer que fiquei encantada com a sua sensibilidade.
    Se tem uma coisa que me faz bem é conhecer pessoas do seu “tipo”. Que delícia ler essa postagem. Deu pra sentir bem o que você sentiu. Me coloquei no seu lugar e me conectei à experiências incríveis. Fiquei arrepiadona aqui. haha
    Beijos e good vibes sempre!

    • Oi, Natália! Que alegria ler esse comentário :) Você não tem ideia de como é importante receber feedback :) Fico muito feliz por ter conseguido te transportar um pouquinho pra essa experiência massa que vivi. Espero que venhas mais por aqui! Muito obrigada e good vibes pra você também! :D

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