Viagem pra Dentro

Por que pedi demissão de um emprego que adorava

Viagem pra Dentro | 16/12/16 | Atualizado em 28/10/18 | 25 comentários

Eu já tinha lido e ouvido muitas histórias de gente que largou o emprego pra viajar ou empreender, mas quase todas tinham alguns fatos em comum: eles não estavam felizes com o que faziam, achavam o trabalho chato, sentiam que não eram valorizados como profissionais e sofriam pra sair da cama a cada segunda-feira. Eu não me encaixava em nenhum desses pontos. Tava há dois anos e meio numa empresa legal, com colegas talentosos e divertidos que se tornaram grandes amigos, fazendo um trabalho que me dá prazer e me sentindo reconhecida… E pedi demissão.

Essa foi uma das decisões mais difíceis da minha vida, se não A mais difícil. Não vou ser hipócrita: tinha, sim, um bocado de coisas que eu não curtia no trabalho em si e na rotina de bater ponto num escritório de segunda a sexta. Mas o balanço geral era positivo, e eu sei que não é fácil encontrar todo esse combo aí do primeiro parágrafo no mesmo emprego.

Sei também que tem muita gente qualificada na minha área e em tantas outras procurando desesperadamente um trabalho. E que minhas economias, que vão me sustentar nos próximos meses, tão longe de ser infinitas. Então devo parecer louca, né? Talvez um pouquinho, mas acho que a vida tem que ter um pouco de loucura (que, no caso, começou a ser planejada há muito tempo).

Felizmente, sou tão tão tão sortuda que não tive muita dificuldade pra explicar a decisão aos meus chefes, colegas, amigos e família. Sou imensamente grata porque todos tão me apoiando, incentivando e compreendendo (ou ao menos tentando).

E acho que além da sorte por ter tanta gente massa ao meu redor, tem outro fator aí: eu tou longe de ser a única da minha geração a abrir mão da suposta segurança de um emprego tradicional (que na real, na iniciativa privada, nunca é realmente seguro, né?) pra fazer outras coisas, seja temporariamente (como um ano sabático) ou de forma permanente.

Como você já deve tar cansado de saber, tem um punhado de gente por aí largando as férias remuneradas e o 13º pra abrir seu próprio negócio, viajar pelo mundo, ir morar numa casinha no meio da Chapada Diamantina e tantas outras formas de (re)descobrir o que faz a vida ter sentido.

As motivações específicas são diferentes, mas acredito que todos têm em comum uma certeza: melhor se arriscar agora do que se arrepender mais tarde. É como diz esse trecho do livro “Como encontrar o trabalho da sua vida”, que virou post aqui: “A forma de arrependimento mais emocionalmente corrosiva ocorre quando deixamos de agir em relação a algo que é profundamente importante para nós”. Acredito que quando a gente reconhece ou ao menos vislumbra o que mais importa lá no fundo e tem a chance de ir atrás disso, tem mais é que tentar mesmo.

Falo em “ter a chance” porque infelizmente certos riscos são privilégio de quem, como eu, tem condições de juntar algum dinheiro e sabe que na pior das hipóteses ainda vai ter onde morar. Essa coisa da “geração que tá trocando a segurança de um emprego padrão por mais qualidade de vida e experiências transformadoras” que tem se falado por aí se limita a uma bolha socioeconômica, num país extremamente desigual.

Mas nessa loteria louca da vida, eu nasci numa família de classe média, e em dois anos e meio de muito trabalho me privei de um punhado de coisas, adiei o aluguel do meu próprio apê, escolhi andar de transporte público, entre outras economias que mencionei aqui. E pude, felizmente, decidir passar um tempo experimentando outras coisas.

Como disse lá em cima, eu não sentia que minha rotina era vazia, chata ou desgastante. Mas tem tanta coisa que eu quero fazer e não cabia no tempinho que sobrava depois das 12h gastas entre sair pra o trabalho e voltar, sabe? Projetinhos engavetados há tempos, porque não me sobrava energia no tempo livre pra fazê-los florescer (ou, se for o caso, trabalhar neles por tempo suficiente pra perceber que devem ficar na gaveta mesmo, e dá-los por encerrados).

O resultado? Frustração. Sentia que não tava dando 100% de mim em nada, e que tava deixando de lado coisas que são muito importantes pra mim.

Um sentimento de culpa me rondava quase sempre que eu passava minhas noites e finais de semana fazendo algo que podia ser considerado “não produtivo”, ou seja, aproveitando o tempo com amigos, família, livros e outras coisas fundamentais na vida, em vez de me dedicar às tais ideias engavetadas. Resultado: ansiedade, falta de foco e a sensação de que a vida tava passando rápido demais.

Por um tempo cheguei a torcer que meu trabalho ficasse ruim, pra justificar pra mim mesma e pra o mundo a vontade de mudar. Mas percebi que o julgamento do mundo não importa e que a justificativa dentro de mim já existia.

Apesar de difícil, esse era o momento: não tenho filhos, meus pais têm saúde, não pago prestação de carro nem apartamento. Não que tudo isso seja impedimento pra quem quer mudar de rumo, mas saber que (ainda) não tenho esse tipo de amarras me faz sentir que essa é a hora de, mais do que nunca, sair da zona de conforto e viver outras experiências.

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Tenho bons planos pra 2017. Alguns deles ambiciosos, que talvez nem se realizem, e outros simples, focados mais em aumentar minha qualidade de vida e meu desenvolvimento pessoal. Tem muita coisa que quero aprender, melhorar, conhecer, provar. E, apesar de nunca ter me visto como empreendedora (no sentido amplo), durante esse ano percebi que posso, sim, tomar as rédeas da minha vida.

Nem que seja pra, mais pra frente, constatar que o caminho que eu vinha seguindo era realmente o mais certo pra mim. Afinal, se for esse o caso, no mínimo vou ter vivido e aprendido um bocado. E é preciso sempre lembrar que a vida, como esse ano também reforçou, é um sopro.

Penso nisso tudo quando bate o medo, porque é claro que ele marca presença aqui e ali. Mas quando acordei às 9h30 em plena quinta-feira no primeiro dia de desemprego, achando estranho estar em casa enquanto meus amigos mandavam mensagens no grupo da firma falando que tavam presos no engarrafamento, recebi uma das mensagens do Decola Lab que chegam uma vez por semana no Whatsapp com pequenas doses de inspiração.

Era um trecho de um texto de Osho, que normalmente eu talvez achasse meio brega, mas nesse momento pareceu que tinha sido enviado especialmente pra mim:

“Diz-se que antes de um rio cair no oceano ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada, os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas, através dos povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. Você pode apenas ir em frente. O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entra no oceano é que o medo desaparece. Porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas tornar-se oceano.”

Agora é hora de mergulhar e ver no que vai dar – com frio na barriga, sim, mas é assim que a vida tem que ser. Vamos comigo? :)

Crédito da foto em destaque: Pexels – licença Creative Commons Zero (CC0)

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25 Comentários

  1. Oi, Luisa! Muito sucesso nos projetos que vão sair da gaveta!! Só não esqueça de nos contar!

  2. Aline

    Luísa, esse texto poderia ter sido escrito por mim porque estou vivendo E X A T A M E N T E a mesma coisa. Foi ótimo ler esse texto hoje, num dia que estou questionando justamente essa minha tomada de decisão.

    • Que massa, Aline! Acho que os questionamentos sempre vão surgir, mas se no fim das contas estiver fazendo sentido tá super valendo, né? Boa sorte na tua caminhada! :)

  3. Bruno Rafael

    Muito massa! só isso!

  4. Gabriela Máxima

    Eu fiquei com vontade de responder esse teu post numa mensagem privada de wa, mas decidi aproveitar esse espaço para a mensagem ficar registrada no seu devido lugar. :)

    Queria que o mundo pensasse um pouquinho como tu. De como os valores e caminhos da vida são descobertos em movimento. Vai virar oceano mais uma vez, minha linda! A jornada é feita de descobertas. Beijão

    • Em movimento: acho que é bem isso! Obrigada pela mensagem carinhosa <3 É muito bom ter com quem compartilhar as descobertas. Beijo beijo beijo

  5. Eu sempre digo isso, mas vou dizer de novo: Você é uma inspiração. Desejo todo sucesso sempre, Luísa.

    • Own, Débora. Que linda vc :D Obrigada pelo comentário! São mensagens assim que dão ainda mais energia pra gente aqui do outro lado da tela :) um abraço!

  6. Eu fiz exatamente isso que você fez, só que tinha 3 filhos. Fiz uns planos que não saíram exatamente como tinha planejado, penei, penamos; eu, meu marido e os filhos, mas no final, foi a partir dessa luta que mudei minha história. Não vou dizer que não houve momentos em que me arrependi, mas valeu a pena! E o melhor é que quanto mais mudamos, mas nos fortalecemos para arriscar novas conquistas! Sucesso!

    • Oi, Ana Luiza! Coragem enorme arriscar com três filhos. Parabéns pela luta e por tudo que você aprendeu :) Já imagino que meus planos não sairão exatamente como planejado, mas tou confiante de que vai valer a pena sim! Muito obrigada pelo comentário e sucesso pra você também ;) Um abraço!

  7. Davi

    Parabéns pela coragem de não tomar o caminho mais fácil, de resignação com a rotina e abandono dos sonhos. Não desista. Boa sorte

  8. Marjorie

    Me identifiquei muito com o texto, comecei minha vida nômade em 2015 e ainda continuo na jornada, não vou mentir que é viciante, já tentei voltar, mas não consegui ou ainda não era a hora, quer dizer, voltar pra onde né? Quando o mundo é seu novo lar.

    Mas minha história é bem parecida, larguei um emprego que era o sonho de muitos por uma vida dos meus sonhos ;)
    Talvez um dia possamos nos encontrar por esse mundão, boa viagem!

    • Oi, Marjorie! Que massa que essa vida tá dando certo pra você :D Espero que continues sendo feliz com tuas escolhas, seja como for! Ainda tou tentando descobrir que modelo funciona melhor pra mim, mas esse “experimentar” é bom demais :) Espero que nos encontremos por aí, sim! Seria massa trocar uma ideia ;) Valeu pelo comentário! Um abraço

  9. Daylan

    Muitos me apoiaram menos quem eu menos esperava não apoiar , meu marido

  10. Rosalina Fulai

    Ola Luisa, muito obrigada pelo texto inspirador.

    Realmente tem momentos em que voce para pensar no que esse trabalho ou emprego tao sonhado e tao querido por muitos esta ajudando.
    Tambem estou prestes a tomar a mesma decisao, Trabalho a 4 anos como contabilistas, o trabalho e duro, amo esse trabalho, amo o salario mas muita coisa esta parada na minha vida, nao tenho tempo para cuidar da minha filha da minha casa, de mim mesma vivo numa rotina que nao esta me dexando feliz.

    estou mesmo com medo de entrar no oceano e ou me arrepender, vou arriscar pois so assim saberei se e o caminho da felicidade.

    • Oi, Rosalina! Acho que é bem por aí mesmo! Se você tiver condições de arriscar, vai nessa :) Recomendo ter algum plano e uma reserva financeira pra não se desesperar. Mas se você não tá feliz e consegue se organizar pra isso, tem que ir com medo mesmo! Você só vai saber se tentar. Um abraço e boa sorte!

  11. Viviane Souza

    Nossa foi libertador ler o seu texto. Estou prestes a questionar essa segurança de estar empregada com “salario garantido” mensalmente! Para empreender no que mais amo.
    Vou sair de um escritório, rotinas de 11 anos, para abrir um pet e cursar veterinária, se tudo der certo! Obrigada.

    • Oi, Viviane! Que legal ler esse comentário! Fico muito feliz por você. Com planejamento e motivação, acho super válido se jogar atrás do que faz sentido pra gente :) Muito sucesso nesse novo caminho! Um abraço

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