Viagem pra Dentro

Viagens e privilégio branco: precisamos falar sobre isso

Viagem pra Dentro | 16/09/20 | Atualizado em 25/09/20 | Deixe um comentário

Você acredita que “todo mundo pode viajar”, como tem se dito tanto por aí? É verdade que muita gente não viaja porque não prioriza isso, ou desconhece formas de viajar barato. Mas essa gente está dentro de um recorte social bem pequeno em comparação à população brasileira ou mundial. E mesmo entre quem consegue viajar, os obstáculos encontrados no processo são muito diferentes a depender de fatores como classe, gênero e raça.

Já falei aqui sobre por que viajar é privilégio em vários sentidos. Mas volto a tocar no assunto pra abordar mais profundamente um dos tópicos do artigo anterior: viagens e privilégio branco.

Eu tinha começado a escrever este texto há meses e pensei em não publicá-lo por achar que a visão de uma branca não acrescentaria nada relevante ao debate. Tive medo de dizer algo errado e não queria que me interpretassem mal.

Mas depois de participar de um grupo de estudos sobre branquitude e antirracismo organizado pela amiga Carol Ussier com base no livro Me and White Supremacy, de Layla Saad, percebi que por trás de tudo isso tem boas doses de fragilidade branca.

Entendi que é melhor falar, errar e aprender que ignorar temas importantes como privilégio branco e viagens e, assim, contribuir ainda mais pra perpetuação desse sistema racista. Então resolvi deixar meus receios de lado e enfrentar o desconforto, estando aberta a críticas construtivas. :)

Escrevo este texto pensando principalmente em pessoas brancas como eu, que costumam viajar ou pensam em fazê-lo. Se você nunca pensou sobre sua branquitude, seja no dia a dia ou numa viagem, isso significa que, assim como eu, cresceu com a ideia inconsciente de que sua identidade como branco(a) era a norma. Porque é isso que o sistema faz: racializa o que difere do grupo dominante, pra então subjuga-lo.

O que significa privilégio?

Antes de continuar, acho importante explicar o que entendo por privilégio. Sei que muita gente tem problemas com essa palavra, mas acredito que isso tem a ver com uma interpretação equivocada do conceito.

Como observa este ótimo artigo, “Privilégio não é sobre indivíduos sendo pessoas ruins, mas sobre todo um sistema que favorece certos grupos e prejudica outros. Estes sistemas – como classismo, sexismo, supremacia branca etc. – têm apoio estrutural de leis, da mídia e de políticas que afetam nosso dia a dia. A maioria de nós não é ensinada sobre o quanto estes sistemas influenciam o funcionamento do mundo”.

“Ter algum tipo de privilégio não significa que sua vida foi fácil, ou que você não teve que se esforçar. Significa apenas que você não tem que superar os obstáculos que outras pessoas precisam enfrentar”, diz esse outro texto sobre privilégio (em inglês).

Pode ser difícil tomar consciência dos nossos privilégios porque, pra isso, precisamos enxergar os benefícios que recebemos durante a vida simplesmente por ser quem somos. E muitas vezes essas vantagens são sutis pra quem as recebe, mas bem evidentes pra quem está entre os prejudicados.

Vou falar aqui principalmente da questão da negritude, mas vale lembrar que o privilégio branco também oprime outros grupos étnicos, como indígenas, asiáticos etc.

privilégio branco e viagens

Viagens e privilégio branco: o que tem a ver?

Tá, mas o que viagens e privilégio branco têm a ver? Num país como o Brasil, em que a desigualdade racial é marcada por um evidente recorte de raça, as estatísticas já revelam muita coisa.

Por exemplo: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018 o rendimento médio mensal das pessoas ocupadas brancas foi 73,9% superior ao das pretas ou pardas. Os brancos são, na nossa realidade, maioria dentre as pessoas que têm dinheiro disponível pra viajar, ou mesmo a possibilidade de tirar férias, ainda que não sejam “ricos”.

E além da questão financeira, o racismo cria vários outros obstáculos pra que pessoas negras viajem. “Os números em relação a violência doméstica, acesso à educação básica, superior, população carcerária e empregabilidade não nos favorecem. Ainda lutando para existir, é mais difícil alcançar discussões sobre a desmistificação da viagem”, observou a turismóloga Thainá Santos em entrevista pra o blog sobre viajar sendo uma mulher negra.

A falta de representatividade no universo do turismo, tanto nas próprias empresas quanto no marketing, também pode fazer com que pessoas negras não se enxerguem como possíveis viajantes. A criadora do projeto Bitonga Travel, Rebecca Aletheia, já falou aqui no Janelas Abertas sobre esse assunto.

E quem consegue superar todos esses obstáculos e cair na estrada ainda tem grandes riscos de enfrentar preconceito em vários momentos da viagem.

“Em um aeroporto, me questionaram por que eu estava na fila de embarque prioritário, que é mais caro. Respondi que era porque tinha pago. Não precisava de muitas explicações para entender por que aquilo tinha acontecido”, relatou Thainá, ao contar sobre uma viagem que fez pela Europa.

Outro exemplo são os casos de discriminação na aprovação de estadias no Airbnb, que infelizmente não são raros. Esse tipo de situação motivou inclusive a criação da Diáspora Black, empresa brasileira que fomenta o fortalecimento da cultura negra no turismo.

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Viagens e privilégio branco: experiências de viajantes

Eu sou branca, cisgênero, heterossexual, de classe média, magra e não sou portadora de deficiências. É verdade que homens usufruem de muitos privilégios em relação a mim, mas em quase todos os demais aspectos eu me encontro mais perto do topo da pirâmide social em que a maior parte do mundo se baseia.

Por fazer parte de um grupo opressor, mesmo que não concorde com esse sistema, me beneficio dessa opressão em vários momentos da vida. E não perceber esses benefícios é uma das muitas manifestações do privilégio branco.

Meu privilégio branco significa que sempre vi pessoas da minha cor em anúncios de viagens, revistas, blogs e redes sociais e que nunca pensei que haveria algum obstáculo entre mim e as viagens além do dinheiro.

Significa, também, que em aviões, aeroportos, albergues e hotéis na maior parte do mundo, a imensa maioria das pessoas ao meu redor tem a mesma cor de pele que eu, e ninguém pressupõe que não pertenço àquele ambiente.

Ao entrar em outros países, não pensam automaticamente que eu posso ser criminosa ou estar tentando imigrar ilegalmente. Quando estou com pessoas de outros países, minha nacionalidade e traços físicos podem ser vistos como interessantes, mas dificilmente serão encarados como algo esquisito, feio ou inferior.

Antes de planejar uma viagem, não preciso pesquisar se pessoas da minha cor costumam sofrer preconceito naquele lugar. Nunca tive que me preocupar muito com o tipo de roupa que visto (geralmente bem informal) por medo de não ser aceita em um ambiente.

Viajando, já testemunhei diversos episódios em que meu privilégio branco ficou muito evidente em contraste com o tratamento diferente que pessoas não brancas receberam no mesmo lugar. Vivi isso diversas vezes durante mochilões na Europa, por exemplo.

Numa viagem de ônibus entre França e Bélgica, policiais pediram pra ver o conteúdo da mala dos passageiros. Quando chegaram na minha vez, não olharam nada e ficaram satisfeitos com uma resposta negativa à pergunta “você está transportando drogas ou armas?”. Todos os homens negros que viajavam no mesmo ônibus, no entanto, tiveram que desfazer a mala inteira pra inspeção.

Em outra ocasião, num trem de Berlim pra Amsterdam, eu e minha irmã vimos um funcionário caminhar por nosso vagão e só pedir pra checar o passaporte dos únicos passageiros negros ali.

Em outro trem na França, vi uma passageira ficar muito impaciente e fazer comentários racistas porque um rapaz negro tinha sentado no seu assento sem querer e não estava entendendo seu francês. Se o erro tivesse sido meu, uma mulher branca, certamente a reação teria sido diferente.

Como diz esse artigo chamado “O que viajar com nove pessoas de cor me ensinou sobre privilégio branco em viagens” (tradução livre), escrito por uma mulher branca dos Estados Unidos, “como viajantes brancos privilegiados, precisamos reconhecer que nossa habilidade de viajar não é sempre a mesma que a de pessoas de outras raças, e não só por razões econômicas, mas também raciais. Precisamos reconhecer que frequentemente nosso privilégio racial nos permite explorar o mundo de forma segura e confortável. Podemos viajar, em parte, por causa da supremacia branca”.

viajando em um trem na índia

Experiências de outras viajantes brancas

Carol Ussier, mulher branca que organizou o grupo de estudos sobre branquitude que mencionei lá em cima, compartilhou comigo suas reflexões sobre privilégio branco e viagens. Ela morou em Gana e viajou pela África Ocidental durante os últimos anos, além de ter viajado por diferentes países da Europa, América Latina e Sudeste Asiático.

“Pra começar, quando a gente fala de viagem uma das primeiras coisas que me vêm à cabeça é o conforto de saber que não vou ter nenhum visto negado por causa da cor da minha pele. E na sequência tem a questão da imigração: sei que o normal é que eu seja bem recebida nas fronteiras”, observa.

Carol conta que foi privilegiada diversas vezes durante suas viagens por causa da cor da sua pele: “Ninguém nunca desconfiou de mim por causa da minha raça, nunca tiveram medo. Pelo contrário: em países não ocidentais, em várias ocasiões as pessoas me conheciam na rua e ofereciam hospedagem, refeições… Me levavam pra conhecer a família. Não sei se uma pessoa brasileira negra teria a mesma experiência”, diz.

Ela também conta que na África Ocidental, onde é comum se deslocar em transportes compartilhados e frequentemente lotados, era muito comum que lhe oferecessem um assento mais espaçoso e confortável. “Muitas vezes eu aceitei esse tratamento diferenciado, sem nem questionar o porquê. Mas era por ser branca”, completa Carol.

Outro ponto interessante que ela observou foi o fato de saber que, ao viajar pra cidades grandes na maior parte do mundo, pode encontrar facilmente pessoas que se pareçam com ela, seja administrando as hospedagens ou viajando também.

“Eu sempre podia ter certeza de que se quisesse, podia encontrar pessoas brancas, geralmente europeus. E a mesma coisa não acontece pra pessoas negras, asiáticas ou árabes. E fico pensando que isso também traz certo conforto. Não viajo procurando estar entre pessoas parecidas comigo, mas sei que posso encontrar isso, mesmo se estiver numa cultura totalmente diferente”, reflete.

Babi Cady, mulher branca que viajou sozinha pelo mundo por quatro anos e participou do grupo de estudos sobre branquitude comigo, também compartilhou comigo suas percepções sobre viagens e privilégio branco.

“Depois de estudar mais sobre racismo e branquitude, fiquei me questionando sobre algumas experiências que já tive em viagens. Será que teria conseguido viver tudo aquilo se não fosse branca? Penso nas caronas que peguei, que costumava conseguir com facilidade. Ninguém questionava, muito pelo contrário: existia frequentemente uma preocupação com a ‘mulher branca sozinha na estrada’”, conta.

Ela também lembrou de ocasiões em que foi a hotéis 5 estrelas com roupas informais e não recebeu nenhum questionamento por isso, e de fronteiras que atravessou com facilidade. Entre outras situações a que teve acesso por ser branca e conviver entre pessoas brancas e privilegiadas, como o convite pra viajar de graça pela França com um amigo francês que só costuma se relacionar com pessoas dessa mesma “bolha branca” de que costumamos fazer parte.

“Comecei a questionar os espaços que já frequentei, as possibilidades que tive e muitas coisas que consegui na vida. Eu recebia pessoas na minha casa aqui no Rio através do Airbnb e um hóspede do Gabão comentou que muitas vezes não o aceitavam por ser negro, por exemplo”, completou Babi.

O post “Jogo dos privilégios em viagens”, no blog Guia Negro, aborda o assunto de uma forma bem interessante: o autor, Guilherme Dias, listou 10 exemplos de situações que afetam pessoas negras em viagens, pra que pessoas brancas reflitam se isso já aconteceu com elas.

Privilégio branco e conteúdo de viagens

E já que falei em representatividade lá em cima, eu não podia concluir esse texto sem mencionar a branquitude que predomina no universo de produção de conteúdo sobre viagens, de que faço parte. Como já pontuei lá no post sobre por que viajar é privilégio, não encontrei dados sobre isso, mas é evidente que a maioria dos blogueiros e instagrammers de viagem brasileiros são brancos, assim como eu.

Dá só uma olhada nessa foto dos participantes de um evento da Associação Brasileira de Blogs de Viagem de que participei em 2017:

viajar é privilégio

“Enquanto a era digital criou muitas oportunidades no universo online de viagens, pessoas com nossa aparência são rotineiramente excluídas”, observa a blogueira canadense negra Oneika Raymond nesse artigo no seu blog Oneika the Traveller (tradução minha).

A pesquisa “Black Influence: um retrato dos Creators pretos do Brasil“, reforça essa constatação num âmbito brasileiro, apesar de não focar na área de viagens.

Vale a pena conferir os dados do relatório, mas em resumo, as conclusões são que o mercado de influência não trata de maneira equilibrada Creators brancos e não-brancos; Creators pretos recebem cachês menores, mesmo possuindo base e engajamento similares aos brancos; e Creators pretos são menos contratados por marcas para ações publicitárias.

E não só os produtores de conteúdo pretos saem perdendo com isso. Afinal, ter acesso a narrativas de viajantes com perfis mais diversos é muito importante pra todos nós ampliarmos nosso olhar sobre viagens e sobre o mundo.

Como produtora de conteúdo, venho aprendendo a tomar consciência desse cenário e também agir em relação a isso. Ao falar sobre viagens, preciso sempre lembrar que minha realidade é um recorte pequeno da realidade, devido não só a questões pessoais, mas também a influências estruturais como o racismo.

E também venho buscando formas de ter ações concretas no dia a dia. Por exemplo, se for convidada pra um evento ou campanha publicitária em que não houver diversidade, posso questionar a organização sobre o assunto e mesmo negar propostas de empresas que não demonstrem uma preocupação real com o tema. Nos coletivos de que faço parte, posso trazer essa discussão à tona e tentar construir alguma mudança. E assim por diante.

Inclusive, se você tiver outras ideias de formas de agir nesse sentido, me conta aí nos comentários!

A perspectiva de viajantes negros sobre viagens

Obviamente, falo aqui do lugar que me cabe: o de mulher branca de classe média. Mas se você quer pensar mais sobre o assunto, recomendo muitíssimo acompanhar o trabalho de produtores de conteúdo negros. Seja aqueles que militam sobre questões raciais, que compartilham experiências pessoais em relação ao racismo em viagens ou que simplesmente mostram a vida sob um ponto de vista diferente do padrão branco.

É sempre bom lembrar que negros não são obrigados a ser fonte de informações sobre racismo, e como qualquer ser humano têm diversos interesses que vão além da questão racial. Mas caso você esteja procurando uma perspectiva negra sobre viagens, existem fontes super ricas na internet.

A blogueira Oneika, que já mencionei aqui, tem uma seção no blog dela (em inglês) sobre como é viajar sendo negra; a brasileira Paula Augot, colega querida, também tem uma seção assim no seu blog No Mundo da Paula.

Aqui no blog você encontra uma lista com 23 viajantes negros para seguir no Instagram e blogs, e no blog Guia Negro ele indica 40 viajantes negros, além de trazer uma seção inteira sobre Afroturismo e outra sobre Viajantes negros. Guilherme Dias, autor do blog, também escreveu um ótimo artigo com sugestões de ações pra um turismo antirracista.

No blog ViajarVerde, de Ana Duék (viajante branca), tem um post bem legal compilando depoimentos de sete profissionais do turismo negros falando sobre como ter um turismo antirracista. Recomendo seguir o trabalho da galera que aparece lá no artigo.

Também vale muito a pena acompanhar projetos como a Diáspora Black, que já mencionei, e a Bitonga Travel. Em âmbito internacional, a Black Travel Alliance trabalha pra apoiar criadores de conteúdo negros e ampliar a representação deles na indústria do turismo. Tem também a Brafrika, agência de viagens afrocentrada. E é claro que essa listinha tá longe de ser exaustiva; se tiver mais indicações, compartilha aí nos comentários!

mulheres negras viajantes da bitonga travel

Mulheres da Bitonga Travel – Foto enviada por Rebecca Aletheia

O que podemos fazer?

Escrevi esse artigo na esperança de provocar reflexões em pessoas brancas, já que de modo geral raramente debatemos racismo e privilégio branco entre nós. Em vez de fugir do assunto por não ser nosso “lugar de fala”, acredito que precisamos entender que esse é um problema nosso, afinal, fomos nós que criamos o racismo.

Cabe a nós brancos, por exemplo, estudar sobre racismo, valorizar a cultura negra em casa e nas viagens, diversificar nossos círculos sociais e consumo cultural e entender as estruturas de poder que estão por trás do racismo e da colonização cultural europeia e norte-americana que vivemos até hoje.

Além disso, precisamos escutar pessoas negras, nos posicionar ao nos depararmos com atitudes racistas, cobrar atitudes a esse respeito da indústria de turismo e abordar esse tema com frequência entre nossos amigos, familiares e colegas de trabalho.

Sei que ainda tenho muito que aprender e que esse é um trabalho pra vida toda. Mas acredito que começar a identificar meus privilégios brancos e entender o sistema que está por trás deles é um passo fundamental pra tentar atuar contra o racismo. Fingir que viagens e privilégio branco não têm uma forte relação só contribui pra reforçar o problema.

O que você pensa sobre o assunto? Já tinha refletido sobre a relação entre viagens e privilégio branco? Vamos conversar nos comentários e no Instagram @janelasabertas.

Crédito das imagens que ilustram o post: Unsplash – Creative Commons (Direitos de uso liberados)

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