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Como é um retiro Vipassana: 10 dias meditando em silêncio

Viajantes | 07/04/20 | Atualizado em 20/04/20 | 3 comentários

Passar 10 dias sem se comunicar com outras pessoas, nem mesmo através de gestos ou olhares. Sem usar o celular, ler ou escrever. Acordando às 4h da manhã e meditando por cerca de 10 horas diárias. Parece loucura? Essa é a rotina de quem faz um retiro Vipassana, dedicado ao aprendizado de uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia.

Conheço um punhado de pessoas que já fizeram um retiro Vipassana e todas foram unânimes em duas conclusões: foi muito difícil e foi muito interessante. Nenhuma delas tinha superpoderes ou hábitos muito diferentes da maioria dos ocidentais. O que todas tinham em comum, no entanto, era a vontade de viver essa experiência e descobrir mais sobre si mesmas.

Mas como é, na prática, fazer um retiro Vipassana? Pra matar um pouco da minha curiosidade, pedi que a querida Bárbara Cady (@babicady no Instagram) me contasse como foi a experiência dela.

Babi fez um retiro Vipassana em janeiro de 2019, em Sarnath, na Índia (pertinho de Varanasi). A cidade é reverenciada pelos budistas porque foi onde Sidarta Gautama, criador do budismo, teria realizado seu primeiro sermão.

“Ah, então eu preciso ir pra Índia pra fazer esse tal de Vipassana?”. Que nada! Existem vários centros ao redor do mundo que oferecem a metodologia. No site Dhamma.org, dá pra conferir mais informações sobre a técnica e encontrar lugares onde fazer o retiro.

Foi nesse site, aliás, que descobri que Vipassana significa “ver as coisas como realmente são”. Essa técnica, definida como um caminho de autotransformação a partir da auto-observação, foi criada pelo Buda Gotama há mais de 2500 anos.

Desde então, a Vipassana tem sido transmitida por uma cadeia de professores. E os centros de Vipassana da vertente do Dhamma usam hoje os ensinamentos do professor Sr. S.N. Goenka, do Myanmar, que começou a ensinar em 1969 e faleceu em 2013.

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“E quanto custa fazer um retiro Vipassana?”. A princípio, nada! Um dos preceitos da técnica é que ela não seja oferecida comercialmente. Não se cobra pelos cursos, que têm alimentação e alojamento incluídos. As despesas são cobertas por doações de pessoas que, depois do retiro, desejam dar a outros a oportunidade de também se beneficiarem.

E agora, sem mais delongas, vamos à experiência de Babi Cady, que compartilhou comigo suas reflexões, além de trechos das anotações que fez num caderno logo depois de sair do retiro.

babi cady na índia

Como é um retiro Vipassana: a experiência de Babi

O desejo de fazer um retiro Vipassana

Me interesso por meditação desde 2007, quando fiz um curso da Arte de Viver. Na época, buscava redução de estresse, ansiedade e irritabilidade. Essa experiência me ajudou muito e me trouxe autoconhecimento. Gostei tanto que fui fazendo vários outros cursos, incluindo um de quatro dias em silêncio, que adorei.

Alguns anos depois, parti em um período sabático que durou quatro anos, viajando pelo mundo. Enquanto estava na Índia, fiz dois cursos de meditação em um centro de budismo tibetano chamado Tushita, localizado em Dharamshala, no norte do país, e também amei.

Já fazia tempo que eu tinha interesse em fazer o Vipassana, que tinha conhecido através da Carol do Projeto ViraVolta, mas a princípio não me achava preparada. Achei aquilo maravilhoso e coloquei na minha lista de desejos pra o meu sabático. Fiquei esperando pra sentir que era minha hora, até que aconteceu.

A dinâmica do retiro

Tanto o hall de meditação quanto o refeitório e o alojamento eram separados entre homens e mulheres, então ninguém cruzada com pessoas do outro gênero.  No hall de meditação tinha sempre um facilitador, que é uma pessoa que fica na frente de todo mundo, no meio, num lugar mais alto.

Todas as meditações eram guiadas por áudios de Goenka. À noite, assistíamos a vídeos em que ele fala sobre os conceitos por trás da técnica e provoca reflexões. Havia também momentos pra tirar dúvidas, em que eu fazia perguntas pra me certificar de que estava fazendo tudo certinho.

Tinha também uma mulher responsável por “cuidar” das mulheres. Ela se assegurava de que a gente não se atrasasse e cumprisse toda a programação, e era com ela que deveríamos falar se tivéssemos algum problema.

homens e mulheres ficam separados no retiro

O silêncio

O silêncio praticado no retiro Vipassana é o que eles chamam de silêncio nobre. Você não pode se comunicar, nem olhar nos olhos das pessoas. Se você está comendo ou caminhando, o ideal é olhar pra baixo. É realmente um momento pra ficar consigo mesmo.

A rotina no retiro Vipassana

4h da manhã: acordar
4h a 4h30: higiene matinal
4h30 a 6h30: meditação no hall principal
6h30 a 8h: café da manhã e descanso
8h a 9h: meditação
9h a 9h10: intervalo
9h10 a 11h: meditação
11h a 13h: almoço e descanso
13h a 14h10: meditação
14h10 a 14h30: intervalo
14h30 a 15h30: meditação
15h30 a 15h40: intervalo
15h40 a 17h: meditação
17h a 18h: jantar e descanso
18h a 19h: descanso
19h a 20h: vídeo com Goenka
20h a 21h: meditação

As meditações mais importantes do dia eram as de 8h a 9h, 14h30 a 15h30 e 18h a 19h. Nelas, a gente tinha que se esforçar ao máximo pra não se mover e não abrir os olhos.

As acomodações no retiro Vipassana

O lugar onde eu fiz o retiro Vipassana era muito simples. Não tinha chuveiro; tomávamos banho com balde. A gente ia num lugar fora do banheiro, enchia um balde de água quente, ia pra o banheiro e mesclava com água fria.

Os quartos eram também super simples e um pouco sujinhos, mas limpei o meu quando cheguei. Tinha uma cama e um móvel com prateleiras. O colchão era bom e pedi um monte de cobertores, porque fazia muito frio.

Trecho do caderno: “No primeiro dia, fiquei sem tomar banho. Eu disse que só tomaria banho dia sim, dia não. Porque eu não estava suando, era banho de baldinho e fazia muito frio. No segundo dia, tomei banho quente de balde, seguido por um balde gelado pra dar um choque de temperatura. E aquilo me fez tão bem que todos os dias tomei banho quente e frio, seguido de hidratante e também lavando os cabelos. Mesmo que não precisasse lavar os cabelos, aquilo fazia muito bem pra mim. Também era importante porque marcava metade do meu dia (eu sempre tomava banho depois do almoço) e me dava ânimo pra as meditações da tarde”.

retiro vipassana

As refeições no retiro Vipassana

A comida pra mim é um tópico à parte, porque tenho muito problema com pimenta. Essa era uma questão pra mim antes de ir pra Índia e fiquei com receio sobre como seria no retiro Vipassana.

Comuniquei isso pra eles e começaram a me dar só os legumes cozidos, separados da comida que forneciam pra as outras pessoas. Então minha comida era bem sem graça, mas servia o propósito de me dar as fontes de nutrientes que eu precisava pra estar ali.

Isso foi muito interessante, porque costumo depositar um pouco da minha ansiedade na comida e ali eu não tinha prazer na comida. Tive que ressignificar isso.

Outra questão era o açúcar, que é uma droga muito importante pra mim. Eu tinha medo de como ia ser, porque não era permitido trazer comida de fora (apesar de que vi que algumas pessoas levaram chocolate) e eu tinha medo de passar fome.

Mas lá eles forneciam rapadura pra adoçar o chá, então eu pegava uns bloquinhos e levava pra o quarto pra quando precisasse de “drogas pesadas”. Às vezes pegava também um chapati (pãozinho indiano) e colocava no bolso pra deixar no quarto e saciar a fome quando precisasse.

refeições no vipassana

As células individuais de meditação

Além do hall de meditação, onde todo mundo meditava junto, tinha a pagoda, um prédio muito lindo e sagrado. Nele, existem inúmeras células, que são quartinhos mínimos individuais pra as pessoas meditarem.

Trecho do caderno: “A célula era bem interessante porque ali você não tinha nenhuma distração: era você com você mesma o tempo inteiro. A única distração era o barulho que as pessoas faziam. Arroto, pum, respiração mais forte, espirro, tosse, nariz fungando e o barulho das portas abrindo e fechando. Aos poucos, você ia ouvindo um após o outro indo embora dali. Eu tentei ficar sempre até o fim. Às vezes, continuava lá dentro mesmo que não estivesse meditando, pra não ter nenhuma outra distração além das que estavam na minha cabeça. É não ter pra onde fugir. Se encarar de frente. Encarar o que venha a surgir”.

retiro vipassana

Vontade de desistir

Inicialmente, eu ficava contando os dias. Pensava: “Falta tudo o que eu já vivi vezes três e mais um dia, ou falta tudo o que eu já vivi e mais 5 dias”. Depois do quarto dia, achei que fosse desistir.

É que nos três primeiros dias, devíamos só observar a respiração. Era uma meditação totalmente focada nas narinas, em sentir o ar entrando e saindo, e todas as sensações.

No quarto dia, a técnica Vipassana propriamente dita começou a ser ensinada. E aí achei que ia desistir, porque tive uma dor extremamente forte do lado esquerdo da minha cabeça. Parecia que tinha um martelo batendo.

Falei pra mim mesma: “não vim aqui pra sofrer, não vou ficar passando por isso o tempo inteiro”. Mas a dor passou, então continuei.

Eu tinha altos e baixos de humor. Fazia uma dança da vitória no quarto quando conseguia ficar uma hora inteira meditando, por exemplo. Duas ou três vezes, chorei de alegria ou de orgulho porque estava sendo determinada e persistente.

Negociação consigo mesma

Ficava entre “preciso ser determinada e persistente pra ficar parada aqui uma hora”, mas também “preciso ser gentil comigo mesma e entender meus limites”. Era sempre uma negociação comigo mesma. Foi muito interessante, porque era só eu e minha cabeça. Às vezes, eu me permitia parar um pouco antes do final do tempo.

Logo antes de ir pra o retiro Vipassana, falei com amigos tinham feito o curso de meditação comigo no Tushita. Disse que estava com medo de não conseguir terminar. Eu achava que se não terminasse, era porque não estava bem de cabeça, porque sabia que era algo muito mental.

Uma amiga, Irina, me mandou uma mensagem de áudio que até hoje não esqueço. Ela falava: “querida, não seja tão dura consigo mesma”. E eu sou realmente muito dura comigo mesma. Aquele áudio dela logo antes de eu entrar no retiro me ajudou muito. Eu uso esse mantra até hoje: “seja gentil consigo mesma”.

Não poder escrever

Antes de começar, eu tinha alguns medos: de não conseguir terminar, da comida apimentada e de ficar sem o caderno onde sempre anotava minhas reflexões durante meu período sabático. Ele era companhia, terapia, apego. Eu queria gravar tudo que estava vivendo e ficar sem escrever era um dos meus receios.

O Chris, um amigo que já tinha feito o Vipassana, me falava: “Não se preocupe em se apegar às reflexões que vão surgir. O que for realmente importante você vai se lembrar. Não vai se esquecer depois de 10 dias”.

Realmente apareceram coisas muito importantes e não as esqueci. E não senti tanta falta do caderno quanto imaginava (mas fui correndo pegá-lo assim que saí).

retiro vipassana

As dificuldades do retiro Vipassana

Acho que o mais difícil foi que eu tinha muitas dores, especialmente uma dor forte na perna esquerda, em todas as meditações, do início ao fim. Muitas vezes eu parava no meio da meditação por causa dela. Mas uma das coisas que aprendemos lá é sobre a impermanência de tudo, inclusive da dor.

Por fim, a conquista

Quando o retiro acabou, senti uma sensação maravilhosa de objetivo alcançado. Consegui olhar pra dentro, encarar meus fantasmas, olhar pra coisas que eu não imaginava que iam aparecer.

Senti que tinha alcançado o que queria alcançar. Foi uma experiência muito, muito, muito boa. Sou muito grata por ter me permitido, pela coragem de olhar pra dentro e me encarar.

retiro de meditação na índia

Principais aprendizados do Vipassana

Goenka fala muito sobre impermanência, sobre a importância de sabermos que tudo muda o tempo todo. Uma coisa que é boa hoje pode não ser boa amanhã. Nós não temos o controle das coisas e está tudo sempre mudando, inclusive nossas dores.

Isso era muito importante durante a meditação. Quando você está sentindo uma dor, deve saber que ela vai passar. E além disso, tentar observar a dor com neutralidade, como uma sensação, sem dizer se é boa ou ruim. Observar atentamente, identificar de onde está vindo, por que está aí. Ter consciência do seu corpo, seus arredores e sua realidade.

Também aprendi muito sobre apego. Apego é algo que venho trabalhando minha vida inteira, mas especialmente nos últimos quatro anos, viajando pelo mundo só com uma mochila, sem uma casa. Desenvolvi muito desapego em várias questões, mas ainda assim me apeguei ao caderno onde sempre anotava o que vivia. Também me apeguei à viagem, a estar sempre na estrada.

Goenka também fala muito sobre compaixão, bondade, empatia e sobre como o ego nos dá rasteiras. Além disso, a experiência foi um ótimo exercício sobre o limite entre ser persistente e ao mesmo tempo gentil comigo mesma. Sobre me aceitar e me entender.

Um “click” pessoal

Outra coisa que foi muito importante pra mim durante o retiro Vipassana, num nível mais pessoal, foi a consciência da minha dificuldade de viver o momento presente. Enquanto tentava meditar, eu pensava muito nos meus amigos do Brasil. Pensava em quando ia voltar, como seria meu aniversário de 2020…

Estava viajando há quase três anos e, naquele momento, entendi que minha cabeça estava mais no Brasil que no que eu estava vivendo. Vi que estava sentindo falta da família e dos amigos e que talvez estivesse chegando minha hora de parar de viajar.

Trecho do caderno: “Quando me toquei disso, eu chorei. É isso que eu estou com medo de encarar, mas preciso. Não é só voltar, é começar da estaca zero. O que eu vou fazer? Onde vou morar? Como vou ganhar dinheiro? Como continuar trabalhando e viajando?”.

Depois do Vipassana comecei a viajar com um objetivo, fazendo coisas que eu queria fazer, em vez de viajar só por viajar. Fui aprender francês na França, fazer uma trilha longa no Nepal, passar um mês mergulhando na Tailândia. E aí voltei pra casa.

Meditação no dia a dia

Desde que saí do retiro Vipassana, sabia que não conseguiria aplicar no meu dia a dia a meditação da forma que é ensinada lá. Os conhecimentos, sim, eu aplico muito. Mas na meditação Vipassana, o ideal é fazer uma hora pela manhã e uma à noite, e sinceramente não fiz isso nenhum dia.

Mas faço, sim, muitas meditações de “escaneamento do corpo”, baseadas no que aprendi lá. Não medito todos os dias, mas diria que umas 15 ou 20 vezes ao mês. A meditação é muito importante no meu dia a dia.

babi cady viajou pelo mundo por 4 anos

Conselhos para quem pensa em fazer o Vipassana

Se tiver interesse, faça! Mas lembre-se que cada pessoa tem uma experiência única, é muito pessoal. Não crie expectativas com base no que eu dividi aqui.

Eu tive um “clique” sobre o que estava vivendo no momento, muitas coisas importantes vieram pra mim. Reflexões antigas e novas sobre relações familiares etc. Mas isso foi a minha experiência. Não se compare com os outros. Tem quem passe por isso e não obtenha nenhuma “grande resposta”.

Eu acho o Vipassana muito interessante e poderoso porque é uma técnica em que você se encara, encara tudo que absorveu ao longo da vida. A gente tem nosso próprio HD e vai armazenando informações no corpo, na maneira como vive e reage no nosso dia a dia, e é incrível entender de onde vêm alguns padrões de comportamento.

Conheço algumas pessoas que fizeram o retiro Vipassana sem nunca ter ouvido falar nisso antes. Você não precisa ter conhecimento em meditação. Mas recomendo seguir as instruções como sugerido. Existe um porquê pra quantidade de sono, meditações, quantidade de comida etc.

No entanto, é comum as pessoas não conseguirem ficar até o final, e tá tudo bem. Acho que o fato de sair é muito difícil também, é uma decisão importante.

O principal conselho que dou é o que recebi: seja gentil consigo mesmo. Encontre seu equilíbrio.

Vale lembrar, também, que você não precisa fazer o retiro Vipassana para buscar autoconhecimento e estar em contato com você, sua essência. Existem várias técnicas de meditação, vários cursos. O importante é a busca.

Ficou com alguma dúvida sobre o retiro Vipassana? Fala com Babi lá no Instagram @babicady! E mais uma vez, MUITO obrigada por partilhar tuas vivências, amiga! :)

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3 Comentários

  1. Alice

    Muito legal o relato! Não sei se eu conseguiria, mas que deu vontade de tentar deu! Rs

    • A vontade é o primeiro passo, né? Hahaha Eu também não sei se conseguiria, mas quero tentar um dia! :)

  2. Babi Cady

    Oi Alice! Que bom que você gostou do relato, fico feliz em saber, foi uma experiência incrível. Levei um tempo para decidir, cada um no seu tempo, também achava que não ia conseguir, hehehe… Quem sabe um dia você acaba fazendo, ou não né? Qualquer escolha será uma boa escolha! :)

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