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Como é ser uma viajante negra: relato e reflexões de Thainá

Viajantes | 19/11/18 | Atualizado em 29/11/18 | Deixe um comentário

“A tentativa de externar tudo o que aconteceu é porque eu ainda não acreditava ser possível que tivesse acontecido. Eu, mulher negra e periférica, conheci o mundo – na verdade, uma pequena parte dele”.

Amanhã é o Dia da Consciência Negra, que me parece uma das efemérides mais importantes no Brasil. E pra marcar essa data, que homenageia Zumbi dos Palmares e representa a luta do povo negro, convidei uma viajante negra maravilhosa pra tomar a palavra aqui no blog.

Conheci Thainá Santos (@thaina.ssantos), estudante de turismo na USP, num grupo do Facebook em que ela divulgava uma pesquisa pra elaboração do seu TCC sobre a experiência dos viajantes afro-brasileiros.

Descobri que ela era leitora do blog e pedi pra reproduzir aqui o relato que ela publicou sobre sua experiência saindo do país sozinha pela primeira vez, com pouca grana e muita motivação. Aproveitei, também, pra fazer umas perguntinhas sobre sua experiência como viajante negra.

E a resposta dela já começou com aquela frase entre aspas ali em cima, que acho inspiradora. Muito obrigada, Thainá! A partir daqui, a palavra tá com ela. :)

em Malta

O relato da viagem

71 dias que eu fui, sem avisar ninguém.

Foi melhor assim, porque não queria que outras expectativas, dúvidas e medos além dos que eu já tinha influenciassem a decisão de ir.

Meus pais não fizeram faculdade, não têm formação, e talvez a viagem mais longa dos dois tenha sido da Bahia pra cá (São Paulo).

Nascer mulher, negra e com um núcleo familiar que me apoiou, não me deixou trabalhar na infância e me instruiu como pôde fez de mim quem sou.

“Por que o negro hoje viaja no Brasil? Por uma questão econômica, de uma classe média que está se formando”. Quem falou isso foi Emanoel Araújo, fundador do Museu Afro Brasil, numa reportagem sobre viajantes negros publicada no portal GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra.

Saí na loucura, no medo e na coragem. Como tinha que acontecer, consegui um trampo em Malta (quê? onde fica?), um país entre a Itália e a Tunísia. Morei na segunda maior ilha do arquipélago sem saber me comunicar nem em inglês, nem em maltês (idiomas de Malta). O trabalho? Um local que oferecia aulas de meditação e yoga.

Conheci pessoas que me ajudaram e dificultaram esse rolezão e aprendi com todas. Queria que todo mundo tivesse a oportunidade de ver o que eu vi e conhecer o mundo através dos olhos dessas pessoas.

Não tinha dinheiro pra continuar viajando, mas queria continuar. E aconteceu: em cada lugar conheci uma pessoa que me ofereceu a sua casa pra me hospedar durante essa loucura, que passou por Paris, Barcelona, Madrid e Toledo.

Felizmente, eu conseguia cada lugar desesperadamente antes de ir e não dava tempo de planejar um roteiro turístico (eu mesma, turismóloga). Eu só ia e saía pela cidade com cada anfitrião que me recebeu. Teve aniversário, piquenique, festival de rua, negociações duvidosas, esperar pessoas saírem do hospital, topei de tudo no embalo.

Andei de ônibus, trem, boeing, aviões precários, barco, carona, blablacar e até descalça quando meu chinelo quebrou indo a pé de Popeye Village pra Melieha em Malta.

Além de conseguir me comunicar em mais de uma língua, uma das coisas mais importantes quando decidi ir era observar em que pé estavam as posições sociais da população negra em cada lugar.

Chorei de felicidade e tristeza com mais frequência do que gostaria e imaginava. E surpreendentemente, pelos meus olhos e experiências, Paris me conquistou positivamente nesse sentido (em alguns aspectos).

Fiquei desconfortável muitas vezes, mas não quando era chamada de irmã, ou quando alguém perguntava em francês de qual país do continente africano eu era. Procurei coletivos, organizações e militantes independentes na França pra entender sobre o feminismo negro lá.

Essa é minha tentativa de compartilhar a experiência de como foi (e é) nadar contra uma maré desigual, racista e machista.

Depois de anos estudando turismo, finalmente vi com meus olhos como o turismo está inserido dentro de um espectro mais abrangente da educação cultural/autoestima cultural na prática e pode ser a chave de muitas portas que se abrem, longe de casa.

Pra ficar mais claro: eu escureci.

no marrocos

Negros viajam menos?

A reflexão foi profunda e resolvi envolver o debate na minha vida acadêmica, pesquisando sobre os viajantes afro-brasileiros.

Por que as pessoas negras viajam menos? Existe um leque da perspectiva de resposta e todas se complementam no viés social, político, econômico e sobretudo fundamentado na história de mais de trezentos anos do regime escravocrata no nosso país.

Quando ouço que hoje as mulheres viajam mais, me questiono: de que mulheres estamos falando?

O analfabetismo nacional, de acordo com o PNAD realizado pelo IBGE em 2018, é de 4,2% para brancos e 9,9% para pretos/pardos. No Atlas da Violência (IPEA) em 2017, a mortalidade das mulheres não-negras caiu cerca de 7,4 % em um intervalo de 10 anos, enquanto para as mulheres negras aumentou 22%.

Então quando me pergunto de que mulheres estamos falando, talvez as mulheres negras não estejam dentro do espaço amostral dessa afirmação. Os números em relação a violência doméstica, acesso à educação básica, superior, população carcerária e empregabilidade ainda não nos favorecem.

Ainda lutando para existir, é mais difícil alcançar discussões sobre a desmistificação da viagem. Assim como aprendi com grandes autoras afro-brasileiras que repensam o nosso projeto de sociedade, como Lélia González, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Joice Berth e outras mulheres negras muito potentes, seguimos juntas o debate, atentas a novos ventos que movam a estrutura da nossa sociedade.

viajante negra - a experiência de thainá

Da pesquisa ao embarque

Os primeiros filtros forem essenciais pra estruturar pra onde eu ia, quanto tempo ficar e por onde passar. Queria viajar sem comprometer o semestre letivo da faculdade, queria calor e queria aprender inglês – como eu fui sem saber o básico, qualquer imersão seria lucro.

Entraria pelo país logisticamente mais próximo e mais barato; incluiria um destino principal para trabalhar e por fim, continuar viajando.

Assim surgiram as primeiras certezas: uma viagem com menos de três meses (pensando nos 90 dias permitidos no Espaço Schengen); o país principal seria o arquipélago de Malta, na Europa (pelo idioma e clima); trabalhar em troca de acomodação e alimentação (usei a plataforma Workaway).

O medo, e a vontade de desistir existiram, não vou mentir. Era a primeira vez que eu sairia do Brasil e tinha arquitetado toda essa loucura.

E assim entrei pela cidade de Valência na Espanha e permaneci 3 dias em um hostel. Segui para Malta e trabalhei por 51 dias onde tinha acomodação e parte da alimentação inclusa. Avistando meu aniversário, pesquisei a passagem mais barata e era Paris, por R$ 113.

Paris nunca tinha sido um sonho meu (como a Grécia), mas estava animada, e lá passei 6 noites com uma brasileira em um Couchsurfing. Em seguida voltei pra Espanha, onde pegaria meu voo de volta, mas antes passando por Barcelona, Madri e Toledo, todos em Couchsurfing.

Em Barcelona, fiquei na casa de outra brasileira e nas cidades seguintes com homens. Foi tudo muito tranquilo porque pesquisei muito sobre cada anfitrião.

Em Valência, peguei meu voo, que fazia conexão com mais de 20 horas no Marrocos, onde tive hotel e transporte oferecidos pela companhia aérea.

com a amiga durante a viagem

A experiência como viajante negra

Como foi, no geral, a experiência de ser mulher negra viajante solo?

Como mulher negra, sentia que não era um espaço onde as pessoas esperavam que eu estivesse. Talvez por isso me senti bem em Paris, sendo a França um dos 10 países com maior população negra fora do continente africano.

Você sentiu preconceito?

Eu senti o preconceito no cotidiano dos lugares, mas ele não me atingiu em todos os países, salvo em um dos aeroportos em que me questionaram por que eu estava na fila de embarque prioritário, que é mais caro, e eu respondi “porque eu paguei por ele”. Não precisava de muitas explicações para entender por que aquilo tinha acontecido.

Como foi essa relação de “encontro” com africanos na Europa?

Era uma sensação que ainda não racionalizei. Ao mesmo tempo que me sentia bem, o machismo ainda atravessa minhas relações como mulher, e nesse sentido o assédio como mulher negra existia. Senti isso em Malta, mas não senti na França.

Você viu muitas outras mulheres negras viajando sozinhas?

Vi algumas e tive o privilégio de conhecer duas. Por coincidência a primeira morava na França, mas nasceu em Madagascar. Nos conhecemos na ilha de Comino em Malta. Ela me ensinou músicas, contou da sua infância e foi uma conexão muito sincera e especial.

As fotos e os textos desse post são de autoria de Thainá Santos. Obrigada mais uma vez pela colaboração!

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