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Aldeia indígena no Ceará: turismo comunitário com os Jenipapo-Kanindé

Ceará | 19/04/22 | Atualizado em 09/05/22 | Deixe um comentário

Sabia que é possível visitar uma aldeia indígena no Ceará, bem pertinho de Fortaleza? O povo Jenipapo-Kanindé vive às margens da Lagoa Encantada, no município de Aquiraz, a cerca de 50 km da capital. E além de receber visitantes para passar o dia, eles também têm estrutura para quem quiser se hospedar por algumas noites, como eu fiz.

Passei quatro dias e três noites na aldeia dos Jenipapo-Kanindé com o objetivo de conhecer o projeto de Turismo de Base Comunitária que eles desenvolvem por lá. Descobri esse roteiro através da Rede Tucum, uma articulação formada desde 2008 por grupos de comunidades da zona costeira que realizam turismo comunitário no Ceará.

Mais adiante neste artigo vou falar sobre o roteiro turístico que eu fiz nessa aldeia indígena no Ceará, que você pode visitar entrando em contato pelo e-mail [email protected] ou pelo Whatsapp de Preá, coordenador do turismo local: (85) 98605.2820.

Mas antes de ir para essa parte prática, acho importante contextualizar um pouco da história e da luta desse povo. Afinal, entender o contexto dos lugares que visitamos é importante para quem quer praticar um turismo responsável. Vem comigo?

O povo Jenipapo-Kanindé

A terra do povo Jenipapo-Kanindé, conhecida como Lagoa da Encantada, tem 1.731 hectares. Ali vive uma população de cerca de 400 pessoas que têm na lagoa que dá nome ao território sua referência de luta e ancestralidade. Além disso, ela é muito importante para a manutenção do ecossistema local.

“A partir de sua relação com esse espelho d’água, as famílias foram se estabelecendo e desenvolvendo suas atividades produtivas e culturais. O diálogo com o ambiente, aqui, é de mão dupla: a comunidade se mobiliza na preservação do olho d’água e da mata nativa e a Lagoa retribui com suas águas e terras férteis para a produção de alimentos”, diz a publicação Rede Tucum: das ondas do mar aos quintais da vida, lançada em 2017 pelo Instituto Terramar.

Os Jenipapo-Kanindé são uma das 14 etnias indígenas existentes no Estado do Ceará e pertencem ao tronco dos Tarairiú. No entanto, durante muitos anos o grupo não foi reconhecido como povo indígena, sendo chamados pelos vizinhos não-indígenas por apelidos como “cabeludos da Encantada”.

A luta por seu reconhecimento se intensificou nos anos 1980 e sua oficialização pela Fundação Nacional do Índio (Funai) aconteceu entre 1997 e 2002, quando um grupo técnico realizou estudos visando o reconhecimento étnico, a identificação e a delimitação da terra indígena. Em 2011, as terras finalmente foram demarcadas.

Os Jenipapo-Kanindé conservam costumes tradicionais como a dança do Toré e a partilha de uma bebida ritualística feita de caju fermentado, chamada Mocororó. Eles têm como principais fontes de subsistência a agricultura, pescaria, artesanato e o Turismo de Base Comunitária.

território dessa aldeia indígena no ceará

Cacique Pequena e a luta por direitos

Além das belezas naturais dessa terra, o povo Jenipapo-Kanindé é conhecido por suas lutas. Muitas delas foram e são protagonizadas por Maria de Lourdes da Conceição Alves, 77 anos, chamada de Cacique Pequena.

Ela é considerada a primeira cacique mulher no país, tendo assumido o cargo em 1995, e é uma referência na história das comunidades indígenas brasileiras. É um privilégio poder conversar com essa lenda viva, né?

cacique pequena

Uma das suas principais lutas foi pelo reconhecimento como indígenas pela Funai. Ela também acompanhou o processo de legalização das terras, delimitadas em 1999 e demarcadas em 2011, e percorreu insistentemente os órgãos públicos reivindicando vários outros direitos para o seu povo. “Aquela mulher analfabeta fundou uma cidade indígena”, me disse Cacique Pequena quando conversamos.

Hoje, a aldeia Jenipapo-Kanindé tem escola indígena contextualizada (essa que você vê na foto abaixo, que tem professores indígenas e currículo que inclui questões da própria cultura), energia elétrica, abastecimento de água, casa de farinha, pousada, galpão de artesanato, museu, posto de saúde e CRAS (Centro de Referência da Assistência Social).

escola da aldeia indígena no ceará

A luta não foi nada fácil, inclusive pelo fato de ser mulher. Como já disse em entrevistas, Pequena enfrentou resistência inclusive de lideranças indígenas de outras regiões, que diziam que mulher “só serve pra cama e pé de fogão”.

No processo de sucessão da aldeia, quem vai assumir o legado de Cacique Pequena são duas filhas suas, Jurema e Juliana, escolhidas pela comunidade.

Conflitos pelas terras indígenas

Conseguir a demarcação das terras foi um grande feito, mas o processo ainda não está concluído; ainda faltam alguns procedimentos, como a retirada de ocupantes ilegais.

Além disso, as lideranças do povo Jenipapo-Kanindé têm lidado nas últimas décadas com diversos conflitos provocados por empresas que tentam explorar o território.

Um deles envolve a empresa Ypióca, que desde a década de 80 explora a terra para o plantio de cana de açúcar e usa da água da Lagoa Encantada para irrigação da monocultura. Durante muitos anos, essa prática poluiu a Lagoa da Encantada, além de diminuir seu espelho d’água, causando impactos sociais e ambientais.

A empresa tentou, inclusive, anular a demarcação da terra indígena, mas felizmente os Jenipapo-Kanindé ganharam essa batalha na justiça. O conflito mobilizou também pesquisadores, jornalistas e ambientalistas, que foram acionados judicialmente pela Ypióca em retaliação por denunciarem a exploração.

lagoa encantada na aldeia indígena no ceará

Durante os passeios que fiz com meu anfitrião Preá, filho de Cacique Pequena e responsável pelos roteiros de Turismo de Base Comunitária nessa aldeia indígena cearense, ele também me contou sobre outras investidas sobre o território.

Houve, por exemplo, tentativas de construção de mega resorts estrangeiros por lá, o que destruiria boa parte da mata preservada, e de instalação de usinas eólicas, que também têm um grande impacto socioambiental.

Nos dias que passei na aldeia, uma das coisas que mais me chamaram atenção foi a evidente articulação da comunidade em prol dos seus direitos. Algumas das articulações locais são o Conselho Indígena Jenipapo-Kanindé, a Associação das Mulheres Indígenas Jenipapo-Kanindé e o Grupo de Jovens Jenipapo-Kanindé.

conselho indígena jenipapo-kanindé

Enquanto eu estava lá, vi adolescentes e adultos acompanhando lives de manifestações em Brasília e membros da aldeia se organizando para ir a Aquiraz exigir direitos junto à prefeitura. Testemunhar um pouquinho dessa luta me deixou esperançosa. Afinal, se depender de nós brancos, continuaremos caminhando rumo à destruição.

Como diz a jornalista Eliane Brum no excelente livro Banzeiro Okotó, “É desse enorme mal-entendido que se origina o colapso climático: uma minoria dominante que compreende rio, montanha, terra como recurso e como mercadoria, e que portanto pode dispor deles como bem entender, tirando de um lugar e botando no outro, matando uma parte aqui para aumentar o PIB ali, e assim por diante – e um caleidoscópio de outros povos cujas vozes são seguidamente silenciadas à bala, insistindo que o que se chama de recursos e de mercadorias são na verdade outras gentes, nem menos nem mais importantes que as gentes humanas, e que só nesse entrelaçamento de intercâmbios dinâmicos é que se pode assegurar a própria existência coletiva no planeta”.

Aldeia indígena no Ceará: turismo na Lagoa Encantada

Tá, mas e a parte do turismo? A aldeia dos Jenipapo-Kanindé recebe pesquisadores e alunos de escolas da região desde 1994. Em 2005 eles começaram a receber turistas e foram avançando na estruturação dos roteiros com a colaboração de organizações como Instituto Terramar e Instituto Caiçara. Posteriormente, passaram a integrar a Rede Tucum.

Como chegar na aldeia dos Jenipapo-Kanindé

Como mencionei lá em cima, essa aldeia indígena no Ceará fica a apenas 50 km de Fortaleza. É fácil chegar lá de carro, pegando a Avenida Washington Soares e a CE-040 em direção à Praia do Iguape. Fui de Uber e o GPS funcionou direitinho para apontar o caminho (coloquei como destino a Escola Indígena), mas Preá também me passou instruções bem claras quando combinamos minha ida.

Se você não estiver de carro e não puder ou quiser ir de Uber ou táxi, é possível ir de ônibus rodoviário, pela Empresa São Benedito, até Aquiraz. O ônibus sai da Rodoviária Engenheiro João Tomé (se ligue, porque não é a rodoviária principal de Fortaleza). A viagem dura entre uma e duas horas e a passagem custa uns R$ 8.

Depois de descer na rodoviária de Aquiraz você deve pegar uma Topic (van) até Iguape e pedir pra descer na Torre do Telefone. É preciso combinar previamente com o pessoal da aldeia para buscarem você lá, porque não existe transporte público que vá até a aldeia em si.

Onde se hospedar nessa aldeia indígena no Ceará

É possível ir até a aldeia da Encantada só passar o dia, mas você também pode ficar lá por uma ou mais noites, como eu fiz. A antiga escola dos Jenipapo-Kanindé foi transformada numa pousada com quatro suítes.

Fiquei numa delas, que tinha uma cama de casal, mosquiteiro, ventilador, duas mesas e uma cadeira. A estrutura é bem simples, então não espere muitos confortos, mas na minha opinião tem tudo que é necessário para uma estadia curta.

quarto na pousada

hospedagem na aldeia

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Onde comer na aldeia Jenipapo-Kanindé

Fiz todas as refeições na casa de Naiara, que funciona como um restaurante familiar. As comidas são simples, como o que eles consomem por lá mesmo: arroz, macarrão, feijão, frango ou peixe, ovo, tapioca…

lugar onde é servido o almoço na aldeia

almoço na aldeia

Enquanto come, você testemunha o dia a dia da comunidade e pode interagir com os fofíssimos filhos de Naiara, Kayla e Ryan. Para mim, essa foi uma das melhores partes! Esse contato com a rotina das pessoas oferece uma imersão mais profunda na cultura local e é uma das melhores partes de fazer Turismo de Base Comunitária, em comparação com o turismo de massa.

Trilhas na aldeia

Entre as principais “atrações turísticas” dessa aldeia indígena no Ceará estão as trilhas pelo território. As principais são essas:

  • Trilha do Morro do Urubu: o morro é considerado sagrado pelos indígenas e subir até o topo para ver o pôr do sol é um dos programas mais legais por lá. O percurso não é fácil, já que é bem íngreme e na areia fofa, mas não achei nada de outro mundo. Subimos em cerca de meia hora e descemos pelo outro lado. No tipo, dá para ver o mar e apreciar a natureza preservada pelos Jenipapo-Kanindé. O Morro do Urubu tem 98 metros de altura.

aldeia indígena no ceará

aldeia indígena no ceará

  • Trilha da Sucurujuba: fiz essa trilha na minha primeira manhã na aldeia, saindo umas 8h30 e voltando umas 11h. Achei bem tranquila! Pelo menos metade do caminho é sob sombra e sem elevação, mas tem uma parte subindo a duna e depois descendo, com exposição ao sol. O caminho é diferente, mas o ponto de chegada é quase o mesmo que o do Morro do Urubu. No final, dá pra tomar banho de lagoa, nesse trecho da foto abaixo. Achei uma delícia para refrescar pós-trilha!

lagoa onde paramos para tomar banho

  • Trilha Cultural: caminhada de reconhecimento dos espaços coletivos da comunidade, como a Casa de Farinha, a Escola Indígena e a casa da Cacique Pequena.

aldeia indígena no ceará

  • Trilha do Riacho: essa é uma trilha bem curta com corrimão de madeira, pensada para facilitar o acesso de pessoas com dificuldade de locomoção. Achei muito legal eles criarem uma trilha acessível, para dar um gostinho para quem não pode fazer os outros trajetos.

trilha acessível na aldeia

Além dessas, tem também a Trilha do Roçado, pra conhecer os roçados das famílias nativas da aldeia, em cerca de duas horas; e a Trilha do Marisco, que passa por dunas e mangues e vai até a praia, em no mínimo três horas.

aldeia indígena no ceará

Outros atrativos dessa aldeia indígena no Ceará

A principal festa do Povo Jenipapo Kanindé é a Festa do Marco Vivo, realizada em abril. Ela costuma reunir outros povos indígenas e visitantes em torno da celebração de rituais sagrados. Outra festividade importante é a Festa do Mocororó, que celebra o mês da safra de caju, em setembro.

Além disso, os indígenas podem fazer nos visitantes as tradicionais pinturas com grafismos, feitas com uma tinta de jenipapo misturado com carvão e usadas tradicionalmente em rituais e celebrações. Eles fizeram em mim uns desenhos bem lindos!

grafismos indígenas

Museu Indígena Jenipapo-Kanindé

Em 2010, foi inaugurado na aldeia o Museu Indígena Jenipapo Kanindé, que funciona, junto com a pousada, no antigo prédio da escola. O museu foi resultado de um projeto chamado Historiando os Jenipapo-Kanindé, promovido pelo Instituto Terramar em parceria com a Rede Tucum.

Seu objetivo era fortalecer as tradições, costumes e história dos Jenipapo-Kanindé dando voz à comunidade, já que os próprios indígenas foram responsáveis por pesquisar sua história através de conversas com os “guardiões da memória” (os mais velhos da aldeia), livros e matérias jornalísticas.

museu indígena

O museu está dividindo em quatro partes:

  • História política de luta do povo Jenipapo-Kanindé
  • Saberes e modos de fazer
  • Lugares de memória
  • Manifestações Culturais

O espaço é simples, mas muito informativo, contando um pouco da história de resistência e luta da comunidade e reunindo uma exposição fotográfica e uma coleção de adornos, peças de artesanato, objetos usados em rituais e utensílios do dia a dia.

“A proposta da construção do Museu no contexto do Turismo Comunitário se deu como forma de fortalecer e manter viva a história cultural e étnica do território, tendo em vista que este espaço não foi idealizado somente para o visitante, mas sobretudo, para os próprios nativos e para gerações mais novas”, diz o site do povo Jenipapo-Kanindé. Dá para conferir online algumas fotos do acervo do museu.

Rede Tucum: Turismo de Base Comunitária no Ceará

Como mencionei, essa aldeia indígena no Ceará faz parte da Rede Tucum, uma articulação formada por grupos de comunidades da zona costeira que realizam o turismo comunitário no estado. Ela existe desde 2008 e tem como objetivo fortalecer um turismo responsável, com justiça socioambiental e autonomia econômica.

“Viajar pela Rede Tucum é uma oportunidade de conviver com ambientes preservados, conhecer os modos de vida de comunidades tradicionais e realizar intercâmbios culturais”, diz o site da rede, que lista também os princípios do TBC:

Princípios do Turismo Comunitário

  • As atividades de turismo são desenvolvidas por grupos organizados e os projetos são coletivos, de base familiar
  • O turismo se integra à dinâmica produtiva local, sem substituir as atividades econômicas tradicionais
  • O planejamento e a gestão das atividades são de responsabilidade da organização comunitária local
  • O turismo comunitário baseia-se na ética e na solidariedade para estabelecer as relações comerciais e de intercâmbio entre a comunidade e os visitantes
  • O turismo comunitário promove a geração e a distribuição equitativa da renda na comunidade
  • O turismo comunitário fundamenta-se na diversidade de culturas e tradições, promovendo a valorização da produção, da cultura e das identidades locais
  • O turismo comunitário promove o relacionamento direto e constante entre grupos que também desenvolvem a experiência de um turismo diferente, estabelecendo relações de cooperação e parceria entre si
  • O turismo comunitário fundamenta-se na construção de uma relação entre sociedade, cultura e natureza que busque a sustentabilidade socioambiental.

E aí, se animou a conhecer essa aldeia indígena no Ceará? Já tinha ouvido falar nos Jenipapo-Kanindé? Conta aí nos comentários!

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