Viagem pra Dentro

Cinco coisas que aprendi morando fora do Brasil

Já falei que acredito que a viagem não faz nada sozinha. Que nem toda viagem é “uma ida sem volta”, mas que o deslocamento físico pode ser um pretexto pra sair do eixo e repensar muita coisa. Falei também que não é preciso ir muito longe pra abrir a cabeça, mas que sair da zona de conforto é massa. O fato é que eu aprendi algumas coisas ao morar fora do Brasil; coisas que podia ter aprendido aqui mesmo, mas que surgiram com muito mais força enquanto construía uma nova vida em solo estrangeiro. São coisas que espero guardar comigo sempre, esteja onde estiver. E que acredito que sejam sentidas por muitos outros viajantes também :)

Aprendi a ser mais flexível em relação a coisas práticas

A gente não precisa de tudo o que pensa que precisa pra viver. Nem as roupas, nem os eletrodomésticos, nem os cosméticos (que não cabem na malinha da Ryanair, hein?). A gente pode (e muitas vezes precisa, ao escolher outro país como morada) se adaptar a horários diferentes, comidas diferentes, costumes diferentes. Aprender a viver sem as frescurinhas/manias/facilidades da vida com a qual estamos acostumados e constatar que toda a tralha que acumulamos durante a vida não é realmente necessária.

Passar um mês e meio sem cortina e ventilador no pior verão da minha vida, passar uma tarde sem-teto com uma mochila pesada e quase sem dinheiro, ficar perdida sozinha na chuva e no frio numa cidade desconhecida, precisar tomar banhos sem toalha (hehe) e muito mais perrengues que passei não me estressaram, e quem me conhece sabe que eu sempre fui meio mimimi.

Viajar com grandes exigências de conforto não tá na minha realidade (nem eu quero que esteja), e viajar (ou viver) esperando que nada dê errado é absurdo. Encontrar problemas e se sentir desconfortável faz parte da vida e principalmente da experiência de viver fora da nossa zona de conforto. As coisas não precisam sair superbem pra gente ser feliz, viajar não tem que ser caro, perder um ônibus ou dormir num aeroporto não precisa ser ruim. É fácil perceber que em uma viagem, seja ela de poucos dias ou um ano, se você não relevar muita coisa vai aproveitar menos e se desgastar mais. O negócio é levar isso pra vida :)

Aprendi a ter mais empatia por pessoas diferentes de mim

Por um lado, vi que diferenças culturais são inegáveis e que alguns estereótipos como o “calor latino” (leia-se afetividade, contato físico etc) são verdadeiros (passar o aniversário em Budapeste, sem ninguém do hemisfério sul por perto, foi a maior prova disso :P).

Por outro lado, vi e sigo vendo cada vez mais que no fundo somos bem parecidos. Em relação a jovens ocidentais (que compartilham, em grande parte, das mesmas referências culturais) nem se fala. Mas até pessoas com um background bem diferente do seu podem ter muitas coisas em comum com você, já que o ser humano costuma estar em busca das mesmas coisas. E pra mim é bem legal ler alguma coisa sobre a Polônia, a Colômbia, o Chipre ou a Bósnia, por exemplo, e não ter apenas uma ideia bem abstrata do país e das pessoas, e sim a ideia daquele meu amigo querido que me contou em primeira pessoa sobre pedaços da sua realidade.

Uma amiga comentou uma vez que ter um amigo próximo de uma cultura diferente é muito mais “útil” do que fazer cursos de “comunicação intercultural”, e eu concordo. Muita gente acredita também que o programa Erasmus, que promove intercâmbios acadêmicos dentro da Europa, vai ajudar a criar uma identidade europeia, ou seja, um senso de comunidade entre esses jovens (possíveis futuros líderes). Questões políticas à parte, a ideia de fronteiras me parece cada vez mais absurda e ver que somos todos parte de uma coisa só traz um calorzinho pro meu coração, além de tornar muito mais fácil se solidarizar com o que parece longe, né?

O pessoal da study session em Budapeste, vindos de uns 15 países diferentes. Procurei alguns no Google antes de ir e achei que não ia ter nada a ver com eles. Não podia estar mais enganada :)

Na study session em Budapeste: uns 15 países diferentes. Achei que não ia ter muito a ver com eles. Não podia estar mais enganada :)
Foto: Martin Hanzel

Aprendi que existem dois tipos de ignorância

Já me irritei muitas vezes com pessoas que, ao ouvir que sou brasileira, faziam uma dança bizarra tipo “hummmm, ‘caliente'”, cantavam a música de Tropa de Elite e falavam de drogas, perguntavam se aqui se fala espanhol ou me pediam pra sambar. Mas também já encontrei gente que, sabendo muito pouco sobre o Brasil, me fazia mil perguntas e se interessava por entender como as coisas funcionam além dos clichês.

Sou a primeira a reconhecer que existe uma quantidade absurda de coisas que eu não sei sobre o meu país e muitos outros, e por isso mesmo não julgo alguém que se surpreende ao saber que não vivemos de fazer topless em Copacabana, se essa pessoa quiser ultrapassar as noções pré-concebidas que ela tem da minha cultura. Redescobri que o chato não é não saber, e sim se acomodar à ignorância e aos estereótipos. Aprender juntos é a coisa mais linda e eu adoro quando encontro gente disposta a me ensinar :)

Aprendi a pedir ajuda

Já comentei no post sobre saudades antecipadas de Budapeste que uma das coisas que aprendi na capital húngara foi a perder um pouco da frescura de pedir ajuda. Na Espanha e na França eu conseguia me comunicar na língua local e antes mesmo de chegar lá já sabia como muitas coisas funcionavam – ou achava que deveria saber e tinha vergonha de perguntar.

Na Hungria, foi ao mesmo tempo limitador e libertador não saber a língua. Precisei contar com a ajuda de uma húngara que tornou-se uma grande amiga e de mil pessoas pela rua, às quais eu tive que perguntar como chegar em um lugar, pedir pra traduzir à funcionária dos correios o que eu queria dizer e fazer perguntas bobas sem pensar duas vezes. E não é assim que tem que ser?

Aprendi que a vida é feita de muito mais possibilidades do que nossa rotina costuma sugerir

Não sei se você tem uma vida muito dinâmica/aberta, mas acho que pra maioria dos meus amigos os caminhos parecem um pouco limitados por certas expectativas sociais. Morar pra sempre na mesma cidade onde nasceu, trabalhar com algo bem convencional e planejar uma vida parecida com a dos pais, por exemplo.

Não há absolutamente nada de errado com isso se é o que você quer fazer, mas conhecendo muitas pessoas de “círculos” totalmente diferentes dos meus (o que não acontece com frequência na vida recifense que eu levo) acabei me deparando com padrões diferentes (por exemplo, pra muita gente é normal sair da casa dos pais aos 17 anos e não ter um quarto lá esperando pra quando você terminar a faculdade).

Encontrei também mil histórias de vida inspiradoras, de gente que foge às regras, cria algo pra si mesmo, tem sede de mundo e de contribuir além das suas fronteiras, sonha alto e corre atrás dos sonhos. E a melhor parte é que essas pessoas podiam (podem!) ser eu ou você :)

~

No fim das contas, aprendi que é possível aprender muito se a gente der uma balançada nas coisas, der mais valor a toda experiência nova e olhar pro outro com mais cuidado. E você, aprendeu o quê ao morar fora do Brasil? Conta aí! :D

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18 Comentários

  1. Amanda

    o maior dos ensinamentos: o mundo é imenso pela quantidade de corações que cabe nessa esfera que não é esfera! Super fera, minha escritora e viajante linda!

    • Exato! Corações que ajudam a reacender a fé na humanidade, ainda que às vezes seja difícil, né? Beijo! :)

  2. anelizee

    Uai adorei o post! de verdade! Estou passando por isso tudo agora, passei um pouco quando sai de casa pra estudar, mas sair do país realmente abriu minha cabeça (mais do que já era) e só consolidou algumas ideias, como a do último parágrafo qdo vc fala daquela vidinha modelo normal rsrs!!

    Espero que essas coisas nunca se percam nas rotinas da vida =)

    beijso

    • Que bom que vc curtiu ^^ sair de casa pra estudar já é uma grande mudança mesmo, né? E é verdade. É nisso que eu venho pensando: em como evitar que isso se perca nas rotinas da vida :)

  3. Isabela Jungmann

    Adorei o texto Luisa! Parabéns =) Deu vontade de fazer as malas e ir para o aeroporto!! =)

    • Que bom, brigada! :))) A ideia é essa mesmo, haha :D Vamos nessa!

  4. aprendi que eu morei com uma garota linda e quem vem se tornando uma mulher ainda mais linda ;)

    • Quel, você que é linda demais! Pensei demais em ti nos últimos dias. Vamos conversar!!! Beijo

  5. Natasha

    Nossa!!! Morei no Canada, e o que você passou, passei por quase tudo isso só que com mais preconceito por sem brasileira, por não conhecerem a minha cidade – sempre indo ao mapa, para mostrar onde fica Recife! – hahahah… Mas, tudo foi mt válido e se fosse para falar, teria que fazer um post! Aprendi que em casa de família, só é família pelo nome! =/ Mas, o post está perfeito! A troca de experiências, é oq carrego cmg!

    • Hahaha em Valladolid muitas vezes eu não precisava explicar porque tem vários convênios da universidade de lá com a UFPE, então muita gente conhecia alguém do Recife… Em Lyon, eu dizia que era a cidade de Juninho Pernambucano (estrela do Olympique Lyonnais) e era suficiente :P Mas acho bem normal não conhecerem a cidade, né? Imagina se a gente fosse saber localizar no mapa as quatro maiores cidades de todos os países do mundo, hehe. E essa história de casa de família pode ser uma experiência e tanto, pra o bem e pra o mal, né? Que bom que você viveu tantas experiências marcantes :) Brigada pelo comentário e um abraço!

  6. Leandro Ferrinho

    Perfeito… Em todos os tópicos citados, sem exceção. Mas, quanto ao apego a praticidade, a empatia ao adverso, a ignorância ao desconhecido, a necessidade à solicitação de auxílio e a gama de possibilidades que a vida pode te oferecer lá fora, principalmente ante as adversidades, penso que só se dá porque existe uma vulnerabilidade exorbitante em cada estrangeiro/intercambista que se depara completamente sozinho. Esse é o verdadeiro ponto de partida pra se viver com intensidade tudo isso que foi retratado tão bem nesse teu texto! Parabéns!!!

    • Obrigada, Leandro! :)) É verdade, essa vulnerabilidade torna a gente mais aberto e tudo mais intenso! Ainda bem, né? Valeu pelo comentário ^^ Um abraço!

  7. Isabela Alves

    Luisa, tu simplismente DETONA! Me identifico demais com teus textos e minha vontade, logo depois de ler tudo o que tu escreve, é de me jogar mundo afora! :******

    • Brigada, flor! :)) Como eu disse num comentário anterior, esse é o objetivo :D haha. Sei que foste mordida pelo bichinho também ^^ Beijo!

  8. Rosa

    Parabéns. Gostei do relato!

    • Que bom que você gostou, Rosa. Obrigada :) Um abraço!

  9. Li seu texto no Brasil Post e fiquei assustado com a identificação que rolou. Você descreveu o meu período na África do Sul, pôs em palavras o que senti. De quebra, fez com que eu desse uma sondagem em preços de passagens logo em seguida…

    • Oi, Pedro! Que bom que você se identificou tanto, fico feliz :)) Sempre que paro pra pensar fico me coçando pra olhar passagens também, haha! É o bichinho da viagem que não larga da gente… Um abraço!

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