Livros

Como é morar na China? Livro desconstrói estereótipos sobre o país

Livros | 05/10/21 | 1 comentário

Como é morar na China? O que esse país tem de interessante? O que se encontra lá além dos estereótipos? O livro “As lições que eu aprendi viajando e morando na China”, da baiana Joana Silva, traz algumas possíveis respostas a essas perguntas a partir das experiências que ela viveu ao viajar, morar e trabalhar no país.

Joana tem 35 anos, é formada em Administração de Empresas com MBA em Psicologia Organizacional e trilhou uma carreira como Executiva em Recursos Humanos em uma multinacional, mas viu sua vida tomar caminhos inesperados depois que decidiu pedir demissão pra estudar fora, em 2015.

A princípio, a ideia era passar seis meses estudando inglês nos Estados Unidos, mas ela resolveu ficar por mais tempo – só que a burocracia atrapalhou. Forçada a rever os planos, ela decidiu partir numa viagem pelo mundo sem passagem de volta, que acabou durando dois anos.

Depois de viver experiências incríveis em dezenas de países e viajar de mochilão pela China por dois meses, Jô resolveu morar em Hangzhou, onde passou um ano trabalhando como professora de inglês. Pega de surpresa pela pandemia durante uma visita ao Brasil, teve que mudar a rota mais uma vez. Ela resolveu, então, escrever um livro para contar como é morar na China e o que aprendeu por lá.

“A China me ensinou a questionar sob qual perspectiva as histórias são narradas, a refletir sobre quem está se beneficiando com as narrativas e a duvidar daquilo que é tido como universal e padrão”, diz. Reflexões super importantes, mesmo pra quem nunca sonhou em visitar o país.

Na entrevista a seguir, ela dá um gostinho das reviravoltas e experiências transformadoras que viveu nos últimos anos.

brasileira compartilha lições que aprendeu viajando e morando na China

Entrevista com Joana Silva, autora do livro “As lições que eu aprendi viajando e morando na China”

Você sempre viajou muito?

Minha família tinha o hábito de viajar de carro pelo interior da Bahia nas férias. Como não tive o privilégio de poder viajar para o exterior e nem de fazer intercâmbio na adolescência como a maioria dos meus amigos, quando adulta coloquei na cabeça que todas as férias viajaria para um país diferente. Tive um noivo que morava na Alemanha, então as primeiras viagens internacionais foram para a Europa, e como tenho uma irmã que mora nos Estados Unidos também viajei outras vezes para lá. E nos feriados sempre dava um jeito de viajar para algum lugar na Bahia ou de visitar amigos em outros estados.

E como surgiu a ideia de sair pelo mundo sem passagem de volta?

Em 2015 pedi demissão para passar uma temporada de seis meses nos Estados Unidos, com o objetivo de fazer uma imersão no inglês para sair do nível básico. No meio do caminho, decidi aplicar para um Mestrado em Recursos Humanos na mesma universidade onde fazia aulas de inglês. De volta ao Brasil, solicitei o visto de estudante americano para continuar os estudos, mas tive a solicitação negada. Como tinha deixado um quarto alugado com as minhas coisas lá, tentei retornar um mês depois, mas minha entrada no país foi negada mesmo com o visto de turista válido.

A essa altura eu já não queria mais voltar a trabalhar no mundo corporativo e também não tinha plano B. Duas semanas depois do ocorrido, recebi uma proposta para trabalhar nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Aceitei de cara e me joguei nessa experiência. Com o fim das Olimpíadas, coloquei a bunda na cadeira para desenhar cenários de possibilidades sobre o que eu iria fazer a partir daí. E nesse processo, surgiu a possibilidade de viajar.

Em 17 de Novembro de 2016, embarquei para o primeiro destino, o Uruguai, apenas com a passagem de ida e sem muitos planos. Poderia ser uma viagem de 4 meses ou de 12 meses, eu pensava. No fim, passei 2 anos viajando pelo mundo.

O que você viveu de mais marcante nesses dois anos?

Visitei mais de 30 países pela América Latina, Ásia, Europa e Oriente Médio. Vivi experiências incríveis como a trilha do Base Camp do Annapurna, a 8º maior montanha do mundo. Tirei o certificado de mergulho PADI e mergulhei em paraísos na Tailândia e nas Filipinas, viajei por terra de norte ao sul em países como Myanmar, Tailândia e Malásia. Conheci Bornéu, a terceira maior ilha do mundo, e visitei Brunei, um país de maioria muçulmana onde pude conviver com uma família local que conheci durante a viagem de ônibus até o país.

Estive na Índia duas vezes para um mochilão “raiz” cruzando os quatro cantos do país de ônibus e de trem, além de ter vivido um romance por lá. Passei um mês morando em uma comunidade afastada de centros urbanos no norte da Ilha Palawan nas Filipinas, localizada em uma das praias mais lindas da região: Nacpan Beach. Me meti em uma expedição de barco pelo arquipélago de El Nido com um grupo de russos que havia construído um barco improvisado em três dias.

Também fiz um mochilão pela China, visitei o Tibete e fui até o Base Camp do Everest. Partindo da China, segui por terra pela rota transiberiana cruzando a Mongólia e chegando até a Rússia para curtir a Copa do Mundo, o que também me rendeu uma viagem de carro por diversas partes do país.

Leia também:
Annapurna Base Camp: tudo sobre a trilha no Nepal
Como é viajar sozinha pela Índia? Dicas e relatos

Como surgiu a possibilidade de morar na China?

Durante o mochilão pela China usei muito o Couchsurfing e me conectei com expatriados e outros estrangeiros que viviam no país. A partir dessas conexões, fui construindo uma rede de contatos que compartilharam informações sobre as possibilidades de morar e trabalhar lá.

joana silva conta como foi morar na China

O que você pensava sobre a China antes de chegar lá?

Vixe, só sabia que eles comiam gatos e cachorros e que eram uns “comunistas miseráveis” (risos).

Quanto tempo você passou lá? Como era sua vida por lá?

Passei dois meses mochilando e um ano morando. Eu tinha uma vida confortável. Morava a 10 minutinhos de caminhada da escola onde trabalhava, folgava na segunda e na terça, não trabalhava mais de 40 horas por semana e estava dedicada aos estudos do mandarim. Morava em Hangzhou, uma cidade com uma infraestrutura sensacional de transporte público, áreas verdes, parques públicos, lagos e montanhas.

O custo de vida era relativamente baixo comparado às capitais brasileiras e a cidade está localizada pertinho de Shanghai, apenas 45 minutos de trem rápido. Eu aproveitava muito bem toda essa infraestrutura, fazia muita coisa de bicicleta e amava pedalar pela cidade.

Sinto saudades das baladas onde tocavam músicas latinas e africanas; a comunidade de brasileiros era relativamente expressiva e por isso rolavam umas festinhas brasileiras também. Penava no inverno frio pra caramba, chuvoso e cinzento, e no verão de sensações térmicas que chegavam a 42ºC.

Quais foram seus principais aprendizados nesse período?

A China me ensinou a questionar sob qual perspectiva as histórias são narradas, a refletir sobre quem está se beneficiando com as narrativas e a duvidar daquilo que é tido como universal e padrão. Me fez perceber, entre outras coisas, que a grandiosidade do mundo está na diversidade dos povos, e que nem tudo que é diferente do que conhecemos é errado ou não existe.

Por que você voltou para o Brasil?

Tinha decidido renovar o contrato de trabalho para mais um ano, e como não vinha ao Brasil há três anos, negociei um recesso de 5 semanas para aproveitar o Natal e Ano Novo no Brasil e emendar com o Ano Novo chinês. Era para eu ter voltado em 28 de Janeiro de 2020, bem na época em que estourou a pandemia por lá. Esse voo foi remarcado, cancelado e remarcado dezenas de vezes até a China definitivamente fechar a fronteira no dia 24 de Março de 2020 e todos os voos que saíam do Brasil serem suspensos.

Pretende voltar para a China um dia?

Sim, até porque as minhas coisas continuam lá. Entretanto, não sei quando e nem em que circunstância isso vai acontecer.

Como surgiu a ideia de escrever sobre a experiência de morar na China?

Eu tinha sido convidada pelos produtores de conteúdo Manoela (@escritoraviajante) e Nicolas (@mochilek) para gravar uma palestra sobre a China para o I Congresso de Viajantes Pretos e Pretas do Brasil. Quando finalizei a palestra, percebi que eu tinha quase um livro (risos).

Ele também surgiu do desejo de partilhar as experiências que contribuíram para trocar a lente por meio da qual eu costumava experimentar a vida; de produzir mais conteúdo em português sobre experiências de viagens pelo continente asiático; e também de ressignificar essa temporada não planejada no Brasil.

Como foi o processo de escrita?

Foram oito meses intensos, integralmente dedicados ao processo de escrita. Nunca tinha escrito algo para publicar e isso mexeu em pontos de vulnerabilidade, de contar histórias pessoais para o mundo ler. Além de ter percebido em vários momentos da escrita os meus vieses de julgamento. É um processo de desconstrução para a vida inteira.

Escrever as histórias me fez reviver emoções e sentimentos, ressignificar muitas coisas que tinham acontecido e perceber que ainda há histórias que necessitam de mais tempo para serem ressignificadas. Escrevi mais de 200 páginas!

Foi desafiador escolher as histórias que ia incluir, afinal, era importante que elas estivessem conectadas com o propósito do livro: desconstruir estereótipos e popularizar conhecimentos sobre a China. “As lições que eu aprendi viajando e morando na China” é um livro que cabe no seu bolso literalmente. Sentada em um rede, no fim de uma tarde de domingo, te levo para uma viagem emocionante e intensa pelo país.

joana silva viajando pela china

Para quem é o livro?

Para todos! Para aqueles que desejam conhecer a China a partir de perspectivas diferentes das quais historicamente o país é apresentado pelas mídias convencionais no ocidente, para quem se interessa por viagens e quer viajar por um país de dimensão continental e cultura milenar sem sair de casa…

Se você nunca considerou visitar o país, o livro pode ser o empurrãozinho que falta para te inspirar a incluir a China no roteiro da sua próxima viagem. É para quem está de malas prontas para o país e/ou tem contato com chineses e deseja se iniciar na cultura e na mentalidade chinesa. E também para quem deseja se lançar no desconhecido, se despir dos preconceitos e ampliar o olhar para o mundo.

Quer saber como é morar na China e viajar por lá? O livro “As lições que eu aprendi viajando e morando na China” está disponível para compra aqui. Aproveite também pra acompanhar Joana Silva no Instagram, no perfil @registrosdajo.

As fotos que ilustram o texto são do arquivo pessoal de Joana Silva e foram cedidas para publicação no Janelas Abertas.

Posts Relacionados

1 Comentário

  1. Uau, quero ir um dia! Muito corajosa, parabéns!!

Deixe o seu comentário