Colômbia

Comuna 13, em Medellín: uma história de transformação

Colômbia | 12/03/19 | Atualizado em 29/08/19 | 4 comentários

“Uma lenda diz que quando as águias estão muito velhas, sobem pra uma montanha alta e arrancam seu bico e suas garras pra que nasçam outros no lugar. Elas podem, então, morrer de sangrar ou viver muito mais. Essa metáfora diz muito sobre nossa comunidade, que sangrou muito, mas renasceu”, diz Kone, morador da Comuna 13, enquanto me mostra uma águia grafitada num muro.

Essa região de Medellín, na Colômbia, é apenas uma das 16 comunas (distritos) que compõem a cidade, mas sem dúvidas é a mais famosa. É que durante o longo período em que Medellín chegou a ser considerada a cidade mais violenta do mundo, essa região era uma das mais perigosas da cidade.

O que pode parecer surreal pra quem passa por lá hoje e encontra centenas de turistas do mundo inteiro, jovens dançando break e moradores caminhando tranquilos. Cerca de 500 pessoas visitam a Comuna 13 todos os dias, seja pra admirar seus grafites ou pra conhecer essa impressionante história de superação, e a população local não vive mais aqueles dias de terror.

grafite na comuna 13

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Na minha visita à cidade, não consegui conferir a bem falada vida noturna de Medellín, nem as charmosas vilas nos seus arredores. Mas tudo bem, porque meu foco principal era entender como o desenvolvimento urbano inclusivo e as iniciativas comunitárias transformaram a cidade e fizeram dela um exemplo de inovação e transformação.

Tours em “favelas” são bem controversos, pra dizer o mínimo. Mas o passeio que fiz (promovido pela Medellín Soul Tours) e outros tours que vi pela Comuna 13 são capitaneados por gente da comunidade e me pareceram bons exemplos de turismo comunitário.

Mas antes de falar mais sobre o passeio em si, vou contar um pouco do que aprendi sobre a Comuna 13 e esse processo que ela passou – e que me pareceu muito inspirador.

comuna 13

A violência

“Vivíamos assustados, fechados em casa. Existiam várias fronteiras invisíveis, ruas por onde não podíamos passar, e toque de recolher”, contou Kone, meu guia local. “Quem morava aqui tinha que mentir sobre o endereço pra conseguir trabalho em outras partes da cidade, porque os empregadores não queriam um funcionário que ia faltar várias vezes por mês porque estava ‘sitiado’ na própria casa”, relatou David, da Medellín Soul Tours. Mas por que a Comuna 13 se destacava como um lugar especialmente violento?

Pra começar, é preciso entender como essa e outras áreas periféricas da cidade foram povoadas. Boa parte dos habitantes veio de outras regiões do país, expulsos pela violência que tomou conta das áreas campestres ou pela necessidade econômica. Medellín cresceu de forma rápida e desordenada, e os mais pobres se instalaram onde e como podiam, formando muitas das favelas da cidade.

Mas entre outras regiões de classes sociais baixas, a Comuna 13 ficou mais conhecida porque se tornou um dos principais palcos de disputa entre paramilitares e guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), do Exército de Libertação Nacional (ELN) e dos Comandos Armados do Povo (CAP). Isso porque sua localização é estratégica.

A Comuna 13 fica perto da rodovia San Juan, importante via de entrada e saída de mercadorias na cidade. Gangues e cartéis de drogas brigavam pra controlar essa região, usada pra entrada de armas e saída de cocaína, por exemplo. Enquanto isso, os moradores viviam sitiados pelo medo.

comuna 13

E o governo não ajudava, abandonando o lugar à própria sorte ou intervindo sem dialogar com a comunidade. Um emblemático exemplo de violação dos direitos humanos no local é a Operação Órion, promovida em 2002 pelas forças de segurança estatais (Forças Militares, Polícia Nacional e Força Aérea) junto com grupos paramilitares.

A ideia era acabar com as milícias urbanas das Farc, ELN e CAP, mas nesse processo foram mortos (ou “desapareceram”) muitos inocentes, incluindo crianças. Segundo me contaram, os agentes tinham metas a cumprir, e pra isso matavam deliberadamente gente que não estava envolvida e fingiam que essas pessoas eram guerrilheiras.

Pra completar, assim como acontece em outras partes do mundo (alô, Recife), os meios de comunicação contribuem pra reforçar o estigma da Comuna 13. “Quando acontece algum problema aqui, os jornais tendem a dizer só que foi na Comuna, sem especificar o bairro. Assim, as pessoas acham que é tudo uma coisa só, definida pela violência”, explicou David.

A transformação

O simbolismo da Comuna 13 como ponto mais violento da cidade serviu, por outro lado, pra que ela fosse priorizada nas ações governamentais de renovação de Medellín. Segundo me explicou David, foi usado o conceito de “acupuntura urbano” (também aplicado em Curitiba), com a ideia de transformar o macro a partir do micro.

A gestão municipal remodelou parques e praças, plantou flores, construiu ou restaurou quadras poliesportivas e inaugurou bibliotecas no centro e nas periferias. Mas um dos exemplos mais importantes dos investimentos em infraestrutura e mobilidade foi o “metrocable”, sistema de teleféricos que transformou a vida de quem mora nos morros.

metrocable em medellín

Inaugurado em 2004, o sistema é conectado ao metrô (não é preciso comprar uma nova passagem) e tem hoje quatro linhas em operação, somando 13 estações e 10,7 km de extensão. Mais uma linha tá em construção.

Sua implementação fez com que pessoas que antes levavam até três horas pra chegar ao centro da cidade, pegando até quatro ônibus, chegue hoje em pouco mais de uma hora (e gastando muito menos dinheiro). Imagina a diferença que isso faz na vida do pessoal que precisa se deslocar diariamente pra trabalhar ou ter acesso a serviços básicos?

metrocable em medellín

As linhas de metrocable chegam a diferentes regiões da cidade, mas a Comuna 13 ganhou também outro meio de transporte especial: escadas rolantes ao ar livre. As “escaleras eléctricas” de San Javier, inauguradas em 2012, substituíram 350 degraus em concreto, são cobertas e também facilitam muito a vida de quem mora por lá.

escada rolante

Alguns críticos, no entanto, acreditam que a medida foi mais voltada pra repercussão positiva que pra ajudar efetivamente na mobilidade, já que não foi replicada em outras partes da cidade que também precisariam dela, mas só na “mais famosa”.

E por mais que os acordos de paz e as obras do governo tenham sido importantes pra transformação da Comuna 13, a população também teve um papel fundamental. Projetos sociais foram desenvolvidos por grupos locais, que se mobilizaram pra recuperar a região.

Moradores pintaram casas em tons vivos, grafiteiros se dedicaram a contar a história da comuna nos seus muros, jovens passaram a se dedicar mais a atividades como hip hop e break dance. Aos poucos, a comunidade foi reforçando sua autoestima e mostrando sua resiliência. Nos últimos anos, vários moradores passaram a atuar como guias turísticos, e tem até lojinhas de souvenirs bem caprichados por lá.

loja de souvenirs na comuna 13

grafite na comuna 13

break dance na comuna 13

“Quando eu era criança, quase todos os meninos queriam fazer parte das gangues. Hoje, eles enxergam valor em outras profissões, especialmente as ligadas à arte”, conta Kone.

A violência na Comuna 13 não desapareceu por completo, nem se trata de um “milagre” imposto de fora pra dentro. Mas caminhando por lá e conversando com as pessoas, fica evidente que o lugar é efervescente e muito orgulhoso da sua cultura e da sua história de resistência.

grafite na comuna 13

Tour guiado pela Comuna 13

Fiz um tour de uma tarde pela Comuna 13 a convite da Medellín Soul Tours, empresa criada por quatro amigos que deixaram outros ramos de trabalho pra ajudar visitantes a se conectarem a Medellín.

Quem me guiou no começo do tour foi David, um dos sócios, que começou me levando pra um passeio de teleférico desde a estação San Javier até Aurora, a última da linha, e de volta. Enquanto eu admirava a praticidade desse meio de transporte e as amplas vistas lá do alto, ele foi me contando sobre o passado e o presente da cidade.

metrocable em medellín

De volta a San Javier, pegamos um ônibus por poucos minutos até a rua onde, pelo que vi, a maioria dos guias começa os tours da Comuna 13. Lá, David passou a palavra pra Kone, nascido e criado lá (caso você esteja se perguntando, o apelido vem de ‘conejo’, ou coelho, como ele era conhecido quando criança).

guias do medellin soul tours

Achei massa que ele começou me dando recomendações que acho bem pertinentes pra qualquer lugar, como não tirar fotos de pessoas sem pedir autorização, não dar dinheiro ou bombons pra crianças pra não estimular a mendicância e consumir algo (nem que seja um café ou pulseirinha) pra apoiar a economia local.

Enquanto caminhávamos, Kone explicou o simbolismo por trás de vários dos grafites que colorem a comuna, me mostrou as casas onde moram ele e seus familiares, me ensinou a fazer meu primeiro grafite (ficou péssimo, aliás hahah), me levou até um mirante bonitão e me ajudou a entender um pouco da dinâmica do lugar.

mirante na comuna 13

Também comi ótimos churros (redondos!), vi uns meninos arrasarem no break dance e lamentei porque minha garganta inflamada não me permitiu provar um famoso picolé de frutas que é vendido por lá.

churros

Existem vários free walking tours pela Comuna 13 feitos por guias locais, mas com grupos bem grandes (de até 40 pessoas, acredito). No esquema que fiz, me senti andando com dois amigos. Conversamos sobre assuntos paralelos, falei sobre o Recife, paramos pra trocar uma ideia com amigos deles… Acabou que o tempo passou voando e deixou uma das melhores lembranças que tenho de Medellín.

comuna 13

Recomendo o serviço da Medellín Soul Tours, que tem modalidades de passeios pra vários gostos e bolsos. Você pode ser pego num transporte privado na sua hospedagem ou encontrar com o guia na estação de metrô, como eu fiz, e também pode fazer aulas de grafite, dança etc. Além disso, eles oferecem tours em outras comunidades, no centro e nos arredores de Medellín. Pra saber mais, acesse o site ou escreva pra soul@medellinsoultours.com.

Fiz o tour em fevereiro de 2019 como cortesia da Medellín Soul Tours. As opiniões presentes nesse texto são pessoais e não sofreram nenhuma interferência da empresa. O Janelas Abertas preza pela transparência e sempre sinaliza todos os eventuais patrocínios e parcerias. Para saber mais sobre as políticas do blog, clique aqui.

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4 Comentários

  1. Que relato maravilhoso sobre a Comuna 13!!! Na minha opinião, este tipo de tour, quando feitos da forma correta, são uma excelente forma de turismo inclusivo. Parabéns, adorei ler!

    • Que bom que você gostou, Filipe! Concordo com você que o turismo em “comunidades carentes” pode ser uma ferramenta importante quando feito de forma correta – o que é muito diferente da exploração por grandes empresas e venda do “turismo de pobreza”, né? Obrigada pelo comentário! :)

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