Aprendizado e trabalho

Minha imersão na Finlândia: como foi o Foreign Correspondents’ Programme

Aprendizado e trabalho | 12/09/18 | Atualizado em 22/09/18 | Deixe um comentário

Terra do Papai Noel, da Nokia e dos Angry Birds. País destacado por sua excelência em educação, transparência das instituições públicas e igualdade de gênero. O que eu sabia sobre a Finlândia até pouco tempo atrás se resumia a um punhado de clichês e estatísticas como esses aí.

Mas durante o mês de agosto, tive a chance de ir além dos dados. Durante pouco mais de três semanas, explorei Helsinque e arredores com um olhar diferente do que costumo ter como turista. Fui representar o Brasil na edição 2018 do Foreign Correspondents’ Programme (FCP), evento promovido quase todos os anos desde a década de 90 pelo Ministério de Relações Exteriores da Finlândia.

Junto com outros 15 jornalistas de diversos países das Américas, África e Ásia, participei de uma programação intensa que tinha como objetivo nos apresentar a sociedade finlandesa. E agora chegou a hora de compartilhar essa experiência incrível com vocês. :)

lago na Finlândia

O processo seletivo

Minha história de amor com o FCP começou há cinco anos. Eu morava na Espanha e tava atualizando um post sobre bolsas de estudos pra jornalistas quando me deparei com a convocatória do programa. Dei uma pausa na agonia da dissertação, preenchi o formulário de inscrição, enviei e cruzei os dedos torcendo pra ter a sorte de ser selecionada.

Não tive sorte. A vida continuou, esse blog cresceu e eu passei dos 25 anos, antiga idade limite pra inscrição. Vez ou outra lia algo sobre a Finlândia, lembrava do FCP e pensava em como teria sido legal participar.

Corta pra cinco anos depois. No último mês de março, eu viajava pelo México quando um amigo me mandou o link pra nova convocatória. Abri como quem não quer nada, pensando que já não rolava pra mim, e reparei num detalhe: a idade máxima agora era 29. O que significava que essa era minha última chance de participar.

Cancelei uma saída com amigos e fiquei enfurnada no Airbnb fazendo a inscrição. Respondi às perguntas discursivas e mandei junto com elas meu CV e uma amostra de trabalho.

Não sei foi sorte, mas umas semanas depois, no meio de um passeio por parques nacionais dos EUA, recebi um e-mail chamando pra entrevista – que fiz por telefone, doente e menos preparada do que deveria. Achei que não ia dar certo, pensei que não era pra ser. Mas depois de mais algumas semanas, chegou o e-mail: eu tinha sido selecionada. Yay!

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Nos meses seguintes, li tudo que pude sobre a Finlândia e expliquei várias vezes aos meus amigos que não, eu não tava indo pra Islândia, nem pras Filipinas. Expliquei que meu destino era Helsinque, que além de um personagem da Casa de Papel é a capital desse país lá perto do topo do mundo. E segurei uma ansiedade que não sentia há tempos antes de uma viagem. Mas como foi, na prática, esse babado?

O Foreign Correspondents’ Programme

Como falei lá em cima, a ideia do FCP é apresentar a sociedade finlandesa a jovens jornalistas de diferentes partes do mundo. Os países participantes mudam a cada edição, e me considerei sortuda porque essa tinha uma mistura bem maravilhosa de nacionalidades.

Além do Brasil (presente!), teve gente da China, Colômbia, Egito, Índia, Japão, Quênia, Líbano, México, Nigéria, Peru, Coreia, Singapura, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos. E de áreas bem variadas também: fotógrafos, âncoras de televisão, repórteres de rádio, de jornais impressos, revistas e sites (e eu aqui, blogueirinha, haha).

participantes do programa

Voamos pra Helsinque e passamos quase um mês por lá com praticamente tudo pago, desde as passagens aéreas à acomodação, alimentação e transporte interno. Só tivemos que pagar pelo seguro viagem e por alguns jantares em dias que não tinham programação noturna. E, é claro, por qualquer rolê que quiséssemos fazer antes ou depois do programa ou nos nossos dias livres (que eram poucos).

helsinque

Ficamos hospedados num prédio que serve de alojamento pra pesquisadores das principais universidades da cidade, em quartos duplos com sala e cozinha (e um café da manhã que me fez ganhar 3 kg) e tínhamos três pessoas fofíssimas do Ministério responsáveis por nos levar pra lá e pra cá.

A programação

Mas o que danado a gente fez nessas três semanas, você pergunta? Muito mais coisa do que eu seria capaz de contar nesse post.

Visitamos universidades, saunas (parte importantíssima da cultura finlandesa), escolas públicas, asilos e creches, restaurantes e cafeterias (eles são o povo que mais toma café per capita no mundo), a união de jornalistas, uma agência de notícias, uma destilaria de uísque, um centro de promoção da literatura nacional, uma incubadora de startups e as sedes de empresas icônicas como Marimekko e Iittala.

Almoçamos com ministros e prefeitos, conversamos com empreendedores e brincamos com óculos de realidade virtual que reproduzem a resolução do olho humano. Entrevistamos professoras, enfermeiras, médicas, jornalistas, CEOs e assistentes sociais. Comemos muitas frutinhas recém colhidas e provamos carne de alce, rena e veado. Andamos de bicicleta, de tramway, de ônibus de linha, de ônibus-limusine, de barco e de metrô.

andando de caiaque na finlândia

Tomamos café gelado no press room do Flow Festival, onde realizei meu sonho adolescente de ver um show de Arctic Monkeys (no dia seguinte ao meu aniversário!). Dormimos numa cabana de madeira sem eletricidade e água corrente numa ilha rodeada por um lago deslumbrante, depois de andar de caiaque e canoa pra chegar até lá. Na volta, conhecemos a cidadezinha com o maior número de bandas de Metal per capita no mundo e ficamos amigos do prefeito no Facebook.

Passamos um final de semana com uma família finlandesa e trocamos experiências (positivas e estranhas) pelo Whatsapp. Assamos salsichas na fogueira à beira-mar. Aprendemos sobre a chamada “baby box”, enxoval entregue pelo governo a todas as mães, e sobre o “basic income trial”, experimento que dá uma renda básica às pessoas independentemente da sua situação laboral.

Conhecemos o conceito de “sisu”, que tem a ver com determinação, coragem e força de vontade e é uma das representações da personalidade típica finlandesa, e a expressão “päntsdrunk“, que descreve o hobby de tomar uma cerveja ou um drinque sozinho em casa, de calcinha ou cueca.

evento em helsinque

Fomos pra eventos formais e informais, comemos muitas tortas de mirtilo e ouvimos umas dezenas de vezes sobre a sorte que tivemos de estar lá num dos verões mais quentes da história do país. Descobrimos mais detalhes sobre os baixos índices de corrupção, a ampla liberdade de imprensa e os tantos benefícios que o Estado oferece à população.

Percebemos, é claro, que não se trata de uma sociedade perfeita. Mas ficamos com a impressão de que geralmente eles não tentam esconder seus defeitos – o que me parece ser o mínimo pra uma sociedade avançar.

bicicletas públicas em helsinque

Achei que a programação podia ser um tiquinho mais leve e que a quantidade de informações foi um pouco difícil de absorver devido ao cansaço, mas a organização do programa foi excelente. Fiquei muito impressionada com a pontualidade e a eficiência dos finlandeses e com o cuidado que tiveram com cada detalhe.

Me sinto super privilegiada por ter vivido esse mês tão intenso, numa viagem feita muito mais de pessoas do que de lugares. Tanto os finlandeses (reservados, porém fofos) quanto os outros participantes fizeram toda a diferença ao compartilhar histórias de vida na sauna, nadar no lago sob o pôr do sol mais lindo, buscar respostas pra centenas de perguntas, comparar questões culturais no café da manhã e relembrar, entre outras coisas, a importância da conexão com a natureza e de ter mais “sisu” no dia a dia.

Já morro de saudades da “terra dos mil lagos”, mas tenho certeza de que nunca vou esquecer o que ela me ensinou. :)

andando de bicicleta em hanko, na finlândia

Pra saber mais sobre o Foreign Correspondents’ Programme e sobre a abertura das próximas convocatórias, acesse a fanpage e o blog do programa. E pra conferir tudo que descobri sobre o país, acesse a categoria Finlândia aqui no blog, que vai ficar recheadinha nas próximas semanas.

Crédito da foto em destaque: Nicolás Monteverde

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