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Travessia do Vale do Pati: tudo que você precisa saber antes de ir

Bahia | 24/11/18 | Atualizado em 20/12/18 | 8 comentários

Nenhuma foto ou relato dá conta de traduzir como é fazer a travessia do Vale do Pati, na Chapada Diamantina (Bahia). São dias intensos, marcados por uma rotina simples e abundante, meditação ativa, superação, abrir de olhos pra outros modos de vida, imersão em cenários deslumbrantes e a liberdade de simplesmente ir aonde nossas próprias pernas nos levam.

Os morros imensos, as diferentes formações rochosas, os campos verdes a perder de vista, os rios e as cachoeiras são deslumbrantes. Mas a travessia do Vale do Pati é muito mais que uma sucessão de cenários bonitos.

Sair do vale foi difícil; não apenas pelo esforço físico, mas principalmente por causa da saudade que senti e ainda sinto. Mas espero que o Pati nunca saia de mim. E espero que você possa ir, de coração aberto pra descobrir o vale e as pessoas que o habitam e pra fazer uma travessia também pra dentro de si.

travessia do vale do pati

Tudo sobre a travessia do Vale do Pati

Mas vamos às informações práticas? Fiz a travessia do Vale do Pati em novembro de 2018, em parceria com a ótima agência Chapada Adventure Daniel, e além de compartilhar os destaques desse rolê dia a dia lá no Instagram, escrevi esse texto aqui recheado de informações pra ajudar quem tá planejando essa viagem inesquecível.

O que é o Vale do Pati?

O Vale do Pati é um vale (dã) com acesso relativamente difícil localizada dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina, área protegida pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio). Durante muito tempo, a região foi usada pra extração de diamantes, e depois pra plantio de café.

No período “áureo” da exploração econômica por lá, cerca de 3 mil pessoas chegaram a viver no vale, que tinha até escola, igreja e prefeitura. Hoje, ele abriga pouco mais de 10 famílias e quase todos seus habitantes vivem do turismo. As trilhas anteriormente usadas pra escoar o café são percorridas diariamente por turistas, como euzinha aqui.

travessia do vale do pati

O Vale do Pati tem três acessos principais: Guiné (distrito do município de Mucugê), Vale do Capão (distrito do município de Palmeiras) e Andaraí. É possível entrar ou sair por qualquer um deles, mas em todo caso o percurso envolve muitos quilômetros de subidas e descidas. Eu fiz o rolê entrando pelo Guiné e saindo por Andaraí.

Relativamente isolado, o vale não tem sinal nenhum de telefone. Os guias e moradores de comunicam por rádio, que só “pega” em determinados lugares. Estando lá descobri que hoje em dia alguns moradores têm internet via satélite, mas ela não tá disponível pra uso dos visitantes.

Tudo que chega e sai do Pati é carregado por cavalos, mulas ou pessoas a pé, através das mesmas trilhas complicadinhas que percorremos com bastante esforço. E quando digo “tudo”, é tudo mesmo: comida, gás, móveis, materiais de construção, lixo…

No primeiro dia, vimos um cara carregando sozinho uma porta pesadíssima e fiquei CHOCADA com a capacidade dele de enfrentar a trilha com aquele trambolho na cabeça. Nos dias seguintes, vimos mulas indo e vindo e tivemos que nos esquivar delas pra não sermos atropelados. :P E na saída, levamos conosco todo o lixo seco que produzimos, porque senão ele ficaria acumulado lá, até ser levado no lombo de uma mula.

homem carregando porta no pati

Leia também:
Roteiro completo para uma primeira visita à Chapada Diamantina
Relato do primeiro dia de travessia do Vale do Pati

O que tem pra se ver por lá?

A travessia do Vale do Pati é considerada um dos trekkings mais bonitos do mundo, e o que não falta é coisa bonita pra ver por lá. Confesso, no entanto, que os cenários ficam lá no final da lista de elementos que mais me marcaram nessa viagem.

O contato com a cultura do lugar e a experiência de estar offline vivendo tudo aquilo, por exemplo, foram ainda mais impressionantes pra mim. Mas olha aqui algumas das principais “atrações” do vale, só pra dar um gostinho:

Mirante do Pati: essa já foi nossa recompensa no primeiro dia de caminhada, em que passamos pelas Gerais do Vieira e Gerais do Rio Preto até chegar nesse mirante. De lá, dá pra ver um pedação do Vale do Pati, com seus morros e sua vegetação bonitona.

grupo que fez a travessia do pati

Cachoeirão por Cima: no segundo dia, o destaque foi o Cachoeirão, imponente cânion com cerca de 300 metros de altura onde se formam mais de 20 quedas d’água na época de chuvas. Quando fomos, havia pouca água, mas ainda assim o cenário é impressionante – e por sorte tinha água suficiente pra se formar um arco-íris completinho.

cachoeirão por cima

Morro do Castelo: essa trilha é considerada uma das mais difíceis do Pati, e com certeza foi a mais difícil pra mim. Mal dormi na véspera e penei pra subir, porque é bem íngreme, tem um trecho de escalaminhada e fica bastante escorregadia quando chove. Mas vale a pena: pra chegar nos mirantes principais é preciso atravessar uma gruta com visual incrível, e os mirantes em si são sensacionais.

morro do castelo

gruta do morro do castelo

morro do castelo

Quanto tempo ficar?

Dá pra fazer a travessia do Vale do Pati com diferentes roteiros. Tem quem passe só uma noite por lá, sendo um dia pra entrar no vale e outro pra sair, podendo passar por atrativos como o Mirante do Pati.

Boa parte dos roteiros dura de três dias, incluindo alguns outros lugares. Nesse caso, no entanto, ou você faz tudo numa correria e com um ritmo ainda mais puxado, ou deixa de visitar o Castelo, Cachoeirão por Cima etc.

O roteiro considerado “completo” é o de 4 dias e 5 noites, que foi o que eu fiz e vou detalhar no final desse post. Mas se ficássemos mais dias, ainda teríamos outras atrações pra conhecer, como a Cachoeira dos Funis.

Pessoalmente, gostaria de ter passado dois dias a mais pra fazer mais algumas trilhas e principalmente pra ficar de bobeira tomando banho de rio, cochilando na rede, lendo, jogando conversa fora ao redor de uma fogueira sem morrer de cansaço… :P

fogueira na casa de nativo no pati

Como são a quilometragem e a elevação?

A quantidade de quilômetros andados por dia na travessia do Vale do Pati varia bastante de acordo com o roteiro escolhido, mas acredito que a média é entre 15 e 20 quilômetros diários.

No meu roteiro, tivemos um dia com 10 km de caminhada relativamente leve (pra os padrões do Pati), outro com 10 km BEM puxados, outros dois com uns 15 km e um com mais de 20 km.

A altitude varia de 1.000 a 1.500 metros. O Morro do Castelo, ponto mais alto que visitamos, fica 1.470 metros acima do nível do mar.

mirante no pati

Qual é o nível de exigência física?

O nível das trilhas da travessia do Vale do Pati é considerado de moderado a difícil. São longos dias de subidas e descidas, algumas bem íngremes. O trekking pode ser feito por pessoas de qualquer idade, mas é preciso ter resistência e condicionamento físico razoáveis, e principalmente bastante disposição.

Se você não tem nenhuma experiência em trilhas, eu faria algumas mais simples primeiro, lá na Chapada ou em outro lugar. Mas também não pense que a experiência só é possível pra atletas. Eu nunca pratiquei exercícios com regularidade, marquei a viagem com menos de um mês de antecedência e não me preparei de verdade.

Entrei na academia na mesma época por acaso, mas com treino levinho, de iniciante. Nunca fiz exercícios de forma consistente, mas quando viajo ando muito e faço trilhas esporádicas. Meu fôlego é ruim e sou super fraquinha e desastrada.

Durante a travessia, tive mais dificuldade do que as outras pessoas do meu grupo, que correm e malham com regularidade há anos (e ainda assim não acharam fácil). Mas ia no meu ritmo, lá atrás, e dei conta. A sensação de superação foi incrível, aliás. :)

Acredito que o psicológico é o mais importante. Eu tentei não ficar pensando em quanto ainda faltava percorrer, nem ficar numas noias de “eu não devia estar fazendo isso”, nem me envergonhar por estar mais lenta que o resto do grupo. Fui equilibrando entre dar meu máximo e respeitar meus limites e deu tudo certo!

travessia do vale do pati

Tive bastante dor muscular e nem conseguia andar direito à noite, mas usei Dorflex, Salompas, Cataflan e óleo essencial de andiroba com menta e esse combo todo ajudou. Além disso, ao andar o músculo esquenta, então durante as trilhas eu não sentia tanta dor.

Além das distâncias e das variações de elevação, o caminho passa por um terreno bem variado, com trechos nos Campos Gerais e outros passando por pedras e leitos de rios.

Existem trechos com nível técnico mais alto, exigindo um pouco de coordenação e força, mas nada de outro mundo – eu sou BEM desastrada e descoordenada e consegui (com a ajuda de um cajado e um guia, que aparecem na foto abaixo :P), então praticamente qualquer pessoa consegue.

trilha no pati e guia nelson

Se você tem muito medo de altura e não se sente pronto pra trabalhar esse medo, talvez não seja uma boa ideia fazer a travessia, porque todo dia rola exposição à altura.

Em alguns momentos também é preciso atravessar uns riachos. Quando eu fui não estavam muito cheios e deu pra passar pisando nas pedras, mas se eles estiverem com nível mais alto é preciso atravessar pisando na água mesmo.

É preciso estar ciente, ainda, de que em alguns trechos ficamos a uma distância de mais de seis horas de caminhada do posto de saúde mais próximo. A travessia do Vale do Pati não é, então, aconselhada pra pessoas com problemas cardíacos ou outras complicações de saúde sérias.

É preciso fazer a travessia do Vale do Pati com guia?

Sim! Algumas trilhas na Chapada Diamantina podem ser feitas por conta própria mesmo se você não tiver muita experiência, mas esse definitivamente não é o caso da travessia do Vale do Pati. O lugar é muito grande e nem sempre as trilhas são bem marcadas. Não pega sinal de telefone por lá e se alguém se perder ali, o resgate é difícil.

Além disso, os guias sabem como fazer o percurso sem prejudicar o meio ambiente, sabem em quais nascentes é possível reabastecer as garrafas d’água e podem ajudar os visitantes no caso de dificuldades ou eventuais acidentes. Eles também são ótimas fontes de informação sobre o lugar, tanto em termos geográficos/botânicos quanto no sentido histórico/cultural.

Fomos num grupo de 6 pessoas, acompanhados por dois guias (Cleiton e Nelson, da Chapada Adventure Daniel), que iam um na frente e outro atrás do grupo. Assim, eles acompanhavam os mais rapidinhos e os mais lentos (leia-se “Luísa”, no caso :P).

grupo que fez a travessia do pati

A experiência dos guias nessa região (e como guias em geral) foi essencial pra que a viagem fosse tão incrível. Nelson em especial me ajudou muito, porque tenho dificuldade nos trechos de nível mais técnico, como falei acima, e ele foi MEGA atencioso e paciente, especialmente na subida do Morro do Castelo.

Os guias também carregam vários itens nas mochilas deles, como as comidinhas pra trilha e kits de primeiros socorros, liberando a gente de levar mais peso. Eles também tomam decisões sobre possíveis mudanças no roteiro, caso uma tromba d’água ou algo do tipo prejudique algum passeio que estava planejado.

Além disso, eles fazem as “reservas” de hospedagem, falando por rádio com o pessoal que administra as casas onde dormimos (mais sobre isso no próximo tópico).

Como é a hospedagem no vale?

Lembra que falei lá em cima que as poucas famílias que continuam no Vale do Pati vivem hoje do turismo? Pois é na casa delas que a maioria das pessoas se hospeda durante a travessia. Em algumas delas também dá pra acampar, usando os banheiros e a cozinha coletiva, mas acho um perrengue desnecessário ter que carregar a estrutura de camping.

As acomodações têm estrutura simples, mas uma vibe incrível, e são rodeadas por um cenário deslumbrante. As casas onde fiquei tinham quartos compartilhados e de casal, sendo que alguns são cheios de beliche e outros menores; fiquei sempre em quartos coletivos pequenos, com parte do meu grupo, e na última noite tive um quarto só pra mim. Roupa e cama e toalha estão incluídas.

prefeitura no vale do pati

quarto na casa de dona raquel

casa de dona raquel

Os banheiros são compartilhados e a água é geladíssima, o que foi um desafio pra mim, mas a sujeira no fim do dia era tanta que nem foi tão difícil superar. :P

As casas usam principalmente energia solar, sendo que em alguns cômodos tem umas espécies de lâmpadas e outros são iluminados à luz de velas mesmo. Geralmente tinha poucas tomadas, que podiam ser usadas pra recarregar celulares e câmeras, mas eram bem disputadas – leve um benjamin!

A maioria das casas tem mercadinhos que vendem itens de higiene pessoal, isqueiro, pilhas e outras coisinhas úteis, além de algumas comidas e bebidas (incluindo cerveja bem gelada, graças às geladeiras a gás). Os preços são altos, mas é justificado, já que tudo é trazido a pé ou com o auxílio de mulas, né? Uma lata de cerveja custava entre R$ 7 e R$ 10, mas valia demais – poucas vezes senti tanto prazer numa breja gelada no fim do dia!

Também encontramos na maioria das casas um tanque pra lavar roupa com sabão de coco, varais, filtro de água vinda da nascente e aluguel de alguns itens pra quem acampa, como isolante térmico e colchonete.

As casas onde você vai dormir vão depender do seu roteiro e das preferências do guia, mas acredito que todas são legais. Fiquei duas noites na de Dona Raquel, uma na de Seu Aguinaldo e uma na Dona Linda.

As duas primeiras são maiores e mais “comerciais”, parecendo mais com albergues – nem cheguei a conhecer os donos, e encontrei dezenas de pessoas de vários cantos do mundo por lá.

Gostei dessa atmosfera de encontros, mas a casa de Dona Linda (que aparece nas fotos abaixo) foi minha preferida, justamente por ser menor e mais simples. Ela não tem vendinha e tem poucos quartos, mas nos recebeu pessoalmente, cozinhou pra gente de madrugada e foi uma fofa.

casa de dona linda

quarto na casa de dona linda

dona linda cozinhando

Procurando hospedagem em Lençóis ou no Vale do Capão, na Chapada Diamantina? Clique nos links e veja minhas recomendações!

Como é a alimentação?

Ao contratar uma agência ou guia, a alimentação costuma estar incluída, mas é bom verificar direitinho com o grupo que você escolheu pra ir. No caso da Chapada Adventure Daniel, tivemos “pensão completa” nas casas em que nos hospedamos (café da manhã e jantar) e lanche preparado pelos guias durante o dia.

O café da manhã costumava ser servido às 7h, incluindo pães e bolos feitos na hora, frutas, sucos, café, cuscuz, tapioca, batata doce, banana cozida e outras delícias. O jantar era servido às 19h, com opções como diferentes carnes, palma e godo de banana (comidas típicas de lá), saladas, massas… Também tinha opções pra vegetarianos e celíacos.

Durante as trilhas também comemos muito bem; levei alguns lanches de casa e não comi nadinha. No primeiro dia, recebemos um pacotinho cada, com dois sanduíches, banana, maçã, barrinha de cereal, bolacha e chocolate.

jantar em casa de nativo

café da manhã no pati

cozinha de casa no vale do pati

prato de comida no vale do pati

Nos dias seguintes, os guias nos prepararam piqueniques com ovo cozido, sanduíche de atum com cenoura, frutas, sucos, café passado na hora, barrinha de cereal, amendoim e outras coisinhas.

guias da chapada adventure daniel preparando lanche

lanche preparado pelos guias

Tem quem opte por preparar as próprias refeições nas cozinhas coletivas das casas (pagando uma taxa pelo uso), mas acho uma economia que não compensa. Eu não teria condições de preparar meu jantar depois da trilha, porque à noite estava sempre só o pó, e ter uma comidinha caseira quentinha pra comer e repetir era maravilhoso.

Quando ir?

O Vale do Pati pode ser visitado durante o ano inteiro, mas a época de chuvas costuma durar de novembro a abril. Nos outros meses, as cachoeiras têm pouco volume de água e é possível que o Cachoeirão esteja praticamente seco.

No entanto, como se trata de um vale, a região é influenciada por microclimas e é difícil prever como será cada dia. Geralmente, o dia começa friozinho e vai ficando ensolarado, mas pode rolar tanto sol forte quanto chuva e vento sem muito aviso.

Quando eu fui, em novembro, chovia um pouquinho pela manhã e depois parava. Considero que tive sorte com o clima, porque foi um meio termo: não peguei nem muito sol na cara, nem trilhas mega enlameadas por causa das chuvas.

No período da quaresma, o vale fica todo roxinho, porque ele é cheio de quaresmeiras e nessa época elas dão flor. Deve ser a coisa mais linda!

Já no São João, Carnaval e Réveillon, o Pati fica BEM cheio, mas também mais animado do que o normal – especialmente na casa de Dona Raquel, onde rola o forrozinho dos “Filhos da Raqué”. Tivemos uma “amostra grátis” da farrinha, com um arrasta-pé improvisado pelo filho João. :)

joão tocando sanfona

O que levar para a travessia do Vale do Pati?

Essa viagem foi o ápice do exercício de minimalismo na minha vida, porque pode ser preciso carregar a própria mochila todos os dias, então cada quilo faz a diferença. É importante levar só o estritamente necessário, mas ter bons equipamentos faz a diferença.

Recomendo escolher uma mochila bem confortável, com 20 a 40 litros. Fui com uma de 30 litros da Quechua e foi mais do que suficiente. Outro item importante é o sapato: escolha calçados apropriados pra trilha, sejam tênis ou botas (que é bom porque ajuda a evitar torção de tornozelo, mas eu fui de tênis mesmo e foi de boas).

Se seu sapato for impermeável como o meu, melhor, por causa de chuvas/lama e da travessia de alguns riachos. Os meninos do meu grupo estavam de tênis normal, com solado liso, e saíram (quase) ilesos, arrasaram! Mas o ideal é ter calçados com solado próprio pra trekking.

Não se esqueça também de boas capas de chuva pra você e pra mochila, protetor solar, óculos escuros, chapéu e garrafa d’água (de preferência de 1,5 litro, ou mais de uma garrafinha, que você pode levar cheia ou ir enchendo em nascentes pelo caminho). Leve também dinheiro em espécie pra comprar alguma coisa nas vendinhas se necessário, e não esqueça eventuais remédios que você costume tomar, porque lá não tem farmácia.

o que levei para a travessia do vale do pati

Usei calça quase todos os dias por conforto e pra proteger as pernas, mas os meninos usaram bermuda e foi tranquilo. À noite fazia um friozinho de leve (em junho acredito que chega a uns 15 graus) e usei legging e um casaquinho (fleece), mas nas casas onde fiquei tinha cobertor.

É bom economizar nas peças de roupas: o “pijama” pode ser a roupa do último dia de trilha, por exemplo. Também rola de lavar roupa nas casas, mas só fiz isso quando ia passar mais de uma noite, porque o clima tava úmido e as coisas demoravam pra secar. Usei a calça suja uns três dias seguidos – tá todo mundo meio porquinho mesmo, tem que abstrair!

Levei uma legging e uma bermuda pra o dia, uma legging pra dormir, dois biquínis e quatro blusas (sendo uma de manga comprida, daquelas UV) e foi mais do que suficiente. Só não vale economizar nas roupas íntimas e nas meias – leve uma por dia, porque pé molhado pode provocar o surgimento de bolhas.

Outros itens que levei foram lanterna, chinelo, repelente, protetor solar, toalha de secagem rápida (pra os banhos de rio/cachoeira), sacos pra o lixo, bolsa estanque pra proteger eletrônicos se chovesse muito, itens de higiene pessoal (tudo em embalagem mini), Canon G7X, GoPro com baterias extras, bastão da GoPro, carregador pra o celular e pra câmera, mini carteira, fones de ouvido, máscara de dormir, protetor labial, lenços umedecidos, lenços de papel, pastilhas purificadoras pra água, benjamin (T) e uma pochete pra deixar a câmera e o celular à mão.

Levei também uma farmacinha com soro fisiológico, pomada fenergan, gaze, esparadrapo, remédios pra gripe e pra garganta, dorflex, salonpas, óleo essencial de andiroba com menta, anti-inflamatório, emplastros pra bolhas nos pés e antialérgico.

Só senti falta de álcool gel pra passar nas mãos antes de comer o lanche e de mais alguma coisa pra as dores musculares, tipo cataflan ou uma pomada de arnica. Fora isso, fiquei bem feliz com o que levei!

O peso total da minha mochila deu um pouco mais de 4 kg sem as águas, e quase 6 kg com elas. O recomendável é não ultrapassar 10% do seu peso corporal, então fiquei no limite. Teria sido bom deixar a mochila um pouco mais leve, mas só senti mesmo o peso no primeiro dia; não precisamos sair sempre com ela cheia, e também me acostumei.

Levei também outra mochila menor (a roxinha na foto abaixo) com notebook e mais algumas roupas pra os dias extras que passei na Chapada depois da travessia, e deixei ela guardada na agência.

mochilas para a travessia do vale do pati

Quanto custa?

O valor do quarto nas casas de nativos com café da manhã e jantar é tabelado e atualmente (novembro de 2018) custa R$ 120 por pessoa. Somando isso aos guias e outros serviços, a diária da travessia do Vale do Pati custa hoje entre R$ 200 e R$ 350 por pessoa.

Esse valor varia de acordo com a duração do trekking, o número de pessoas no seu grupo, se a alimentação completa tá incluída ou não, se você tem carro próprio pra ir até o início da trilha e eventuais extras oferecidos pelo guia ou agência contratada.

Como comentei lá em cima, eu fiz o passeio com a Chapada Adventure Daniel e o serviço foi excelente. Fiz uma parceria com eles porque já tinha feito vários passeios com a agência ano passado e achei a empresa muito séria e organizada. Acho uma ótima opção pra quem vai só, como eu, porque você contrata tudo online e eles formam o grupo e oferecem transfer.

grupo e guia na travessia do vale do pati

Atualmente, o valor cobrado por eles pra travessia do Vale do Pati de cinco dias é R$ 1.670, incluindo traslado da rodoviária de Lençóis pra sua pousada (ida e volta), uma reunião de orientação na véspera do passeio, translado até o início da trilha, acompanhamento de guias (foram 2 pra nosso grupo de 6 pessoas, mas se o grupo for maior, são mais guias) e todas as refeições e hospedagem por quatro noites. No site deles você confere as datas das próximas saídas.

Se você for com um grupo, dá pra contratar um guia diretamente. Mas se escolher fazer isso, recomendo pesquisar BEM sobre os guias e só ir com boas recomendações, porque vi e soube de uns meio desorganizados.

Qual foi meu roteiro?

No primeiro dia da travessia do Vale do Pati, o pessoal da Chapada Adventure foi buscar todo mundo em suas pousadas às 8h e levou pra sede da agência. Deixamos nos armários deles as coisas que não íamos levar pra travessia e saímos de carro com direção ao início da trilha, em Guiné.

carro da chapada adventure no início da travessia no guiné

Chegamos lá em cerca de duas horas, sendo boa parte do percurso em estrada de terra, e começamos a trilha propriamente dita às 11h30.

Nesse dia, andamos cerca de 15 km, com muitas subidas. Atravessamos as Gerais do Rio Preto, paramos no Mirante do Pati e por volta das 16h chegamos à casa de Dona Raquel. À noite, rolou um forrozinho improvisado no bar de João, um dos filhos de Dona Raquel, com direito a gengidrinks (cachaça curtida em gengibre com limão e mel).

Leia também o meu relato do primeiro dia de travessia do Vale do Pati.

No segundo dia, saímos às 8h30 levando só o essencial (deixamos o resto das coisas na casa). Por volta das 12h, chegamos ao Cachoeirão, onde visitamos dois mirantes. Na volta, paramos num rio próximo pra tomar banho e almoçar. Andamos uns 18 km nesse dia.

travessia do vale do pati

No terceiro dia, saímos às 9h e fomos até a casa de Seu Aguinaldo, que fica a uns 500 metros da de Dona Raquel, e deixamos lá nossas coisas. Com as mochilas mais vazias, fomos até o Morro do Castelo, também conhecido como Morro da Lapinha.

Andamos só uns 10 km nesse dia, mas ele foi o mais difícil pra mim (e pra muita gente também), porque a subida do morro é bem íngreme e técnica, com trechos de escalaminhada (trilha em que é preciso usar as mãos como apoio pra subir nas pedras).

Almoçamos num cenário deslumbrante, no topo de um dos mirantes, e voltamos pra casa por volta das 16h. À noite, fizemos fogueira e tomamos cerveja. Se tivéssemos saído mais cedo e tivéssemos mais disposição, poderíamos ter incluído nesse dia as Cachoeiras dos Funis, mas acho que ia ficar BEM puxado.

grupo que fez a travessia do vale do pati

No quarto dia, saímos umas 9h30, porque o percurso era mais tranquilo e queríamos chegar na principal “atração” do dia com mais sol (pela manhã tava sempre chovendo). Os guias chamaram essa trilha de “Barbie Trek”, porque andamos pouco mais de 10 km e o nível de dificuldade foi o mais baixo dentre todos os dias de travessia.

Caminhamos com nossas mochilas cheias e fomos até o Poço da Árvore, onde chegamos por volta das 11h. Almoçamos, tomamos banho e curtimos o lugar sem pressa, e depois fomos até a casa de Dona Linda, aonde chegamos por volta das 15h30. A casa de Dona Linda é a mais simples dentre as que visitamos, mas foi minha preferida.

No quinto dia, acordamos às 4h pra sair às 5h e não pegar sol na Ladeira do Império, uma subida puxada que atravessamos pra sair do vale. Nesse dia andamos cerca de 22 km, sendo uns 4 km de subida íngreme. Demos sorte de pegar chuva, então achei o percurso mais fácil do que esperava.

no alto da boa vista, com andaraí ao fundo

Paramos pra o lanche no Alto da Boa Vista, de onde já avistávamos Andaraí, e então descemos até a cidade e caminhamos até a Sorveteria Apolo. Chegamos lá umas 11h e parte do grupo foi de lá pra o Poço Azul e o Poço Encantado, que ficam lá perto.

Eu conheci as duas atrações ano passado, então voltei direto pra Lençóis, aonde cheguei às 13h, já morrendo de saudades do Vale do Pati.

E você, já fez a travessia do Vale do Pati? O que achou? Tá pensando em fazer e ainda tem alguma dúvida? Fala aí nos comentários!

A blogueira fez a travessia do Vale do Pati em parceria com a agência Chapada Adventure Daniel. As opiniões expressas aqui são pessoais e não sofreram nenhuma interferência da empresa. O Janelas Abertas preza pela transparência e sempre sinaliza qualquer parceria ou patrocínio, como informado nas políticas do blog.

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8 Comentários

  1. Alan Brito

    Parabéns pelo belo texto. Narrativa envolvente e que flui com muita leveza, pena que não tinha mais uns 10 parágrafos.

    Ótima experiencia, deu mais vontade ainda de conhecer depois de seus relatos. Estou me planejando para fazer esta trilha neste ano de 2019.

    • Que alegria ler esse comentário, Alan! Muito obrigada pelo feedback. Espero que você consiga fazer a trilha mesmo! É uma lindeza <3 Um abraço!

  2. Thiago Queiroz

    Parabéns pelo texto, tu conseguiu transmitir seu sentimento em cada linha, quero fazer essa travessia. Muito obrigado por compartilhar!!

    • Que massa, Thiago! Obrigadíssima pelo feedback :) Espero que você possa fazer a travessia, sim! Um abraço

  3. Leandro Sebastian

    Muito legal seu relato! fui à chapada no final de 2016 l, fiquei encantado, e fiz a promessa de voltar exclusivamente para fazer esta travessia, e seu relato me deu mais ânimo pra esta realização. Beijo!

    • Que ótimo, Leandro! Também fui pra lá uma vez e voltei pra fazer a travessia. Melhor decisão! :) Espero que você possa ir em breve.

  4. Emanuel Salvador Toscano

    Luisa, em primeiro lugar, parabéns por sua experiência e por compartilha-la com tanta sensibilidade. Deu vontade de continuar lendo e saber mais sobre seu dia a dia nesta jornada. Estou planejando fazer a trilha em junho/19 e seu relato me deu mais ânimo. Penso ficar em torno de 10 dias na chapada. Acha melhor começar pela travessia ou fazer os outros passeios primeiro?

    • Oi, Emanuel! Que legal que você gostou do post :) Espero que tenha lido também o relato detalhado que fiz sobre o primeiro dia. Em breve vou falar sobre os outros dias da travessia com mais detalhe também. Sobre começar pela travessia ou não, acho que tanto faz. A princípio pensei que ficaria exausta depois do Pati e não conseguiria fazer outras trilhas, por não ter condicionamento físico muito bom, mas depois de um dia de descanso me senti bem disposta pra outros passeios. Acho que você pode escolher com base na disponibilidade de algum grupo ou guia que te indicarem :) Um abraço e boa viagem!

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