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Complexo de branco salvador: boas intenções não são o suficiente

– Destaque Slide 5 – | 27/09/19 | Atualizado em 31/10/19 | Deixe um comentário

Você já deve ter visto essa cena: uma celebridade ou um(a) jovem de classe média, geralmente branco(a), viaja pra algum país africano pra fazer trabalho voluntário e publica fotos nas redes sociais posando com crianças negras. Como resultado, recebe vários likes e comentários de parabéns.

Nem sempre essa situação representa algo errado. Mas muito frequentemente, não sabemos quem são as crianças, não entendemos o contexto da situação, não descobrimos se a foto foi feita com consentimento dos responsáveis. E ficamos com a impressão de que existem ali os “coitados” e o “herói”. Por trás disso, costuma estar presente o chamado “complexo de branco salvador” (do inglês “white savior complex”).

O que é esse tal de complexo de branco salvador?

Resumidamente, o termo é usado quando alguém acredita que pode “resgatar” pessoas negras de uma situação de pobreza ou vulnerabilidade, simplesmente por ser branco e/ou vir de uma posição econômica mais privilegiada.

Ao se juntar com a exposição na mídia e nas redes sociais, esse complexo contribui pra reforçar estereótipos, como os de que África é um continente homogêneo e miserável e que seus habitantes são incapazes e precisam de ajuda externa.

Isso tem a ver, por exemplo, com o fato de que muita gente pensa em viajar pra países africanos pra fazer trabalho voluntário, enquanto pouca gente quer ir conhecer sua cultura e belezas naturais (especialmente se excluirmos as viagens de luxo e pra safaris).

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Também tem pobreza na Europa ou nos Estados Unidos, por exemplo, mas não é nisso que a maioria de nós pensa quando decide viajar pra esses lugares, né? E isso não tem nada de acaso – é o resultado de uma narrativa bem estabelecida, que nós viajantes podemos combater ou reforçar.

E é por isso que existem iniciativas como o perfil do Instagram No White Saviours (“nada de salvadores brancos”, em tradução livre), que manda umas verdades bem necessárias.

O foco deles é em habitantes de países do “Norte global”, que têm uma tradição bem difundida de fazer essas viagens de “ajuda humanitária”. Não por acaso, essas nações são responsáveis por boa parte dos problemas no “Sul global”, incluindo o continente africano. Mas pessoas brancas-de-classe-média como eu, ainda que latinas, também fazem parte da discussão.

Como eles explicam na descrição: “Nunca falamos ‘nada de gente branca’. Só sabemos que você não deveria ser o herói da história. Se você não está desconfortável, é porque não está escutando”.

no white saviors, perfil que milita contra o complexo de branco salvador

Ser branco ou ter dinheiro não são qualificações

Fazer uma viagem cheia de boas intenções é excelente, é claro. Mas muitas vezes o que parece benéfico pode, na verdade, trazer consequências negativas pra população local.

Existem casos cuja gravidade é muito óbvia, como a história de Renée Bach, que veio à tona recentemente. Essa missionária americana praticou medicina em Uganda sem qualificação, com a intenção de “ajudar os necessitados”, e aparentemente foi responsável pela morte de dezenas de crianças.

“Como uma jovem sem nenhum treinamento médico poderia chegar a pensar em cuidar de crianças seriamente doentes em um país estrangeiro? Pra entender isso, é importante saber que a cidade onde Bach fundou sua organização já tinha se tornado um polo de volunturismo americano quando ela chegou”, diz a matéria da NPR.

O simples fato de vir dos EUA, ser branca e usar um jaleco dava a Renée uma autoridade que ela não devia exercer. Suas intenções podiam ser as melhores possíveis, mas ela foi extremamente irresponsável.

E apesar de esse caso ser dos mais graves, infelizmente está longe de ser uma exceção. Mesmo que você vá só brincar com crianças, pintar paredes ou ensinar inglês, seu trabalho voluntário no exterior pode atrapalhar mais do que ajudar, como expliquei nesse post aqui do blog.

Existe uma indústria multimilionária do volunturismo e muitos dos projetos que atraem estrangeiros são considerados maléficos por especialistas – especialmente os que envolvem crianças. Além do meu post, você também pode entender melhor essa questão vendo esse vídeo do TEDx e esse outro (em inglês) ou dando um Google em “problemas do volunturismo”.

Fazer trabalho voluntário no exterior sempre é ruim?

Nem sempre. Também compartilhei aqui no blog uma série de recomendações pra ser um voluntário com impacto positivo, com base em dicas de especialistas. Dá, sim, pra ter um impacto positivo viajando.

Mas nem sempre isso precisa acontecer sob a forma de voluntariado (ser um turista responsável ajuda muito, por exemplo). E quando for o caso, precisamos ficar muito atentos.

Acredito que o mais importante é tomar cuidado pra não colocar nosso ego e nossos processos de aprendizado ou “transformação pessoal” antes das necessidades das pessoas. Tá certo que “voluntariar na África” certamente seria uma experiência incrível pra muitos de nós, mas pra quem tá do outro lado nem sempre é tão bom quanto parece.

Precisamos entender que a pobreza tem causas complexas e exige medidas estruturais pra ser superada. Boas intenções e entusiasmo são ótimos, mas não são suficientes.

Vale ressaltar que não se trata de demonizar pessoas específicas, que não fazem ideia da complexidade da questão. A ideia é justamente a gente aprender juntos a entender esses problemas e ter consciência sobre as consequências das nossas ações. E sobre nossa responsabilidade, né?

Como disse Michael Mumisa, professor da Universidade de Cambridge, nessa matéria do Metro.co.uk: “Não estamos falando sobre intenções individuais, mas sobre impacto. O impacto (do complexo de branco salvador) é a contínua desumanização e infantilização colonial de mais de um bilhão de africanos”.

Enquanto o autor da selfie da vez bomba no Instagram por ter ido ajudar os “pobres africanos” durante algumas semanas (e muitas vezes não ajudou em nada), ativistas locais passam a vida trabalhando em prol de mudanças profundas sem receber atenção ou apoio.

“Nós não vamos libertar ninguém. As pessoas é que vão, por meio da sua luta, se libertarem. O que podemos fazer é ajudá-las apoiando seus movimentos e abrindo espaço para que sejam cada dia mais incluídas”, diz esse texto de Marina Briant sobre o assunto.

O que podemos fazer pra evitar o complexo de branco salvador?

Além do ótimo No White Saviors, outra iniciativa que promove conscientização sobre o complexo de salvador branco é a Norwegian Students’ and Academics’ International Assistance Fund. Eles lançaram uma campanha pra que viajantes não perpetuem a ideia de que a África é só miséria e que só o Ocidente é capaz de salvá-la.

Além de criar um perfil no Instagram chamado Barbie Savior, que satiriza o complexo de branco salvador, eles reuniram no site do projeto um vídeo e uma lista de dicas sobre o assunto.

o instagram barbie saviour ironiza o complexo de branco salvador

Pensa em fazer trabalho voluntário no exterior, ou em visitar algum país da África ou outra região estigmatizada? Juntei aqui também algumas das principais recomendações que li sobre coisas que podemos fazer pra evitar (ou ao menos reduzir) impactos negativos:

  • Se engajar em organizações sociais onde você vive (se quer ajudar, por que não começar onde você conhece a cultura e tem mais facilidade de entender se um projeto é sério e eficaz?);
  • Ser sincero consigo mesmo e questionar suas motivações;
  • Visitar os países pelo que eles têm e não pelo que falta neles. E, durante a viagem, apoiar a economia local, privilegiando negócios capitaneados por nativos do lugar (projetos de Turismo de Base Comunitária são bons exemplos);
  • Se for viajar pra voluntariar, procurar organizações que apoiem lideranças locais e funções que esteja capacitado pra executar;
  • Lembrar sempre que você é um visitante e deve respeitar a cultura local;
  • Não publicar fotos de pessoas, principalmente crianças, sem autorização e sem se perguntar se gostaria que você ou sua família fossem retratados daquela forma;
  • Quando divulgar essas imagens, evitar generalizações e tentar incluir contexto sobre os lugares, mostrando-os em sua complexidade e evitando reforçar estereótipos;
  • Ter consciência sobre as dinâmicas de poder que podem fazer com que você seja visto como “superior” naquele lugar só pela sua nacionalidade ou cor da pele;
  • Mostrar o trabalho que é feito pelas pessoas locais pra resolver os problemas locais;
  • Não retratar a si mesmo como o herói da história.

Vale ressaltar: mesmo que eu e você não tenhamos sido aquelx jovem do primeiro parágrafo, a gente pode ter feito (ou vir a fazer um dia) coisas parecidas sem perceber. Por isso mesmo, é preciso estar sempre atento e disposto a aprender.

Você já conhecia a expressão “complexo de branco salvador“? O que pensa sobre o assunto? Me conta aí nos comentários!

A imagem que aparece em destaque no topo do texto é uma captura de tela do vídeo sobre branco salvador produzido pela Radi-Aid.

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