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Viagem pela África Ocidental: dicas de brasileira que morou e viajou na região

Destinos | 19/04/21 | Atualizado em 29/07/21 | Deixe um comentário

Está pensando em fazer uma viagem pela África Ocidental? Que massa! Infelizmente, esse canto do mundo raramente recebe atenção de viajantes brasileiros. Eu mesma ainda não pisei na África, e quase todo mundo que conheço que foi até o continente visitou países mais “badalados” como Marrocos ou Egito ou então circulou pelo lado oriental do continente, onde ficam Quênia, Tanzânia, Moçambique e África do Sul.

Mas será que não tem nada de interessante pra se conhecer no Oeste da África, ali por Cabo Verde, Senegal, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Camarões e arredores? Ou será que esses países são todos perigosíssimos e cheios de doenças como muitos pensam? Nada disso.

Uma viagem pela África Ocidental pode ser muito rica, além de desafiar os estereótipos negativos muito bem estabelecidos na época colonial e mantidos até hoje pelo imperialismo cultural. Afinal, uma das consequências da exploração do chamado Sul Global é que a maior parte do mundo vê a Europa e os Estados Unidos como “superiores” e acha que África é um continente homogêneo e composto só por pobreza, doença, violência e safaris, né?

Pra falar um pouco sobre o que o Oeste da África tem de interessante, conversei com a amiga Carol Ussier, dançarina e pesquisadora em dança e movimento. Carol passou quatro anos por lá, primeiro morando em Gana e fazendo algumas viagens e depois só viajando pela África Ocidental.

Nessa entrevista, ela conta como foi parar nessa parte do mundo da qual não sabia quase nada e como se encantou por ela. E também dá dicas super úteis pra quem pensa em viajar por essa região que tem tão pouca informação disponível em português.

Viagem pela África Ocidental com Carol Ussier

Antes de falarmos da África, conta um pouco da sua história com viagens?

Tive o grande privilégio de nascer em uma família que não só tinha condições socioeconômicas pra viajar, mas que sempre valorizou muito as viagens. Desde pequena, meus pais me levaram pra conhecer lugares novos. E mesmo sendo viagens de férias, sempre eram bem imersivas, não costumavam ser só pra descansar. Eu voltava pra casa cheia de novas informações. Outro privilégio foi estudar numa escola que proporcionava viagens de estudo anuais que envolviam camping selvagem, atividades de agricultura, caminhada, trilhas, rapel…

Mas foi só quando estava na faculdade que fiz minha primeira viagem sozinha, e naquela época a forma em que achava possível fazer isso era através dos intercâmbios. Fiz primeiro um intercâmbio de Work and Travel pra os Estados Unidos, programa de trabalho remunerado por três meses. Quando voltei, apliquei pra receber de volta os impostos que paguei, e com esse dinheiro fui fazer um intercâmbio na França e meus primeiros mochilões. Fui pra alguns países na Europa e pra o Marrocos, que na época ainda era mais desconhecido pra os brasileiros. Depois, fiz um terceiro intercâmbio pra Filipinas, que não sabia nem onde ficava. Eu sempre busquei lugares sobre os quais eu tinha poucas informações.

Depois disso, viajei sozinha pelo Brasil e em 2016 fui realizar um sonho de infância, que era um mochilão pela Bolívia e pelo Peru. Foi lá que decidi que ia deixar meu emprego numa multinacional. Fiz essa viagem numa época difícil da vida, em que não tinha perspectivas, estava em depressão. Acompanhei blogs como o ViraVolta e comecei a me planejar pra dar uma volta ao mundo. Eu sonhava com isso pelo menos desde 2010, mas nessa época (2016) eu já tinha condições pra guardar mais dinheiro. E foi aí que tudo mudou.

Como surgiu o convite pra morar em Gana?

Eu tinha pedido demissão da empresa, mas ia trabalhar até dezembro e tinha passagem comprada pra começar a volta ao mundo pela Colômbia em fevereiro de 2017. Achava que ia viajar por um ano. A ideia era passar pela América Central toda e depois ir pra o Sudeste Asiático. Eu já tinha muita curiosidade sobre o continente africano, mas tinha medo, afinal, as pessoas me diziam pra ter medo.

Durante os preparativos, fui fazer uma consulta com um infectologista na “clínica dos viajantes” do hospital Emílio Ribas, em São Paulo. O médico me perguntou se eu ia pra África e eu disse “provavelmente, não sei ainda”. Ele tinha um mapa mundi no consultório e lembro dele pegando uma vareta e circulando uma região. Ele disse: “nem pense em pisar aqui”. Eu ainda não fazia ideia, mas essa acabou sendo a região onde passei os quatro anos seguintes.

Nas minhas últimas semanas de trabalho, meu chefe me ofertou uma vaga temporária em Gana, porque queria que eu permanecesse na empresa. Passei a noite inteira pesquisando sobre o país, porque eu não sabia nada. Não sabia bem onde ficava, qual a capital, qual o idioma…

Muita gente me pergunta por que escolhi Gana, e digo que Gana me escolheu. A princípio a vaga só duraria 6 meses, então minha ideia inicial era só postergar minha viagem de volta ao mundo, mas acabei ficando quase quatro anos na África Ocidental. Até pensei em viajar pra outras partes da África e pra Ásia, mas aquela região se tornou um lar pra mim.

carol ussier em gana

Qual foi a reação da sua família quando você decidiu ir pra lá?

Minha família não questionou muito, porque eu ia pra lá com todo o suporte de uma empresa, então acho que parecia mais seguro que uma volta ao mundo sozinha, por minha conta. Mas mesmo depois de tanto tempo morando lá e desconstruindo um monte de estereótipos, continuei ouvindo coisas tipo “nossa, você deve estar ajudando tanto as pessoas de lá, né? E aquelas criancinhas, coitadas, tão magrinhas! E quantos safaris você fez?”. Esses são comentários muito usuais de amigos e familiares.

Como foram seus primeiros dias em Gana?

Do momento em que decidi aceitar a vaga até chegar em Gana pela primeira vez, em dezembro de 2016, se passaram só duas semanas. É esquisito pensar em todas as sensações de quando cheguei lá. Lembro de ter um medo constante. Morria de medo de sair na rua sozinha, de ir pra o centro.

O que mais me chamou atenção foi que não tinha calçada, não tinha iluminação pública, as valetas eram abertas e tinha muita cabra na rua. Eu acho que associei tudo isso às imagens que a gente tem de África, né, de lugar pobre, “não desenvolvido”, de crianças passando fome, doenças, guerras… E tudo isso estava no meu subconsciente.

E aí quando cheguei num lugar que tinha uma estrutura urbana diferente da que eu estava acostumada saindo de São Paulo, associei essas comparações àquele imaginário que a gente tem de África, e foi como se eu estivesse validando tudo aquilo.

(Acho importante mencionar que eu morava em São Paulo. Uma coisa que tomo cuidado pra falar é que na verdade Gana e outros países da África Ocidental podem parecer muito diferentes de algumas capitais brasileiras, mas não são tão diferentes da realidade de boa parte do Brasil.)

Lembro dessa sensação de medo constante, que não era a sensação real que eu tinha quando estava em contato com as pessoas, muito pelo contrário. Fui muito bem recebida desde o começo, a hospitalidade era incrível. Eu nunca me sentia invadida ou assediada, como me sinto no Brasil, por exemplo, mas mesmo assim continuava com medo.

E como foi desconstruir isso?

Foi muito importante e me fez refletir muito também sobre questões raciais no Brasil. Acho que a primeira coisa, que parece bem óbvia mas permanece no imaginário de muita gente, foi perceber quanta diversidade existia em um único país. As pessoas no Brasil me perguntavam como era a cultura ganesa e eu não conseguia responder porque pensava em culturas Ashanti, Ewe, Ga, Fanti (todas etnias presentes em território Ganês).

Outra coisa que foi muito importante foi perceber que aquele medo constante que eu sentia no começo estava internalizado em mim muito por conta da imagem que geralmente é comunicada sobre África, mas também por conta de algo que eu infelizmente só percebi quando passei a viver em um país onde toda a população era negra: eu sentia medo porque a nossa sociedade racista tinha me ensinado até o momento a ter medo de pessoas negras. Foi quando, pela primeira vez na vida, eu entendi que eu era branca e que por disso carregava uma bagagem de preconceitos e também de privilégios.

Esse processo de desconstrução dos estereótipos africanos foi muito marcante no período que passei lá e eu acho muito importante falar sobre isso, mas é um assunto que renderia uma conversa muito longa por si só. Como já falei bastante sobre isso em outras conversas, recomendo muito ouvir o episódio Estereótipos africanos do podcast Mochileiros sem Pauta e a parte 2 da conversa, que saiu no podcast Roda Mundo. Também vale ouvir os episódios sobre voluntariado na África no podcast Se meu mochilão falasse. O papo também foi dividido em parte 1 e parte 2.

O que você mais gostou em Gana depois de passar mais tempo por lá?

Ia passar seis meses lá, mas acabei ficando 1 ano e 8 meses e explorei muito o país e arredores. Foi o país da África Ocidental onde fiquei mais tempo e por onde tenho um carinho muito grande, por ter criado redes de afeto. Lá, vivi uma grande reconexão com o Brasil e com nossa própria história.

Muito mais que choques culturais, o que tive em Gana foi a percepção de quanto parte da nossa história é intencionalmente apagada, retirada de nós. Isso fica muito evidente quando você se depara com comidas como acarajé, bobó, pé de moleque, paçoca, farofa, biscoito de polvilho, pamonha… São muitos alimentos que tem lá e que comemos aqui no Brasil – não por acaso, é claro.

Como dançarina, o que a viagem pela África Ocidental te trouxe?

Nossa, você tem um dia inteiro para me ouvir responder essa pergunta? Rs. Vou tentar resumir: me trouxe vida!

Os anos em que vivi e viajei pela África Ocidental foram também os anos durante os quais eu me reconectei à dança, à música e às artes de forma geral. Eu dançava desde criança, mas por várias razões não via isso como minha profissão. Cheguei em Gana em 2016 como Engenheira Ambiental e saí de lá quatro anos depois me auto denominando “dançarina e pesquisadora de dança e movimento”. Acho que isso diz muito, né?

Dança e música, para as culturas dessa região, são aspectos fundamentais da vida – e também da morte. Não há bebê que nasça sem haver dança na comunidade e os funerais são verdadeiras festas de celebração à vida!

Certa vez, no Senegal, eu ouvi de uma pessoa que “estando na África Ocidental, todas as vezes em que eu ouvisse tambores sendo tocados eu deveria segui-los”. E foi isso o que esse lugar do mundo me ensinou: a seguir os tambores, a vibrar com os tambores e a celebrar com tambores!

Contei mais sobre meu processo de reconexão com a dança num episódio do podcast Descobre a Mochila.

centro cultural dagbe

Pra onde você viajou na África Ocidental?

Durante o período em que morava em Gana, fui pra Camarões, Togo, São Tomé e Príncipe. Foram viagens muito marcantes, principalmente pra Camarões e São Tomé e Príncipe.

Esse último é composto por duas ilhas, sendo uma São Tomé e a outra Príncipe, e me lembrava muito a Bahia. O país foi colônia portuguesa e entreposto de pessoas escravizadas. Era um lugar onde os portugueses traficavam pessoas e paravam lá antes de virem pra o Brasil. Os fenótipos são parecidos, a alimentação, até o sotaque. A foto abaixo foi tirada em São Tomé.

são tomé, na áfrica ocidental

E Camarões é um país muito cheio de história e coisas místicas, com certeza quero voltar lá. As fotos abaixo são de lá.

camarões - dicas de viagem pela áfrica ocidental

camarões - dicas de viagem pela áfrica ocidental

camarões - dicas de viagem pela áfrica ocidental

carol ussier em camarões

Uma das principais “atrações” é o trekking no Monte Camarões, um vulcão ativo e conhecido por ser pico mais alto da África Ocidental, a 4.095 m de altitude. Há 3 opções de rotas diferentes, passando por crateras de vulcões, floresta e uma espécie de savana. Eu subi até o pico em 3 dias e 2 noites, foi simplesmente incrível! Fui com a empresa Eco Tour Guides Cameroon e o fundador e guia Buma Peter me ajudou com tudo.

carol no monte camarões

Depois disso eu fui de Gana até o Senegal por terra, pegando caronas e transportes coletivos. Passei por Burkina Faso, Costa do Marfim, Libéria, República da Guiné e Gâmbia. E aí acabei voltando pra Gana e fiquei lá mais um período.

Você tem algum país favorito durante suas viagens pela África Ocidental?

Eu não consigo escolher um país entre todos esses, são todos incríveis. Mas as experiências mais marcantes que tive foram na Burkina Faso e na Guiné.

No entanto, preciso ressaltar que não é muito fácil viajar por esses dois países. Eu gosto muito de quebrar os estereótipos dos países, mas acho importante a gente ser responsável. No norte da Burkina Faso tem grupos terroristas e viajar por esse país traz um certo risco. Tem muita parada policial por causa disso, então tem que ser um ou uma viajante um pouco mais experiente. Na Guiné, o problema são as estradas. Eu andava nos transportes coletivos por horas e horas e horas, tinha que esperar muito nas estações e chegava toda empoeirada.

dicas de viagem pela áfrica ocidental

São países que foram muito explorados e tiveram guerras civis recentemente, e passaram pelo surto de Ebola, que os deixou isolados dos outros países.

Gostei muito dos dois pelas belezas naturais, eles têm cenários lindíssimos! Na Burkina Faso tem uma região chamada Sindou, onde me hospedei na associação Djiguiya. É uma associação que promove Turismo de Base Comunitária e investe todo o dinheiro do turismo em desenvolvimento local. Fiquei acampada lá e deu vontade de ficar morando lá por alguns meses.

Nessa região você encontra estruturas geológicas maravilhosas, cachoeiras, ruínas, histórias de povos milenares… Tem ruínas que não são tão conhecidas como as do Peru, por exemplo, porque não tem pesquisa, escavações, investimento em tornar esses locais tão turísticos quanto Machu Picchu.

dicas de viagem pela áfrica ocidental

burkina faso

burkina faso

Na Guiné tem um lugar lindíssimo, uma chapada chamada Fouta Djallon. Tem incontáveis cachoeiras, cânions, piscinas naturais e muitas opções de trilhas e travessias passando por vilarejos, acampamentos de grupos nômades da etnia Fulani e paisagens surreais. A base para visitar Fouta Djallon costuma ser Labé, mas eu recomendo passar pelo menos alguns dias em Doucki, na pousada de Hassan Bah, que é um host incrível! Hassan recebe as pessoas na casa dele, em chalés, incluindo refeições deliciosas feitas pela mulher dele e todo dia ele propõe passeios e trilhas novas que ele leva pra fazer. É uma figura! Se quiser mais informações, você pode consultar a página no Facebook ou ligar pra o +224622457553.

o anfitrião hassan em fouta djallon

Infelizmente, esses são países de mais difícil acesso. Não tem voos diretos do Brasil e não é muito fácil conseguir visto.

Quais países da África Ocidental você acha mais fáceis de visitar?

Eu diria que os países mais acessíveis pra brasileiros na África Ocidental são Cabo Verde e Senegal. Cabo Verde foi colônia portuguesa, então falam português, e tem voos diretos de várias cidades do Brasil. São ilhas lindíssimas, paradisíacas. Ainda não fui, mas já deixo a dica.

E de lá tem voo direto pra Senegal, um país bem mais “ocidentalizado”. Pra quem tem medo do choque cultural, acho que é um país mais fácil de viajar, mas que mantém a magia e o encanto das etnias locais, da cultura tradicional, música, dança, paisagens lindíssimas de praia, de rio, a comida é deliciosa… E tem uma importância histórica muito grande de luta e resistência, grandes intelectuais, poetas. A capital, Dakar, tem um amplo cenário artístico com museus, eventos, concertos, festas, manifestações culturais de rua… Recomendo muito!

senegal

arte em senegal

senegal - dicas de viagem pela áfrica ocidental

O que você recomenda conhecer em uma viagem pra Gana?

Tem um lugar específico de Gana que é uma visita muito triste, mas acho muito importante pra gente saber o que aconteceu no passado. São os fortes de Elmina e de Cape Coast, os maiores fortes usados pelos europeus durante a época do tráfico transatlântico de pessoas africanas. É uma visita pesada, não é agradável, mas acho essencial pra entendermos às custas do quê o nosso país tal foi formado. Eles ficam em vilas vizinhas.

cape coast em gana

Assim como todos os países da África Ocidental, as fronteiras desses países são limites impostos pelos tratados definidos por países da Europa. Em termos culturais, as diferenças não são definidas por esses limites geográficos, mas sim pelas diferenças das etnias. É muito legal viajar por lá porque de uma região pra outra você conhece outras etnias.

Em Gana você pode ir pra Kumasi, que já foi capital de um grande império chamado Ashanti Até hoje a etnia Ashanti é uma das mais influentes em Gana, existem reis e rainhas, palácios e muito história. É muito interessante entender como funciona esse sistema dos “chiefs”, os rituais tradicionais…

Se for mais pra o norte, você vai ter contato com os Gonjas e os Hausas, que são etnias com músicas, arte, culturas muito diferentes. Pra o outro lado, na região do rio Volta, tem a etnia Ewe. É uma região muito famosa até internacionalmente pela música e dança Ewe.

norte de gana

dicas de viagem pela áfrica ocidental

Tem uma imersão muito legal num centro cultural em Dagbe (o Dagbe Cultural Institute e Arts Center). Dá pra ficar hospedado e fazer aula de percussão, dança, fazer passeios na vila, entender como funcionam os rituais tradicionais… E ali também fica a maior cachoeira da África Ocidental, a Wli Waterfall.

É perigoso ou desconfortável viajar por Gana e arredores?

Dá pra fazer uma viagem de luxo por lá, é claro. Tem hotéis 5 estrelas, operadoras que te pegam no aeroporto e levam pra fazer tudo de carro com muito conforto. Tem operadoras de turismo estrangeiras e locais, e inclusive um hotel de luxo relativamente acessível em um parque nacional onde há safari.

Para quem prefere esse tipo de viagem, gosto muito da agência Uprise Travel, que foi fundada por ganeses e hoje em dia opera não só em Gana, como também em Senegal e no Togo (e talvez outros países). Já fiz alguns passeios com o pessoal da agência, quando pessoas de minha família foram me visitar, e confio demais no trabalho deles. Além disso, o Musah Alhassan, fundador da operadora, é um cara muito inspirador!

O estereótipo de que não tem conforto e estrutura na África não é verdade, dá pra fazer com o conforto de uma operadora. Mas não é perigoso viajar sem. São povos muito hospitaleiros, sempre dispostos a ajudar com tudo.

Pra quem estiver planejando viajar pela África, recomendo muito ouvir os dois episódios do podcast Mochileiros sem Pauta em que participei junto com outros viajantes, falando sobre como funcionam os transportes por lá. São os episódios “As loucuras do transporte em terras africanas” parte 1 e parte 2.

E quando passar a pandemia, pretendo voltar a fazer viagens imersivas pra Gana e Senegal. Fiz uma primeira experiência em fevereiro de 2020, sempre em parceria com fornecedores locais de transporte, alimentação, hospedagem, passeios, guias… Pra ser avisada ou avisado quando a próxima viagem acontecer, é só usar a ficha de contato do meu site.

Quais as principais dificuldades de viajar pela África Ocidental?

Senegal, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde têm mais estrutura pra turistas que outros países da região. Não recomendo dirigir nos países da África Ocidental que visitei, nem viajar à noite, porque a estrutura rodoviária é diferente do que estamos acostumados e nesse sentido realmente tem alguns perigos.

Acho que a maior dificuldade de uma viagem pela África Ocidental é conseguir informações. Não significa que não existam, mas elas não estão nas plataformas tradicionais que a gente usa. O guia da Lonely Planet da África Ocidental, por exemplo, é bem pequeno e restrito.

O ideal é entrar nas comunidades do Facebook, como a West Africa Travellers. Nelas e nos grupos de Whatsapp associados a elas, viajantes trocam informação constantemente sobre as situações de vistos e fronteiras e passam dicas de onde ficar.

Normalmente cada um desses países tem várias comunidades no Facebook. Recomendo procurar pelo nome do país junto de termos como backpacker, overlander e traveller.

Também tem duas ferramentas ótimas. A primeira é o aplicativo iOverlander. Ele é muito usado por quem viaja de carro, mas na África Ocidental sempre foi, pra mim, a fonte mais atualizada sobre as situações das fronteiras e onde se hospedar (principalmente onde acampar). Lá você encontra informações atualizadas por viajantes que acabaram de passar pelos lugares.

E outra comunidade que costumava ter muita informação sobre viajantes na África Ocidental era o ThornTree, um fórum ligado à Lonely Planet.

Infelizmente, em todos esses lugares você vai encontrar informações em inglês, porque não tem tantos brasileiros viajando por esses lugares. Mas eu me coloco super a disposição pra ajudar com informações e contatos de pessoas de lá que trabalham na indústria de turismo.

Também indico muito o livro “Destinos invisíveis: uma nova aventura pela África”, do Guilherme Canever (@saiporai no Instagram). Ele viajou muito por lá e o livro funciona quase como um guia básico da região. Ah, e o pessoal do Instagram Favelados Pelo Mundo viajou por lá também.

carol ussier em gana

Como chegar na África Ocidental saindo do Brasil?

Não tem muitos voos diretos, mas Gana, Senegal e Cabo Verde costumam ser boas portas de entrada pra essa região.

É caro viajar pela África Ocidental?

O mais caro de viajar pra África Ocidental realmente é a passagem aérea e os vistos, porque quase todos os países exigem visto pra brasileiros. Atualmente, os países dessa região que não exigem visto são só Senegal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Normalmente são vistos e passagens caras, mas estando lá meus custos eram muito baixos, principalmente buscando ficar em hospedagens de moradores, pequenos alojamentos e acampando.

É muito comum por lá buscar as hospedarias das igrejas, que recebem viajantes gratuitamente ou por um preço muito baixo (o app iOverlander, que já mencionei, é ótimo pra esse tipo de informação).

Comer comida de rua também sai muito em conta. Se quiser comer em restaurante ou ficar em hotéis de donos europeus, o salto é gigantesco. Só pra dar uma ideia: comendo na rua em Gana, eu gastava cerca de R$ 8 em toda minha alimentação de um dia; se fosse num restaurante, gastaria uns R$ 40 numa só refeição.

Alguma reflexão final?

Falar sobre minhas vivências na África Ocidental é sempre uma experiência mista: ao mesmo tempo em que tenho um enorme carinho e admiração pela região, também acho muito difícil resumir tudo o que aquilo verdadeiramente é!

Viajar por uma região do mundo tão cheia de estereótipos e preconceitos pode ser um desafio, realmente. Principalmente na era em que vivemos, quando uma simples busca no Google por “o que fazer em x” costuma retornar milhares de páginas, fotos, vlogs no Youtube e listas de tudo o que é “imperdível” naquele destino, pode realmente parecer impossível conhecer países cujo resultado no Google costuma ser de crianças passando fome e crises de Ebola.

Mas não é porque os influenciadores digitais ainda não descobriram esses destinos, e portanto não existam referências dos “lugares mais instagramáveis” de lá, que não sejam países incríveis.  Você pode não achar uma lista das “10 coisas para fazer em Gana”, mas gosto de pensar que uma lista assim nunca daria conta de incluir todas as experiências, aprendizados, surpresas, paisagens, comidas e pessoas que uma viagem como essa proporciona.

Gana, Senegal e a África Ocidental de forma geral me receberam como um verdadeiro lar e eu desejo que outras pessoas se joguem também nessa aventura maravilhosa que é viajar por lá. Ou, como eu disse em outra pergunta, que mais pessoas possam “seguir os tambores”.

Quer saber mais sobre viagem pela África Ocidental? Entre em contato com Carol Ussier pelo formulário de contato do site dela (que tá desatualizado, mas ainda funciona) ou por e-mail [email protected]. Muito obrigada pela entrevista, Carol!

Crédito das fotos que ilustram o post: Carol Ussier/Acervo pessoal

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