Finlândia

O que podemos aprender com a Finlândia, o país mais feliz do mundo

Finlândia | 23/04/19 | Atualizado em 29/04/19 | 2 comentários

O que você sabe sobre a Finlândia? Talvez pense em Nokia, sauna e Papai Noel; talvez nem isso. Quando soube que ia pra lá, descobri que alguns amigos não sabiam nem qual é a capital do país. O que é uma pena, já que o lugar tem muito a ensinar ao Brasil e boa parte do mundo. No período que passei por lá, durante o Foreign Correspondents’ Programme, percebi que tem muita coisa que podemos aprender com a Finlândia.

Não é por acaso que o país foi considerado por dois anos seguidos como o mais feliz do mundo. O ranking leva em consideração fatores como PIB per capita, benefícios sociais, expectativa de vida, níveis de corrupção, generosidade e liberdade de escolha.

E mesmo não tendo o PIB mais alto entre os países nórdicos, a Finlândia se destaca nesse e em outros índices porque, segundo especialistas, seus cidadãos têm um forte sentido de comunidade e sentem confiança em relação a aspectos como serviços públicos e educação.

O que chama ainda mais atenção ao lembrarmos que até o início do século 20 o país era pobre, com uma economia primordialmente agrária e pouca infraestrutura. Como lembra esse texto da BBC, em 1909 São Paulo recebeu sua primeira via asfaltada, enquanto a Finlândia só teria seus primeiros quilômetros de rodovia em 1963.

Desde então, várias políticas sociais transformaram o país, tendo como um de seus pilares básicos a educação. Hoje, a terra do Papai Noel coleciona rankings positivos. A Finlândia já foi considerada o país mais estável, mais seguro e menos corrupto do mundo, entre outros índices inspiradores.

Passei um mês lá no verão de 2018 visitando escolas, órgãos públicos, creches, clínicas médicas, asilos e empresas a convite do Ministério das Relações Exteriores finlandês. Me impressionei não só com o que tem de positivo por lá, mas também com a honestidade com que as pessoas falam sobre os problemas do país. Acabei indo embora com uma invejinha danada de avanços sociais como os que vou mencionar aqui.

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coisas que podemos aprender com a finlândia

O que podemos aprender com a Finlândia

Educação

Um dos aspectos mais elogiados da Finlândia é o sistema público de educação. Isso porque desde os anos 2000 o país tem se destacado nos resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), aplicado pela OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento dos Países Europeus) em vários países do mundo.

A população finlandesa tem altos níveis de escolaridade: 87% das pessoas com mais de 25 anos têm ensino médio completo e 42% concluíram o ensino superior (pra efeito de comparação, no Brasil esses percentuais são de 48% e 14%, respectivamente).

Só que o país não foi sempre assim: até a década de 70, seu sistema educacional não era dos melhores. Até que eles começaram uma série de reformas, tornando a educação básica gratuita e compulsória, com 9 anos de duração (dos 6 aos 15; antes disso tem pré-escola e creche). Transporte, almoço e material escolar também passaram a ser oferecidos gratuitamente.

Mas como a gente bem sabe pelo exemplo do nosso próprio país, oferecer educação gratuita não é suficiente, né? Também é preciso zelar pela qualidade dessa educação, além de fornecer boas condições de vida pra os estudantes, pra que eles possam ir às aulas e aproveitá-las bem.

Entre as explicações pra boa performance do sistema educativo finlandês, uma das principais é a importância dada aos professores, profissionais muito respeitados. A concorrência pra entrar nos programas de formação de professores é altíssima. E pra serem contratados, quase todos devem ter mestrado. Além disso, os profissionais são incentivados a se aperfeiçoar continuamente.

Outro aspecto importante é o respeito às diferenças. O sistema educativo prevê que sejam contempladas várias particularidades dos alunos. Todas as escolas devem ser acessíveis, têm refeições vegetarianas e oferecem aulas de diferentes religiões, focando na história, hábitos e princípios. E todos os alunos com outro idioma que não seja o finlandês como língua materna têm direito a assistir a aulas dessa língua na escola.

Nas visitas que fizemos lá em Helsinque, também ouvimos falar muito sobre como o foco é formar seres pensantes e capazes pra o dia a dia, e não pra provas específicas. Além da importância dada a disciplinas tradicionais como matemática e química, as escolas dão muita importância às aulas de assuntos como artes, música e culinária, e frequentemente os temas são abordados de forma multidisciplinar.

A professora com quem conversamos numa escola ressaltou, ainda, o crescente treinamento pra professores em temas de igualdade de gênero. Ela falou que muita coisa ainda precisa ser feita nesse âmbito, mas que se reforça, por exemplo, a importância de não dividir grupos de forma binária (“meninas aqui e meninos ali”).

Se você quiser saber mais sobre o assunto, pode conferir o PDF (em inglês) Finnish Education in a Nutshell, produzido pelo Ministério da Educação e Cultura de lá.

universidade aalto na finlândia

Bem-estar social

Como mencionei lá em cima, não adianta muito ter escolas boas se as crianças estão doentes ou passando fome, ou numa família desestruturada, né? Por isso, outro destaque da Finlândia é, como em outros países nórdicos, a forte crença na oferta de serviços básicos pra população. Muitos deles são gratuitos e outros são cobrados de forma proporcional à renda de cada um.

O modelo de igualdade e justiça social defendido pelos finlandeses inclui saúde, educação e moradia garantidos pra todos, creches altamente subsidiadas, licenças maternidade e paternidade, entre muitos outros benefícios. “As pessoas na Finlândia têm um profundo senso de responsabilidade compartilhada e importam-se não apenas com as próprias vidas, mas também com o bem-estar dos outros”, diz um trecho do livro Finnish Lessons mencionado numa matéria da BBC.

Todas as crianças têm, por exemplo, acesso a creches subvencionadas pela prefeitura. O valor pago depende do salário dos pais, indo de 25 euros a 800 euros por mês. As crianças podem passar o dia inteiro nesses espaços, e alguns funcionam 24 horas por dia pra atender a pais que trabalham durante à noite ou trabalham viajando.

Os cuidados com a maternidade também são excelentes e a Finlândia é considerada um dos melhores países do mundo para ser mãe. Um dos itens mais conhecidos dentre os muitos benefícios para as famílias é a chamada baby box. Que é, basicamente, um enxoval supercompleto que todas as famílias ganham quando vão ter filhos, sejam eles biológicos ou não. Quem não quiser receber o pacote pode optar por uma ajuda de 170 euros.

baby box

Outro destaque é a licença maternidade: a mãe pode deixar o emprego e ser remunerada pelo governo durante 105 dias úteis (cerca de quatro meses). A licença paternidade também é encorajada e remunerada pelo estado, durando até 54 dias úteis.

E tem também a “licença parental”, que começa depois que a licença maternidade termina, pode ser usada tanto pelo pai quanto pela mãe e dura 158 dias úteis. O valor do pagamento é calculado com base na renda declarada pelos pais no imposto de renda.

Esse forte estado de bem-estar social é financiado por uma das cargas tributárias mais altas do mundo. Todo mundo com quem conversei falou que paga os impostos com satisfação, já que vê o retorno no dia a dia.

Transparência das instituições

Outra coisa que podemos aprender com a Finlândia é a transparência, que anda de mãos dadas com índices como baixos níveis de corrupção, independência do judiciário e liberdade de imprensa. Costuma ser fácil acessar informações sobre gastos públicos, e o governo estimula ativamente que a população confira esses dados.

Um exemplo é o Helsinki Region Infoshare, que compila informações sobre Helsinque e sua região metropolitana e as disponibiliza pra que os cidadãos criem apps e outros projetos em benefício da população. Helsinque quer, aliás, ser a cidade número 1 no mundo em transparência de dados públicos.

No site da prefeitura, dá pra encontrar facilmente o e-mail e o número de telefone de todos os funcionários – o que obviamente é muito mais fácil de disponibilizar numa capital com menos de 650 mil habitantes do que seria numa grande metrópole, mas não deixa de ser interessante.

E essa ideia de dados abertos é levada a tal ponto que as informações sobre impostos de todos os cidadãos são divulgadas anualmente, no que ficou conhecido como “Dia da Inveja”. “Enquanto alguns reclamam que a tradição é uma invasão de privacidade, a maioria diz que a prática ajudou o país a resistir à tendência de crescente desigualdade no resto da Europa”, diz essa matéria do NY Times.

De acordo com levantamento da Transparency International em 2017, a Finlândia é também o terceiro país menos corrupto do mundo. Ele é, ainda, o segundo no índice da Repórteres Sem Fronteiras sobre liberdade de imprensa. Confirmando o dado, os jornalistas com quem conversamos durante nossa passagem por lá foram unânimes em dizer que é super incomum terem dificuldade pra obter acesso a informações públicas ou se sentirem pressionados a não abordar algum assunto polêmico, por exemplo.

Tá achando pouco? Toma mais essa: no ranking do Fórum Econômico Mundial sobre independência do judiciário, a Finlândia fica em primeiro lugar, com nota 6.7 de um total de 7 pontos. #inveja

parlamento

Nem tudo é perfeito

Isso tudo quer dizer que a Finlândia é um país perfeito? É claro que não. O país também tem vários problemas, como qualquer lugar no mundo. Apesar de muitos avanços, ainda pode melhorar bastante em temas como proteção do meio ambiente e investimento em pequenos empreendedores, por exemplo.

A Finlândia também vem passando por alguns dos mesmos retrocessos que afetam vários países atualmente. Um exemplo foram as últimas eleições pra o parlamento, que evidenciaram o fortalecimento da extrema direita, com candidatos usando uma retórica comparada à de Trump. Atitudes contra imigrantes também têm crescido nos últimos anos.

Também acho importante ressaltar que é complicado comparar a história do Brasil e de outros países latino-americanos com a realidade tão diferente dos nórdicos. Enfrentamos, é claro, desafios bem distintos.

Mas acredito que isso não nos impede de aprender com a Finlândia e outros países que ostentam índices de qualidade de vida muito melhores que os nossos. Especialmente em tempos em que parecemos caminhar pra trás em tantos aspectos.

E você, já ouviu falar em outras coisas que podemos aprender com a Finlândia? O que acha do que mencionei no post? Conta aí nos comentários!

Crédito da foto em destaque: Tapio Haaja – Unsplash (direitos de uso liberados)

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2 Comentários

  1. Marister de Souza

    Seus textos são, sempre, deliciosos de ler!
    #partiuserfeliznafinlândia

    • Ah, que massa que vc gosta do blog! <3 Muito obrigada pelo comentário, Marister :) Um abraço

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