Dicas Práticas

Turismo de base comunitária: o que é e por que você deveria viajar assim

Dicas Práticas | 24/04/19 | Atualizado em 02/05/19 | 5 comentários

O turismo vem crescendo em ritmo acelerado mundo afora. Quando eu digo isso, você provavelmente pensa: “que bom, né?”. Afinal, se trata de mais gente superando fronteiras, conhecendo outras culturas e fazendo dinheiro circular. Mas apesar de ter potencial pra gerar desenvolvimento, o turismo também provoca muitos impactos negativos. E é nesse contexto que entra o turismo de base comunitária (TBC). Vamos falar sobre isso?

turismo de base comunitária na isla barú

Problemas do turismo tradicional

É raro encontrar iniciativas turísticas que priorizem as necessidades do lugar e de quem mora nele. Quase sempre, quem tá em foco são as empresas e os desejos dos viajantes. Que, vale ressaltar, costumam esperar encontrar serviços e produtos bem padronizados em qualquer parte do mundo.

Por isso, vemos cada vez mais resorts, hotéis de grandes redes e empreendimentos imobiliários construídos sem a menor preocupação ambiental ou social. Vemos a grana gerada pelas atividades turísticas ir, na sua imensa maioria, pra mega corporações (geralmente estrangeiras).

E enquanto isso, as comunidades locais sofrem com impactos sociais, culturais e ambientais negativos. Afinal, o turismo de massa provoca desequilíbrios ambientais, crueldade com animais, mercantilização de manifestações culturais, sobrecarga e deterioração de patrimônios históricos, aumento no preço de aluguéis, estímulo ao trabalho e à exploração sexual infantil, entre outros problemas sérios.

Leia também:
Turismo sustentável: como ser um viajante mais consciente?
Turismo criativo: viagens com foco em experiências

O que é turismo de base comunitária?

Mas a ideia aqui não é ficar falando só de problema, tá? Comecei por eles pra contextualizar a importância do turismo de base comunitária (TBC), que também é chamado de turismo comunitário ou solidário. Turismo de base comunitária não é um segmento, e sim um modo de fazer turismo.

turismo de base comunitária no recife

A ideia por trás desse conceito é promover um turismo mais justo, que coloque a população local no protagonismo em todas as etapas (planejamento, implementação e monitoramento) e leve em consideração a sustentabilidade social e ambiental das atividades.

A ONG Projeto Bagagem define assim: “turismo comunitário é a atividade turística que apresenta gestão coletiva, transparência no uso e na destinação dos recursos, e na qual a principal atração turística é o modo de vida da população local. Nesse tipo de turismo a comunidade é proprietária dos empreendimentos turísticos e há a preocupação em minimizar o impacto ambiental e fortalecer ações de conservação da natureza”.

Alguns dos princípios desse modo de fazer turismo são conservação da biodiversidade, valorização da história e da cultura, protagonismo comunitário, equidade social, partilha cultural, complementaridade a outras atividades econômicas, estímulo à reflexão e ao aprendizado e dinamismo cultural, como detalha esse material do ICMBio.

O turismo de base comunitária não pretende nem pode ser uma alternativa ao turismo de massa em termos de geração de lucro. Afinal, uma de suas premissas básicas é o desenvolvimento numa escala limitada, respeitando os recursos locais.

turismo de base comunitária na isla barú

Vantagens do TBC pra os visitantes

Já deu pra entender que o TBC responde a uma demanda das comunidades e dos ecossistemas e traz muito mais benefícios que o turismo de massa, né? Mas as vantagens não param por aí. Além disso, ele também atende a uma demanda de viajantes que procuram experiências menos padronizadas e com mais imersão cultural e que se preocupam com responsabilidade social e ambiental.

Afinal, o turismo de massa privilegia o lucro imediato e a grande escala. Nesse modelo tradicional, a experiência turística segue o modo de produção industrial, promovendo padronização e reduzindo o espaço pra espontaneidade.

“Nesse processo, boa parte das práticas turísticas se torna busca do fotogênico, e o turista um consumidor de cenas, emoções e prazeres projetados pelo marketing”, observa um dos autores do livro Turismo de Base Comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras.

O turismo de base comunitária, por outro lado, respeita as heranças culturais e tradições locais e promove o diálogo e a interação entre visitantes e visitados. Nem os anfitriões são submissos aos turistas, nem os turistas os veem como objetos de consumo.

turismo de base comunitária na isla barú

Carlos Maldonado, especialista da Organização Internacional do Trabalho, acrescenta: “A característica distinta do turismo comunitário é sua dimensão humana e cultural, vale dizer antropológica, com objetivo de incentivar o diálogo entre iguais e encontros interculturais de qualidade com nossos visitantes, na perspectiva de conhecer e aprender com seus respectivos modos de vida”.

Não se trata só de geração de renda; estamos falando de um turismo centrado em pessoas. A ideia é ir além de interpretações simplistas e estereotipadas de um grupo social recebendo gente de fora pra conhecer seu exotismo e provocar uma experiência de troca.

Ou seja: o TBC é uma oportunidade de se integrar de forma genuína aos lugares visitados, mergulhando no seu modo de vida e cultura. E, ao mesmo tempo, contribuir pra o desenvolvimento humano e social do destino. Massa, né?

Em alguns casos, os roteiros de turismo de base comunitária podem ser mais caros que experiências massificadas no mesmo destino. Isso acontece porque é difícil oferecer valores baixos pra uma experiência que é muito mais personalizada e não é vendida em larga escala, possibilitando a diluição de custos. E também porque muitas operadoras turísticas tradicionais não oferecem uma remuneração justa pra as pessoas que contratam.

Ainda assim, existem muitos projetos com valores compatíveis com o mercado tradicional, e outros que podem ser customizados pra caber no seu orçamento. E fica, também, a reflexão sobre pra onde vai seu dinheiro.

É melhor investir um pouco mais em uma experiência de qualidade, sabendo que terá um impacto positivo e viverá uma experiência potencialmente transformadora, ou economizar um pouco fazendo um passeio “plastificado” e provocar efeitos nocivos no ambiente e nas populações?

Onde encontrar projetos de turismo de base comunitária?

Agora que você já conhece o conceito e achou muito legal (espero!), pode estar se perguntando: como fazer pra viajar assim? Já procurei muito por plataformas que unifiquem iniciativas de TBC, mas infelizmente ainda tem muita coisa desatualizada e desorganizada pela internet.

Mas calma: dá pra encontrar um bocado de projetos interessantes em sites como o da Vivejar, da Vivalá, da Garupa e da Recria, além de projetos em lugares específicos como o Rede Tucum no Ceará, o Rota da Liberdade na Bahia e o Braziliando e a Pousada Uacari na Amazônia.

Aqui no blog, já falei sobre um projeto bem legal de turismo comunitário na Bomba do Hemetério, no Recife, de onde saem 40% das agremiações carnavalescas da cidade, e sobre inciativas do tipo na Comuna 13, na Colômbia. Também fiz um passeio maravilhoso de TBC na Isla Barú, perto de Cartagena, com a Anfibio.co.

Tem alguma dúvida sobre turismo de base comunitária ou recomenda alguma iniciativa que siga esses princípios? Conta aí nos comentários!

Contrate seu seguro viagem com desconto na Mondial Assistance
Pesquise e reserve hotéis com os melhores preços no Booking

Quando você usa esses links, o blog ganha uma pequena comissão pra se manter vivo e você não paga nada a mais por isso. <3 Saiba mais sobre as políticas de monetização do Janelas Abertas clicando aqui.

Pra conferir muito mais conteúdo sobre viagens todos os dias, siga o Janelas Abertas no Facebook, no Instagram e no Youtube. Espero você lá! :)

Quer receber conteúdo exclusivo e gratuito sobre viagens?

Inscreva-se na lista de e-mails do Janelas Abertas e receba um e-book de 60 páginas com dicas para viajar só + check-lists para sua viagem + dicas inéditas a cada 15 dias.

Posts Relacionados

5 Comentários

  1. Vania Fernandes de Amorim

    Oiiiiiiiii, que texto fantástico!Me esclareceu muito. Sou graduanda de Gestão em Turismo e me chamam de “Alice” porque sonho em fazer com que o Turismo seja realmente o que deveria ser ,ou seja , uma ferramenta de integração e desenvolvimento social e econômico para todos.Busquei informações sobre o TBC porque estou em vias de ir para um curso em Mamirauá e menina!!! Não sei o que fazer para arcar com o transporte até lá(única coisa que será por conta do acadêmico que for selecionado)Mas, enfim, não vou desistir!
    Obrigada pelo blog !!!
    Maravilhoso!

    • Oi, Vania! Que feliz que você gostou do conteúdo e mais feliz ainda por saber que você tem esse sonho. Espero que cada vez mais gente veja o turismo dessa forma! Não acredito que seja coisa de “Alice”, hahah. É bem possível, sim, se unirmos forças :) Espero que você consiga chegar a Mamirauá, parece incrível! Um abraço e boa sorte :)

  2. Alberto Viana de Campos Filho

    Olá parabéns pelo texto. A Bahia tem mais de 50 comunidades envolvidas com esse tema e mais de 20 iniciativas de turismo comunitário. Convido a conhecer o nosso blog http://www.turismoporummundomelhor.blogspot.com.br

    Ressalva: o turismo solidário ou volunturismo pode ser praticado em ambientes não comunitários por isso apesar de sermos adeptos da economia solidária desvinculamos o comunitário do solidário. Sucesso

    • Excelente, Alberto! Acabei de ler alguns artigos do blog e gostei muito. Com certeza vou procurar essas iniciativas na minha próxima ida à Bahia! Um abraço , parabéns pelo trabalho e obrigada pelo comentário :)

Deixe o seu comentário

Inscreva-se na newsletter do Janelas Abertas

Receba dicas e recursos de viagem de graça!

  • E-book de 60 páginas com dicas para viajar só
  • Check-list para viagens internacionais
  • Check-list para arrumar a mala
  • Newsletter quinzenal com conteúdo exclusivo

É só se inscrever na lista: