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Costa do Descobrimento e a cultura indígena: vamos reescrever essa história?

Bahia | 22/04/21 | Atualizado em 04/05/21 | Deixe um comentário

“O que é ‘Costa do Descobrimento’? Pra muitos, é onde Cabral chegou e descobriu o Brasil. Mas sabemos que o Brasil não foi descoberto, foi invadido. ‘Costa do Descobrimento’ é algo bonito pra chamar atenção do público pra vir conhecer e trazer renda pra cidade, mas sem desconstruir aquilo que foi escrito pelas pessoas que puderam escrever a história, ou seja, os colonizadores. Sem escutar as vozes dos povos indígenas que ali estavam”.

Essa fala de Tukumã Pataxó, comunicador indígena de Coroa Vermelha, a cerca de 20 Km de Porto Seguro, resume o incômodo que senti desde que me dei conta de que essa região no sul da Bahia é conhecida como “Costa do Descobrimento”.

Coroa Vermelha, aliás, faz parte de um município chamado Santa Cruz de Cabrália. Uma cidade batizada em homenagem ao português que personifica o início da dominação das terras que hoje chamamos Brasil, às custas das vidas e da cultura de centenas de povos nativos.

Quando pesquisei sobre Costa do Descobrimento, encontrei vários textos falando sobre as belas praias dessa região e comentando o quão encantados os portugueses devem ter ficado ao aportar por ali. E quase nada sobre o outro lado dessa história que, como afirma Tukumã, foi escrita pelos colonizadores.

De fato, esse trecho do litoral baiano abriga praias lindas, rios, falésias e uma vegetação maravilhosa – ou o que sobrou dela. Mas abriga, também, populações indígenas que resistem às violências que vêm sofrendo há mais de 500 anos. E além de apreciar as belezas do lugar, acredito que também cabe a nós turistas refletir sobre isso.

indígenas na costa do descobrimento

O que é a Costa do Descobrimento?

A Bahia é um estado maravilhoso, que rende meses de viagem percorrendo cenários e culturas diferentes. Só no litoral já tem um monte de coisa incrível pra ver: tem a Costa dos Coqueiros, a do Cacau, a do Dendê, a das Baleias… E a tal Costa do Descobrimento, que vai de Caraíva a Belmonte.

Porto Seguro, localizado a 710 km da capital Salvador, é o maior município desse trecho da costa. Outros destinos muito populares por lá são a já citada Caraíva, Trancoso e Arraial d’Ajuda. E tem Santa Cruz Cabrália, que mencionei lá em cima, município onde morei por um mês e meio no início deste ano.

O destino é conhecido como “o berço do descobrimento do Brasil”, porque diz-se que foi lá que os portugueses atracaram e fizeram contato com os indígenas. A primeira missa em solo brasileiro teria sido realizada na praia de Coroa Vermelha, que ostenta duas grandes cruzes em homenagem ao acontecimento. Uma mais antiga, de madeira, e outra bem maior, de metal, inaugurada em 2000 e transformada num dos principais pontos turísticos de lá.

“Em Coroa Vermelha os Portugueses ficaram sete dias, interagindo com os indígenas e se abastecendo de água e mantimentos para a viagem que seguiria para a Índia, no dia 2 de Maio, um dia depois de erguerem uma cruz e celebrarem uma missa na presença dos nativos”, afirma Bernardo Biagioni nesse artigo.

Bernardo fez a travessia da Costa do Descobrimento, circuito turístico que pode ser percorrido caminhando pelas praias – ou correndo, como ele. No excelente texto, ele mistura o relato sobre o percurso com reflexões sobre o que o “progresso” tem feito com vilarejos como Caraíva, Cumuruxatiba e Trancoso e sobre a forma em que contamos a história do Brasil. “Como amar conscientemente este país? Devemos fechar os olhos para sua história? É possível reescrever a sua história?”, pergunta.

Eu engrosso o coro: como podemos falar em “descobrimento” de um território que já estava, há muito tempo, cheio de vida? Estima-se que cerca de 3,5 milhões de pessoas viviam aqui antes da chegada dos portugueses.

Na nossa temporada em Coroa Vermelha, eu e meus amigos ficamos incomodados ao nos deparar com ímãs de geladeira e placas coloridas com os dizeres “aqui nasceu o Brasil”. Ali nasceu o Brasil tal como o conhecemos hoje, mas e tudo que já existia antes?

ímã de geladeira que diz "aqui nasceu o Brasil"

É claro que foi uma “descoberta” pra os homens brancos europeus, que não sabiam o que existia nessa parte do mundo. Falamos, então, de uma concepção de Brasil enquanto construção social num ponto de vista eurocêntrico.

Mas qual o sentido de nós brasileiros continuarmos, em pleno século 21, usando esse termo? Por que achamos normal adotar o discurso do colonizador e ignorar as vozes do nosso próprio povo? Por que nosso marketing turístico não dá o mesmo peso aos nossos povos originários? E mais: qual nosso papel enquanto cidadãos e enquanto turistas nessa história toda?

Tenho mais perguntas que respostas, mas acredito que as soluções passam por escutar as populações cuja cultura tem sido sistematicamente apagada e aprender com elas. E entender que se você for uma pessoa branca, assim como eu, compartilha comigo o papel do opressor e a responsabilidade em perpetuar ou desconstruir essas opressões.

Indígenas na Costa do Descobrimento: entrevista com Tukumã Pataxó

Comecei esse texto com uma fala de Tukumã Pataxó, nascido e criado na aldeia Pataxó de Coroa Vermelha. No seu perfil do Instagram @tukuma_pataxo, ele faz um trabalho de conscientização, com muito bom humor, pra dar visibilidade à luta indígena e desconstruir estereótipos sobre esses povos.

A fala é parte de uma conversa que tive com ele junto com o amigo Richard Oliveira do canal do Youtube Vida de Mochila. Infelizmente não participei de atividades turísticas em Coroa Vermelha porque, devido à pandemia, achei mais prudente me isolar. Mas fiquei muito feliz de poder entrevistar Tukumã e saber um pouco mais sobre o turismo étnico na chamada Costa do Descobrimento, sobre a resistência dos povos indígenas na região, entre outros assuntos.

“Acredito que muitos brasileiros pensam que nós indígenas somos um povo só, e não somos. Somos mais de 300 povos indígenas no Brasil. É pouco comparado a antes, mas estamos aí sobrevivendo e resistindo há mais de 500 anos”, ressalta o jovem comunicador, que também contribui com a Mídia Índia e atua como diretor de comunicação da Associação de Jovens Indígenas Pataxó (AJIP), além de estudar gastronomia na Universidade Federal da Bahia.

No fim do post você encontra o vídeo da entrevista que Richard publicou no seu canal, e a seguir destaco alguns trechos da conversa. Em alguns casos, agrupei respostas a diferentes perguntas sobre o mesmo assunto, pra facilitar a leitura.

entrevista com tukumã pataxó

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Visitas a aldeias Pataxó em Coroa Vermelha

“O principal (foco do) turismo aqui é Porto Seguro, onde as pessoas gostam de vir por conta das festas e das praias, mas muitas vezes elas não sabem que aqui tem aldeias indígenas. Porto Seguro tem mais de 45 aldeias Pataxós. Falta divulgação das comunidades.

As pessoas querem saber da história da Primeira Missa do Brasil, mas temos uma aldeia que é considerada a maior aldeia urbanizada da América Latina. Aqui dentro é aldeia, não deixa de ser aldeia, entre esses dois mundos: da aldeia e da urbanização.

Tem a Reserva da Jaqueira, onde ensinamos um pouco sobre nossa cultura, trabalhamos com etnoturismo. Tem o Txanguiru, que é uma reserva também, e a aldeia Nova Coroa, que trabalha com turismo.”

costa do descobrimento

Foto: Lanna Sanches

Expectativas dos turistas ao visitar comunidades indígenas

“Tem muita cobrança do estereótipo do turismo dentro das comunidades. Já ouvi muito ‘Ah, eu fui em Coroa Vermelha e não vi um índio lá, porque todos estavam de roupa’. Eu falo ‘ô, minha senhora, meu senhor, não é bem assim que as coisas funcionam atualmente, né? Eu estou de roupa normal, mas não é por isso que deixei de ser indígena. Não é em todo lugar que você vai encontrar o indígena caracterizado. Não é porque estamos com roupa comum que deixamos de ser indígenas. Está no nosso sangue, nos nossos ancestrais’.

Estamos no século 21, temos muita possibilidade de aprender sobre a cultura, mas as pessoas se prendem muito no passado. Querem ver o indígena pelado, que precisa caçar pra sobreviver, que não usa tecnologia…. Querem ver o indígena de 1500. Enquanto todo mundo vai evoluindo, nós também temos direito de evoluir. Não temos que parar no tempo.

Tem pessoas que querem saber da cultura, têm a mente aberta, e tem quem tá ali só pra tirar foto, colocar um cocar e dizer ‘ah, agora virei índio’.

Nos lugares em que promovemos etnoturismo, costumamos dar palestras, e se as pessoas pararem pra escutar, elas vão aprender. Mas tem muita gente que não quer, só quer zombar da gente”.

indígenas na costa do descobrimento

Demarcação de terras indígenas na região da Costa do Descobrimento

“Muita gente aqui vendeu as terras pra o governo, foi praticamente forçado. Poucos conseguiram resistir, com muita luta.

A gente teve um conflito pesado por demarcação de terras em 2000, no ano em que veio o governo pra colocar aquela cruz grande pra homenagear a Primeira Missa do Brasil.

Coroa Vermelha passou por muito tempo esse conflito com o governo, que tentou comprar terras da mão dos indígenas. Hoje tem muito comércio de não indígenas, hotéis… Em áreas que o governo conseguiu comprar dos indígenas ou retirá-los, visando a questão financeira.

Hoje, a aldeia Patxohã (Pataxó) Coroa Vermelha é demarcada, mas tem áreas ainda em demarcação e parece que não se conclui nunca, como se o governo quisesse dar tempo pra os empresários recorrerem.

Durante a pandemia, quando por lei não se poderia tirar indígenas dos seus territórios, o governo cedeu uma liminar pra que um empresário pudesse tirar uma família que estava no território Ponta Grande.

No último segundo praticamente, depois de cerca de uma semana de luta, quando a polícia já estava vindo, a APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) conseguiu derrubar essa liminar. Estamos nesse processo de luta a todo momento, a luta não para.

As principais cabanas (barracas usadas como bares e restaurantes) da beira da praia pertencem a não indígenas. Os indígenas venderam as cabanas não porque queriam, mas porque ou vendiam, ou eram expulsos.

Mas muitas lojinhas pertencem a indígenas. Muitas vezes uma família não consegue colocar o artesanato na loja e aluga pra não indígenas, pra ter uma renda mensal, e por isso você vê hoje ali produtos que não são artesanato.”

A cruz da Primeira Missa

“É complicado falar de religião aqui em Coroa Vermelha. Você vê indígenas hoje de várias religiões, evangélicos, católicos, então é complexo discutir isso. Mas eu sou uma das pessoas que não concordam muito com esse monumento. Acredito que a gente deveria valorizar mais a cultura e a história indígena.

A gente está mostrando algo que é um massacre, né, a gente tem ali a cruz da Primeira Missa do Brasil, onde começou o massacre dos povos indígenas. Hoje são cerca de 10% da população indígena que tinha em 1500.”

cruz da primeira missa em coroa vermelha, na costa do descobrimento

Monumento e Museu Indígena

“Perto da cruz da Primeira Missa tem um monumento que conta um pouco da história indígena, mostra algumas das lideranças locais, nossos artesões, nossa luta tradicional, o arco e flecha… Mas quase nenhum turista vai, porque não ficou num lugar tão visível. A gente precisa colocar mais a história real da invasão do Brasil, e não essa historinha bonita do ‘descobrimento’.

monumento indígena em coroa vermelha

Parte do monumento indígena em Coroa Vermelha – Foto: Lanna Sanches

Tem também o Museu Indígena na passarela principal, mas ele está em reforma. Quando criança, eu ficava guiando os turistas lá. Estamos esperando recursos pra reformar o espaço.

Hoje (pra saber sobre a cultura indígena em Coroa Vermelha) você tem que estar por dentro das comunidades que recebem o turismo. Não tem nada nessa área principal, é preciso pesquisar um pouco. De cara tem algo explicando sobre a colonização… Você tá ali pra aprender sobre a cultura, e não sobre os colonizadores.”

Pra saber mais sobre os povos Pataxó e as lutas dos povos indígenas no Brasil, você pode seguir Tukumã Pataxó e outros comunicadores como Alice Pataxó no Instagram e os perfis da Associação de Jovens Indígenas Pataxó (AJIP), da Mídia Índia e do portal Visibilidade Indígena, entre outros.

Pra conhecer um pouco da cultura indígena na tal Costa do Descobrimento, você pode agendar uma visita à Reserva Pataxó da Jaqueira entrando em contato pelo Instagram @reservapataxodajaqueira. Agências como a Pataxó Turismo também comercializam roteiro de vivência nas aldeias. De acordo com Tukumã, atualmente essas empresas não são de propriedade de indígenas, mas atuam como parceiras.

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