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Viajar sozinha na Índia: é seguro? Dicas e relatos de viajantes

Índia | 08/04/21 | Atualizado em 29/07/21 | Deixe um comentário

Desde que voltei de um mochilão de 50 dias por esse país incrível, muitas mulheres me perguntam como é viajar sozinha na Índia. Nesse post, vou compartilhar minhas experiências pessoais, dicas práticas pra você se sentir em segurança na Índia e depoimentos de outras viajantes que também viajaram por lá.

Como foi minha viagem pra Índia

Eu fui pra Índia entre janeiro e março de 2020, totalizando 50 dias, mas não fiquei sozinha na Índia o tempo inteiro. Durante boa parte da viagem, estava acompanhada por um dos meus melhores amigos, que é indiano. Mas fiz algumas atividades sozinha enquanto estava com ele, e segui viagem por conta própria depois de algumas semanas. A maioria das fotos desse post foi tirada pelo meu amigo, porque ele é fotógrafo (@vivekgandhiphotography no Instagram) e quando estava só tirei muito menos fotos :P

Passei por Mumbai (onde mora meu amigo), Udaipur, Jodhpur, Jaisalmer, Pushkar, Jaipur, Agra (onde fica o Taj Mahal), Delhi, Rishikesh (incluindo um período num ashram) e McLeodGanj (onde só fiquei um dia, por precisar antecipar o voo devido à pandemia).

É possível circular pelo país com muito conforto se você contratar empresas privadas pra fazer os traslados, ficar em hotéis de luxo e assim por diante. Mas o meu estilo de viagem pela Índia foi mais no esquema “mochileira”, ainda que sem passar perrengues desnecessários.

Pra circular entre as cidades, peguei alguns voos e ônibus, mas usei principalmente o sistema de trens do país, que é confuso e tem atrasos e cancelamentos, mas no geral achei muito bom.

Em termos de hospedagem, procurei quase sempre quartos privativos em albergues ou pousadas mais simples, mas com segurança e higiene.

Pra os deslocamentos internos, usei transporte público nas cidades maiores, como Mumbai (trens urbanos) e Delhi (metrô, achei excelente). Nelas e nas demais, andei muito de tuk tuk (também conhecidos como auto rickshaws) e de Uber.

Amei DEMAIS minha viagem pela Índia e quero muito voltar lá. É um destino perfeito pra quem acha que o imprevisível torna a viagem mais bonita e quer se sentir viva a cada segundo. Lá, você vai se encantar só de sair na rua e observar as pessoas, vai encher os olhos com obras arquitetônicas e paisagens impressionantes, tirar fotos lindas e questionar seu jeito de ver o mundo.

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Por que viajar sozinha na Índia?

Eu adoro viajar sozinha porque me permite superar medos, ter total flexibilidade pra fazer meus próprios planos, me envolver com o ambiente de forma mais profunda, me conhecer melhor e conhecer gente nova. São muitas vantagens, né? Mas é claro que existem, também, algumas desvantagens, especialmente sendo mulher.

A maioria dos mochilões que já fiz na vida foram sem companhia, em geral por escolha mesmo. No caso da Índia, fiz boa parte da viagem com meu amigo porque ele é uma das pessoas com quem mais “combino” em termos de viagens. Nos conhecemos viajando, aliás – enquanto eu fazia um mochilão sozinha pela Europa e voluntariei num hostel em troca de hospedagem.

E apesar de amar a companhia dele, fiz questão de fazer parte da viagem sozinha por todos os motivos que citei acima e mais alguns. O primeiro era que queria sair da minha zona de conforto. Como esse blog é meu trabalho, costumo viajar com bastante frequência, e vinha sentindo falta do frio na barriga que batia quando comecei a cair na estrada.

Acho muito mais tranquilo viajar sozinha na Índia do que a maioria das pessoas imagina, mas não posso negar que é, sim, uma experiência mais desafiadora do que mochilar em outras partes do mundo, como América Latina, Estados Unidos e Europa. Eu queria não só conhecer essa cultura tão fascinante, mas também sentir que dava conta sozinha, sabe?

Se você sente vontade de viajar sozinha pra Índia, acho que essa tem tudo pra ser uma experiência incrível. E sentir que estamos superando medos infundados e preconceitos e exercitando nossa independência é massa demais.

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viajar sozinha na índia

Foto: Vivek Gandhi

Como é viajar sozinha na Índia

Tá, mas como foi de fato a minha experiência viajando sozinha pela Índia? Como comentei acima, achei muito mais tranquilo do que pensava. Realmente não foi tão fácil quanto em outros destinos, mas não me senti insegura e não passei por nenhuma situação ruim.

Muitas mulheres viajam sozinhas por lá, e no final desse texto você encontra os depoimentos de três delas. Conversando com as que cruzaram meu caminho, encontrei quase sempre a mesma opinião: o “terror” que as pessoas costumam fazer sobre o país é bem pior que a realidade.

Existe, sim, mais assédio na Índia que em muitos outros lugares do mundo, e conheço mulheres que passaram por situações chatas de “passada de mão”. Também existe gente querendo dar golpes em turistas, sejam eles homens ou mulheres, pra tirar vantagens financeiras.

Como em toda viagem, é preciso entender a realidade local. A Índia é um país muito populoso com uma desigualdade econômica extrema. Além disso, o machismo é bem enraizado na cultura. Muitos homens ainda veem as mulheres como inferiores e existe muito tabu em relação a liberdade sexual, por exemplo.

Além disso, alguns hábitos e costumes, como a forma de se vestir, são simplesmente diferentes dos nossos. E não faz sentido uma estrangeira querer impor seu jeito num lugar que está visitando, né? Acho importante respeitar e se adaptar à realidade local.

Mas é claro que não dá pra generalizar. Existem hoje muitas pessoas mais conscientes em relação ao peso do machismo, e em algumas partes do país a visão de mundo dominante é bem mais “progressista” que em outras.

Outro ponto a ser considerado por quem viaja sozinha na Índia é que a infraestrutura do país não é das melhores. Não dá pra ir pra lá achando que você vai ter as mesmas facilidades que teria na Suíça, por exemplo, até porque esse é um país do Sul global que foi e ainda é muito explorado. Mas também não achei muito pior que viajar com pouca grana pelo Brasil.

Por outro lado, praticamente não se encontra na Índia a violência urbana que temos aqui. Meu amigo indiano veio ao Brasil e se espantou quando eu e outras pessoas falamos que não era aconselhável andar pelas ruas com a câmera fotográfica na mão, por exemplo. Lá na Índia acontecem furtos, especialmente em lugares lotados, mas assalto a mão armada e coisas do tipo são quase inexistentes.

Outro ponto positivo é que os indianos costumam ser hospitaleiros e amigáveis. Obviamente isso é uma generalização, e entre mais de um bilhão de pessoas tem gente que se comporta de todo jeito, né? Mas pela minha experiência e das minhas amigas, a imensa maioria das pessoas sente uma genuína curiosidade pra conhecer quem vem de fora e, se possível, ajudar.

Viajar sozinha na Índia é uma experiência intensa, e em alguns momentos provavelmente será cansativa e estressante. Mas se você for de coração aberto, certamente será também maravilhosa e talvez até transformadora.

Seguindo cuidados como os que vou citar a seguir, acho improvável você ter problemas sérios por lá. Espero que você se apaixone pela Índia tanto quanto eu, que já estou doida pra voltar. Se esse é seu sonho, se prepare e vá vivê-lo!

Dicas de segurança pra viajar sozinha na Índia

A seguir, vou dar algumas dicas pra você se sentir mais segura viajando sozinha na Índia. Mas queria lembrar que nada disso é regra, e só você sabe até onde se sente confortável.

Em qualquer viagem sozinha, seja perto ou longe de casa, acredito que sua principal arma é a intuição. Esteja atenta aos arredores, observe o comportamento das pessoas e não permaneça em lugares ou situações que a deixem desconfortável. Dito isso, vamos às dicas práticas.

Pesquise bastante

Eu sou do time que ama planejar viagens e pesquisar sobre os lugares aonde vou, então esse item não foi esforço nenhum pra mim. Mas mesmo se você preferir viajar de forma 100% espontânea, sem saber nada sobre os destinos, acho interessante abrir uma exceção aqui.

Acredito que minha viagem pela Índia foi muito mais leve porque eu já tinha uma boa noção do que me esperava lá. Já sabia mais ou menos como eram as cidades que ia visitar, conhecia muitos dos golpes aplicados nos turistas, tinha ouvido as principais reclamações de viajantes…

Isso me ajudou muito a evitar vários perrengues e enfrentar os mais inevitáveis com mais leveza e bom humor (nem sempre, mas faz parte :P).

Antes de viajar sozinha pra Índia, acho legal você ler não só esse meu artigo, mas outros relatos de viajantes que foram pra lá. Também vale a pena saber um pouco sobre a cultura do país, política, história e tradições.

E se for viajar de forma independente, como eu fiz, recomendo se informar sobre a logística da viagem, pra não cair numa roubada nem ser enrolada.

Vale a pena fazer uma busca no Google tipo “golpes turistas Índia” ou “tourist scams in India” pra conhecer alguns dos golpes que a galera costuma aplicar por lá. Um dos mais comuns é o motorista de tuk tuk cobrar muito mais do que o preço normal da corrida, já que na maioria das cidades esses veículos não têm taxímetro. Ele também pode falar que seu hotel está fechado e querer te levar pra outra hospedagem, geralmente de um comparsa dele e bem mais cara.

Tem também os golpes nos lugares sagrados, em que te convidam pra uma “cerimônia” particular e depois exigem uma “doação” exorbitante. Eu caí nesse em Pushkar, onde a prática é bem comum, mas como já tinha lido a respeito me recusei a pagar o valor (mesmo com o cara gritando atrás de mim). Também tem um golpe na compra de passagens de trem; uma das mulheres que dão depoimento lá no final do post foi pega nessa e contou sobre ele.

Outra coisa que aprendi pesquisando sobre viajar sozinha na Índia foi que muita gente vai pedir pra tirar foto com você. Isso acontecia um pouco enquanto eu estava com meu amigo, mas quando fiquei sozinha era mais frequente.

Saber disso de antemão me fez entender que essa é uma prática super normal, e acho compreensível: pra eles, somos bem diferentes. Especialmente se você for branquinha e loira, por exemplo, vai ser inevitável chamar atenção.

Tem quem ache esses pedidos um saco, mas eu sempre pensava em como os indianos parecem interessantes pra gente, e no tanto de fotos que tiramos das pessoas por lá. Por que nós podemos ser curiosos e eles, não?

Geralmente eu aceitava os pedidos de selfies se fossem de mulheres ou famílias (aliás, não se assuste se te derem uma criança pra segurar pra foto). Quando eram homens sozinhos, às vezes eu não estava a fim e dizia não, tentando não ser grosseira. Mas muitas amigas tiravam fotos com homens. Uma delas, Babi, falou sobre isso no depoimento no final desse post.

Conversando com mulheres que tinham viajado sozinhas na Índia, ouvi também alguns relatos de assédio em lojas. Por isso, evitei ficar sozinha com funcionários homens numa loja muito escondida, especialmente provando roupas.

E além da pesquisa antes de ir pra o país, vale a pena se manter sempre informada conversando com os recepcionistas da sua hospedagem e com outros viajantes. Eu costumava perguntar o valor médio das corridas de tuk tuk, por exemplo, pra saber negociar se tentassem me enrolar. Se o motorista me falasse um preço absurdo e eu respondesse com segurança, mostrando que sabia que não era tanto, geralmente ele aceitava meu valor.

Resumindo: informação é poder. Pesquisar antes de ir viajar pela Índia vai te dar mais confiança, além de ajudar a ajustar expectativas e evitar possíveis frustrações.

pushkar, na índia

Foto: Vivek Gandhi

Viaje devagar

Sei que nem todo mundo tem tempo pra fazer um mochilão longo pela Índia, como eu fiz. Mas mesmo que você tenha só umas semanas de férias, recomendo montar um roteiro mais lento do que você faria se fosse num país com mais estrutura ou com uma cultura mais familiar.

Pode ser cansativo viajar sozinha na Índia, porque são muitos estímulos o tempo inteiro (barulho, cores, cheiros) e porque você precisa ficar bastante atenta.

Além disso, alguns lugares têm uma infraestrutura mais precária, como mencionei. Pode ser que seu ônibus quebre na estrada, que o trem atrase, que o motorista do táxi queira parar pra almoçar….

Com um itinerário mais folgado, é mais fácil administrar imprevistos sem se estressar e entender como funcionam as coisas em cada nova cidade sem afobação.

Cuide da saúde

Uma prioridade pra mim em qualquer viagem sozinha é cuidar da minha saúde. Ficar doente ou sofrer acidentes viajando é péssimo de qualquer jeito, mas quando você não tem companhia e está num lugar com a cultura mais diferente é pior ainda.

Estando bem de saúde também é muito mais fácil sair de eventuais perrengues, tipo fazer check-out de um hotel que parece estranho e ir caminhando com o mochilão pra buscar outra opção. Doentes, ficamos mais vulneráveis e pode ser mais difícil tomar decisões racionais e agir rapidamente quando necessário.

É claro que não tem como garantir que você não vai passar mal na sua viagem sozinha na Índia. Pelo contrário: considerando a quantidade de especiarias na comida e o nível meio questionável de higiene em muitos estabelecimentos, é provável que você tenha algum piriri. Mas é bom evitar algo mais sério, né?

Recomendo fazer um check-up médico antes de viajar e, se possível, consultar um médico do viajante pra saber sobre remédios que deve levar. Eu costumo viajar com uma farmacinha com todos os medicamentos que tomo eventualmente, tipo analgésicos, antitérmicos, antialérgicos, colírio, pastilhas pra garganta… Se você tem algum problema de saúde específico, não se esqueça de se prevenir.

Outra dica importantíssima é fazer seguro viagem. Eu nunca vou pra o exterior sem seguro e já precisei acionar a empresa diversas vezes: no México, na Hungria, na Inglaterra, na Alemanha, nos Estados Unidos… Sou quase uma garota propaganda não intencional, hahah.

Pra quem viaja sozinha, acho esse item ainda mais importante, especialmente em países com infraestrutura meio precária. Se você ficar doente ou se acidentar sem seguro, vai ser muito mais complicado.

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Fique atenta nos transportes

Algumas das dicas mais importantes sobre viajar sozinha na Índia são referentes aos deslocamentos, seja entre um destino e outro ou dentro de uma mesma cidade.

Transporte entre cidades

Em linhas gerais, eu recomendo chegar em cidades novas durante o dia, sempre que possível. Assim, você evita circular à noite e tem muito mais facilidade pra se situar.

Existem companhias aéreas de baixo custo na Índia, e peguei dois voos muito tranquilos por lá. Pra quem viaja de avião, eu recomendaria os mesmos cuidados que você teria em qualquer outro lugar. Mas os viajantes econômicos costumam se deslocar de ônibus ou trem, e aí existem algumas dicas importantes.

Quando estava sozinha, evitei viajar de ônibus porque as estradas não costumam ser muito boas e eu enjoo muito. Além de ser desconfortável, isso afeta minha segurança, porque quando estou enjoada (e mais ainda quando tomo remédios pra enjoo, que dão sono), não consigo pensar com clareza e reagir com rapidez.

Caso isso não seja um problema pra você, ótimo! Eu não andei de ônibus noturno, mas os amigos que andaram gostaram da experiência. Em muitos trechos você vai em camas, como num trem. Nesse caso, a dica é tentar reservar poltronas ou camas pra uma só pessoa, porque pode ter opções com dois assentos coladinhos. Pra comprar as passagens, indico usar o site RedBus.

Pra evitar os ônibus, quando estava viajando sozinha pela Índia eu dei prioridade aos trens. Gostei muito do sistema ferroviário de lá, apesar de ser confuso de entender. Recomendo pesquisar sobre isso antes – tem muitos blogs gringos que explicam tudo direitinho.

Pra quem viaja sozinha na Índia, uma recomendação é optar pelas classes mais altas nos trens, especialmente em trechos longos e noturnos. First Class, AC Tier 1, AC Tier 2 e AC Tier 3 são as classes com ar condicionado e camas numeradas individuais. Convertendo pra Reais, a diferença no preço entre as classes costuma ser pequena, então acho bem válido investir em segurança e conforto.

Outra dica é, na hora de reservar, escolher a cama de cima. Assim você tem mais privacidade e tem menos chance de alguém sentar na sua cama como se nada (algo muito comum durante o dia).

Fique ligada: a Sleeper Class é a classe mais baixa, onde costuma entrar muita gente que nem comprou passagem. Eu usei essa classe pra ir de Jaipur pra Agra e de Agra pra Delhi porque amigas me falaram que esses eram trechos mais vazios, e porque eu queria ter a experiência.

Realmente foi bem tranquilo, mas não sei se foi sorte. Em um dos trechos tinha uma família bem espaçosa praticamente sentando no meu colo, mas eu já sabia que isso acontece e não era um percurso longo, então achei até divertido. Ah, e as janelas abertas deixavam entrar bastante poeira e areia, mas nada demais.

Não é fácil comprar as passagens online, mas recomendo tentar, ou então ir na estação assim que chegar no destino pra já comprar a passagem de saída pra cidade seguinte. Se deixar pra última hora, pode ser que você não consiga vaga no dia desejado, ou que só encontre passagens pra classe mais baixa.

viagem de trem na índia

Transportes dentro de uma mesma cidade

Nos deslocamentos dentro das cidades, é bom ficar atenta aos motoristas de tuktuk enrolões que já mencionei. É muito comum quererem cobrar um valor mais alto, te convencer a ir numa loja onde eles ganham comissão ou mentir sobre o funcionamento do seu hotel. Por isso, recomendo negociar o preço antes de entrar no veículo. Se estiver insegura e a cidade tiver Uber ou o concorrente Ola, pode ser uma opção pra os primeiros dias, já que o valor aparece no aplicativo.

Outra recomendação é algo que costumo fazer viajando sozinha em qualquer lugar do mundo: ao fazer um trajeto que não conheça, acompanho o percurso no Google Maps. Tento ficar atenta pra ver se estão me levando pra o lugar certo. Fazer comentários sobre o caminho mostra que você tem noção das coisas e não é facilmente “enrolável”.

Ah, e mostrar o mapa pra o motorista também pode ser uma opção caso ele não fale inglês e você queira se certificar de que ele entendeu pra onde você quer ir.

Em cidades grandes como Mumbai e Delhi, andei algumas vezes no transporte público. O trem urbano de Mumbai é conhecido por ficar MUITO lotado nos horários de pico, especialmente nas estações mais centrais. Se for pra lá, recomendo se informar sobre os trechos e horários a evitar.

Fora da hora de rush e nos vagões de primeira classe (você escolhe a classe na hora de comprar o bilhete e a primeira é bem barata também), achei muito tranquilo andar nos trens de lá – bem mais que nos ônibus que costumo pegar no Brasil. Lá em Mumbai eu estava com meu amigo, mas se você estiver sozinha, procure saber qual é o vagão só pra mulheres e dê prioridade a ele.

Em Delhi, eu andei bastante de metrô e gostei muito. Também tem vagão exclusivo pra mulheres, geralmente sinalizado no chão da plataforma e na lateral do vagão, como na imagem abaixo.

Por fim, uma dica que vale pra qualquer lugar do mundo: no trem, ônibus ou metrô, especialmente se estiver lotado, não deixe bolsas ou mochilas nas costas, porque você pode ser furtada.

vagão feminino no trem de mumbai

Tenha internet no celular

No item anterior, falei sobre acompanhar o mapa pelo Google Maps. Você pode fazer download do mapa da cidade no aplicativo, ou usar o app Maps.Me, que funciona off-line. Mas acho melhor ter conexão à internet, não só pra acompanhar o percurso como pra poder pesquisar informações no Google ou entrar em contato com alguém se necessário.

Existem várias operadoras de celular na Índia com simcards (chips de telefone) baratos. Pra fazer o seu, você tem que ir na loja com seu passaporte e fotos 3×4. Recomendo pedir informações na sua hospedagem assim que você chegar na primeira cidade.

Prefira passear e se deslocar entre destinos durante o dia

Também mencionei brevemente a questão de chegar nos lugares durante o dia, mas queria reforçar. Eu tento fazer isso em todas as viagens, até mesmo no Brasil, porque chegando à noite num lugar que não conheço me sinto muito mais vulnerável.

Muitas mulheres que viajam sozinhas na Índia também recomendam evitar sair pra passear à noite. Eu acho que isso não precisa ser uma regra rígida, mas algo que você vai sentindo quando estiver no lugar, dependendo da região onde estiver hospedada.

Eu saí sozinha à noite nos arredores do meu albergue em Delhi, mesmo sendo uma área com aparência meio “esquisita”, porque já tinha passado alguns dias lá e conhecia a dinâmica do lugar. Ainda assim, evitei ficar na rua depois que as lojas fechassem e não fiquei entrando em ruas pequenas e vazias.

Em cidades muito turísticas, como Rishikesh, também me senti confortável pra andar sozinha à noite, mas sempre nos caminhos que já conhecia e enquanto tinha algum movimento do comércio.

Se você estiver viajando sozinha na Índia e quiser sair pra jantar, por exemplo, vale ver se alguém da sua hospedagem quer ir junto (se estiver num hostel obviamente é mais fácil). Outra opção é procurar um restaurante próximo ao seu hotel e fazer o caminho durante o dia pra ver se parece seguro. Também vale tentar ir cedo e voltar cedo.

viagem pela índia

Foto: Vivek Gandhi

Pesquise hospedagem com atenção

Falando em hotel e hostel, recomendo ter uma atenção extra à busca de hospedagem se você for viajar sozinha na Índia. Pra mim, o ideal é ficar em quarto privado ou feminino em albergues, porque facilita conhecer outros viajantes e ter companhia se quiser. Muitos também oferecem passeios em grupo.

Não existem tantos hostels na Índia, mas na maioria das cidades turísticas você encontra ao menos uma ou duas boas opções. A rede GoStops geralmente tem boas avaliações. Fiquei na unidade deles em Udaipur e curti muito. Também conheci as redes Moustache e Zostel; fiquei num Zostel em Pushkar e gostei. Em Rishikesh, fiquei no Shalom Backpackers e amei tanto a atmosfera de lá que prolonguei minha estadia na cidade.

Vale ressaltar que nenhum hostel onde me hospedei na Índia tinha cozinha compartilhada, como é comum em outros lugares. Em compensação, sempre tinham restaurante com preços bons e comida razoável.

Nas cidades turísticas indianas existem hotéis de grandes redes internacionais, como Ibis e Holiday Inn, Marriott e Radisson, que podem ser uma boa pra quem tem orçamento mais folgado e nível de exigência mais alto.

Eu geralmente prefiro não só economizar, como também incentivar negócios locais, e achei as pousadas onde fiquei bem organizadas e com preços bem em conta. Indiquei minhas hospedagens em cada cidade no post sobre quanto custa viajar na Índia.

Ao pesquisar hospedagem, é importante checar com atenção as avaliações de hóspedes anteriores, que estão disponíveis em sites de reserva como o Booking.com. Se possível, recomendo considerar principalmente a opinião de mulheres estrangeiras.

Ah, mais uma coisa: em todas as hospedagens em que fiquei, toda a equipe era formada por homens, da recepção à cozinha e limpeza. Não estranhe isso, porque é comum por lá, mas vale ficar ligada.

Leia também:
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Como é ficar em albergues: tudo que você precisa saber

Vista-se de forma conservadora

Finalmente cheguei a um dos pontos que me parecem mais importantes pra quem viaja sozinha na Índia: o vestuário.

O ideal pra sua segurança e tranquilidade, e também por respeito à cultura local, é tentar se adaptar aos costumes do país. No caso das roupas, é bom que sejam frouxas, abaixo do joelho, sem decote e cobrindo os ombros. Dá pra usar tops cropped, porque o sari que muitas indianas usam mostra parte da barriga. Mas no geral, a ideia é ser mais conservadora mesmo.

Considerando o calor que faz em muitas partes da Índia e os looks mais comuns aqui no ocidente, pode parecer difícil se vestir assim, mas peças larguinhas e de tecido fresco dão conta do recado.

E não se preocupe em comprar um monte de roupas antes de ir! Se você tiver umas duas saias e/ou calças longas e soltinhas e umas camisetas de manga frouxas e sem decote, já está ótimo. Chegando lá, com certeza você vai achar muita roupa pra comprar. Fiquei louca nas feirinhas de rua de Udaipur, Pushkar e Rishikesh.

Eu levei do Brasil uma saia longa e uma calça pantalona e usei muito ambas, além de legging com blusas longas que cobrissem o bumbum. Complementei o mochilão com peças baratas e bonitas que comprei lá: calças de algodão, macacões, blusinhas…

Chegando lá, preste atenção no estilo das roupas que as mulheres locais usam e tente usar algo mais ou menos parecido. O clichê de “roupa indiana” com elefantinhos não é bem a realidade. :P

Ah, e uma ótima dica é levar sempre um lenço na bolsa. Assim, você pode cobrir mais os ombros ou o decote se sentir que está atraindo olhares, ou cobrir a cabeça pra entrar num templo.

E eu tentava escolher roupas especialmente discretas quando sabia que ia usar muito transporte público, ou nos deslocamentos de uma cidade pra outra.

o que vestir na índia

Foto: Vivek Gandhi

Evite multidões

Por fim, uma dica muito importante: evite estar na rua, especialmente sozinha ou acompanhada só por outras mulheres estrangeiras, em eventos que atraem multidões.

A maioria das histórias de assédio na Índia que já escutei aconteceu em grandes festas como o Holi, festival das cores, em que a imensa maioria dos frequentadores são homens, que muitas vezes bebem e usam drogas. No meio da confusão, ao verem mulheres ocidentais é comum que eles tentem “passar a mão”.

O ideal é passar longe de aglomerações em geral (mesmo sem pandemia), mas na Índia isso nem sempre vai ser possível, já que tem muita gente mesmo. Quando der, evite trens e ônibus muito cheios e prefira caminhar por ruas que tenham movimento, mas não estejam lotadas.

Ainda se sente insegura de ir sozinha pra Índia?

Se você se sente muito insegura de viajar sozinha pra Índia de forma independente, existem algumas alternativas pra deixar a experiência mais fácil.

Uma dica é começar seu roteiro ou passar mais tempo em cidades com muitos estrangeiros e brasileiros, como Rishikesh (foto abaixo). Passei uma semana sozinha lá e me senti muito segura. E eu não cheguei a ir pra o sul do país, mas falam que Goa é mais “ocidentalizada” e que o lindo estado de Kerala, que tem o IDH mais alto do país, também é mais tranquilo pra estrangeiros.

viajar sozinha na índia - rishikesh é uma boa opção

Outra opção é ficar um tempo num ashram (espaços dedicados à prática de yoga, meditação etc.). Se escolher um bem avaliado, você provavelmente estará muito segura. Eu fiquei no Swami Rama Sadhaka Grama e adorei.

Você também pode contratar uma agência tradicional ou guia local, que infelizmente não sei indicar. Ou pode viajar com a Vem Comigo pra Índia, que se define como uma “não-agência de viagens”. Essa pequena empresa foi criada por um casal de brasileiros que organizam viagens pra pequenos grupos com roteiros maravilhosos.

Não viajei com eles, mas conheci a co-fundadora Larissa porque parte da minha viagem coincidiu com um grupo dela e temos amigas em comum. Achei ela uma querida e muito profissional.

Depoimentos de mulheres que viajaram sozinhas na Índia

Pra finalizar esse longuíssimo post, quis trazer contribuições de outras mulheres que viajaram sozinhas na Índia, pra que vocês tenham acesso a outras visões além da minha. A primeira, Babi, me deu muitas dicas antes de eu ir pra lá, e as duas últimas eu conheci durante a viagem. Obrigada pelos depoimentos, meninas!

Babi Cady – @babicady no Instagram – passou 3 meses sozinha na Índia e 1 mês com a mãe

“Eu tinha muito medo de ir pra Índia por conta de tudo que as pessoas falam, e pra mim foi muito importante buscar referências com outras mulheres antes de ir. Me senti muito segura viajando por lá sozinha e resolvi levar minha mãe. Pegamos transporte público, trem, ônibus e não tivemos problemas.

Uma das dicas que eu dou é observar as mulheres indianas. Elas não mostram muito o colo, por exemplo. Acho importante a gente tentar se adaptar à cultura local. Ter sempre um lenço na bolsa é muito importante. Em situações em que você se sentir desconfortável, você coloca um lenço.

Outra dica: quando estiver na dúvida se um cara está invadindo seu espaço, pense se ele faria aquilo com uma mulher local. Por exemplo, uma vez eu estava conversando com um homem e ele colocou a mão no meu joelho. Na nossa cultura, talvez isso não fosse algo assim tão grave, mas na Índia eles não colocariam a mão no joelho de uma mulher indiana que eles não conhecem. Então na segunda vez em que ele fez isso, eu pedi pra ele não tocar no meu joelho. É importante a gente estabelecer nossos limites.

Outra coisa é que homens e mulheres pedem pra tirar foto, mas às vezes os homens queriam tirar alguma vantagem. Então se pedirem pra tirar foto com você, preste atenção no seu espaço. Se colocarem a mão perto da sua cintura ou tentarem encostar na sua perna, crie distância pra se sentir mais segura.

Não tenha medo de colocar limites e dizer “não”, que não está gostando de alguma coisa. Os homens indianos não estão acostumados com as mulheres reagindo. Então se algum homem fizer algo que você não se sinta confortável, grite ou fale alto, porque provavelmente ele vai se assustar e sair. Pode falar “SAI DAQUIII”, por exemplo, mesmo que seja em português. Vai chamar atenção e eles vão se sentir envergonhados.

Ah, me disseram pra não andar nas ruas da Índia à noite. Eu quebrei essa “regra” já no primeiro dia de viagem e não tive nenhum problema, mas tem quem prefira evitar.”

Também entrevistei Babi pra o post sobre Retiro Vipassana: 10 dias meditando em silêncio na Índia e pra o Annapurna Base Camp por conta própria: tudo sobre a trilha no Nepal.

babi cady viajando sozinha na índia

Luciane Sturaro, @simplesmentevou no Instagram – passou 1 mês na Índia

“Demorei muito pra tomar coragem pra ir sozinha pra Índia. Conversei com muitas mulheres viajantes, li muitos artigos… Me preparei bastante. Mas apesar de ter ido só, acabei não ficando sozinha quase nunca.

Eu tinha conhecido uma menina indiana na Itália, antes de ir pra Índia. A mãe dela me recebeu, então logo que cheguei fui pra casa de uma local, que passeou comigo nos primeiros dias. Depois mudei pra um hostel sozinha, mas acabei conhecendo brasileiros e estava quase sempre com eles. Tem muitos brasileiros e outros gringos viajando por lá, e as pessoas acabam viajando juntas. Dá pra ir sozinha e acabar encontrando pessoas.

Minhas recomendações são não sair à noite, tomar cuidado com a vestimenta e se preparar bem.

Mesmo pesquisando muito, sofri um scam (golpe). Precisava comprar uma passagem na estação de trem, porque não tinha conseguido comprar pelo site. Pesquisei e li as instruções sobre o lugar onde vendem as passagens pra turistas.

Quando eu e um amigo chegamos no tuk tuk, o motorista disse que esse lugar ia fechar e nos levou pra outro mais distante. Chegando lá, queriam cobrar 200 euros pela passagem de trem, que custava dezenas de vezes menos que isso.

Outra coisa chata aconteceu quando eu estava em Pushkar durante o Holi Festival. Já tinha lido pra não comemorar na rua, porque podia ser perigoso, mas estava com duas brasileiras e pensamos em ir cedo e voltar cedo.

Fomos às 10h e percebemos que o pessoal fica bem alterado, então não fomos muito pra muvuca. Pra ir embora, precisamos passar pela multidão, e aí foi mão pra tudo que é lado. Nada muito diferente do nosso Carnaval, né? Infelizmente já sofri isso no Carnaval do Brasil também.

Só que depois disso, as meninas ficaram no hostel delas e eu fui andando até o meu, e quando entrei numa ruazinha, veio uma moto com dois caras e um deles desceu e tocou nas minhas partes íntimas. Chutei ele, fiquei super apavorada. Esses dois fatos me fazem pensar que a Índia pode ser mesmo perigosa, é preciso estar atenta 24h por dia.

Mas eu sou de São Paulo e lá a gente sempre caminha atenta, olhando ao redor, sabendo aonde vai, escondendo itens de valor, sabendo que pode ser perigoso, principalmente pra mulheres… Em São Paulo eu já sofri assédio dentro do metrô, já fui perseguida na rua… Não acho a Índia mais perigosa que São Paulo, por exemplo. Não é nada que a gente, sendo brasileira, não saiba lidar. Só que estando num país diferente, com cultura diferente, me senti mais vulnerável.

Por outro lado, tive uma experiência muito legal num trecho em que peguei um trem sozinha. Segui as dicas de pegar segunda ou terceira classe e pegar a cama no andar superior. Eu estava super apreensiva, mas na área do trem onde eu estava tinha uma família e eles ficaram super curiosos com uma estrangeira lá. Eles compraram comida pra mim, passei a viagem inteira fazendo uma imersão cultural com eles e foi muito legal.

Os indianos em geral são muito receptivos. Adorava quando vinham famílias pra tirar foto, quando tinha interação humana, acho isso muito legal. A Índia é um país de intensidade. Você pode se sentir superbem e depois se sentir mal em questão de segundos.”

luciane viajando sozinha na índia

Talita Marques, @eusoutalitamarques no Instagram – passou 1 mês sozinha na Índia

“Viajar pela Índia sozinha é um dos maiores orgulhos que tenho, não porque tenha sido difícil, mas porque foi um passo que dei no sentido de guardar todo meu preconceito e de várias pessoas internalizado dentro de mim durante anos. Guarda-los em uma caixinha e ir com medo mesmo.

É verdade que é caótico, mas é muito mais que isso.  É vibrante, com paletas de cores diferentes, cheio de magia e espiritualidade. É desconfortável, é andar sob olhares curiosos o tempo todo e entender: “meu bem, você que é a estranha aqui!”. É sentir o gosto de todos os temperos e nos lugares mais simples encontrar as melhores comidas, talvez chegue um bezerro querendo dividir.

Senti medo algumas vezes e depois pensei: por que esse medo? Bem, esse medo apareceu em momentos em que precisei andar à noite sozinha, atravessar uma rua escura, entrar em um trem lotado com presença maciça de homens e ualá! Isso também acontece aqui no Brasil e também já aconteceu em um trem lotado de torcedores de futebol na Inglaterra. Somos mulheres e lidar com isso faz parte de quem nós somos, num mundo machista.

Indico fortemente uma viagem à Índia porque também é entender um pouco do que somos. Conhecer mais um país explorado e roubado, mas que mantém a duras penas a esperança nos olhares, sorriso e fé do seu povo e ainda assim sendo rotulado como um lugar inóspito e exótico.”

talita viajando sozinha na índia

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