Viagem pra Dentro

Tentando explicar o inexplicável que foi Budapeste pra mim

Viagem pra Dentro | 07/01/15 | Atualizado em 15/05/18 | 16 comentários

Tem coisas que são difíceis de explicar com palavras, mas eu gosto de tentar. O que eu sinto por Budapeste é uma delas. Desde o momento em que cheguei lá pela primeira vez, depois de ser aceita pra um programa superlegal que achei de forma meio aleatória pela internet, até o dia em que voltei, tempos depois, sem saber se ia poder ficar, essa cidade provocou em mim um negócio meio estranho, que não senti por Buenos Aires, Sevilha, Lyon ou Valladolid. Foi como um desconforto agradável, que mais de um ano depois ainda não terminei de processar nem deixei de querer sentir de novo.

Cheguei à meia-noite, ganhei da mãe de uma nova amiga um tupperware com comidinhas de festa e subi um elevador muito antigo, com uma mala grande demais e o celular descarregado, sem saber direito qual era meu apartamento e se o meu flatmate italiano tava acordado. O elevador ficou preso por alguns momentos, a campainha do apartamento não funcionava, o prédio parecia meio assustador e no dia seguinte eu tinha que acordar cedo pra ir à imigração, que eu não sabia direito onde era, e ver se ia poder tirar o visto ou se teria que voltar pra Espanha. Até se passarem os primeiros dias, falei pra pouca gente da aventura, porque tudo podia dar errado. Não foi o melhor início do mundo, mas foi uma das vezes em que me senti mais satisfeita por ir atrás do que queria.

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E, pouco a pouco, os momentos que antecipei foram se misturando às descobertas inesperadas. O cheiro dos pães nas estações de metrô, a escada rolante rápida demais em uma delas, os vagões antigos da linha amarela, os fiscais antipáticos. A dificuldade de comunicação, a tentativa de entender a lógica do húngaro, a familiaridade estranha de voltar a viver num lugar com calçadas meio sujas e onde o pessoal não para em todas as faixas de pedestre, o calor que passei na MRG trabalhando a 38 graus sem ar condicionado, a vista da janela do escritório pra uma igreja linda…

Tudo isso fica na lembrança e compõe as memórias do período, mas não é nisso que se materializa o que senti. Ainda assim, continuo refazendo essa colcha de retalhos mental, tentando reconstruir aquele verão. O leve nervosismo que não chegava a provocar ansiedade, a consciência da sorte de estar ali, a incerteza sobre o futuro.

A quantidade de pessoas novas que conheci nos encontros do CouchSurfing e do International Meeting Point, o cansaço que dava às vezes de repetir as mesmas apresentações toda vez e tentar mostrar a um desconhecido quem eu sou e o que penso em poucos minutos, os affairs totalmente diferentes do que já tinha vivido antes, a delícia de descobrir os beer gardens e bares em ruínas (um mais incrível que o outro). Conviver com gente com quem não rolava muita identificação e ser feliz mesmo assim. Minhas amigas húngaras reclamando da desorganização, da desigualdade e do mau humor das pessoas de lá – e eu só pensando em como tudo é questão de perspectiva.

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Fazer a primeira amiga através do blog, que em duas semanas criou lugar cativo no meu coração e foi embora no dia do meu aniversário, depois de um almoço típico com um grupo de pessoas que não se conheciam. O anjo da guarda que surgiu no meu caminho na Espanha, quando eu nem sonhava em visitar seu país natal, e me ajudou desde os primeiros momentos. O dia em que meu avô faleceu e eu me senti flutuando no espaço, presente nem aqui nem lá, e não tinha ninguém pra abraçar – mas tinha, vejam só, dois flatmates pra ir tomar uma cerveja na rua de trás, além de muitas boas vibrações chegando através do oceano.

A mágica que fiz – e até hoje não compreendo – pra trabalhar na MRG, fazer centenas de revisões do freela, cozinhar o almoço de todo dia e ainda assim conseguir sair quase todas as noites. Ter que falar inglês 24h/7 pela primeira vez, depois de muito evitar a língua na França e na Espanha. As duas viagens especiais que consegui fazer no finalzinho, pra uma cidade que nunca esteve nos meus planos e outra que marcou minha vida cinematográfica.

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O tanto que percebi que não sei sobre meu país e o que aprendi sobre países que mal sabia localizar no mapa. A primeira vez em que comi goulash, pato, lángos e túró rudi e tomei pálinka, fröccs e Soproni. A quantidade de informações pessoais, aspirações profissionais, perrengues autoinfligidos e confusões existenciais que compartilhei com uma polonesa em duas semanas de convívio (oversharing and inspiration!). Conversar sobre política, self-service e as coincidências da vida com uma senhora húngara de 50 anos, minha melhor amiga do escritório.

Acordar na minha cama de casal coberta com meu lençol de solteiro, com uma toalha de mesa natalina fazendo as vezes de cortina, o sol na cara e a Estátua da Liberdade lá fora. Pegar duas pequenas doenças ao mesmo tempo, receber um médico português em casa e melhorar. Me acostumar à casa não tão limpa (flatmates homens – clichê), ter que encontrar outro apê e me mudar, ir ao cinema sozinha sem entender o que tava escrito no bilhete, almoçar sozinha num restaurante, ir e voltar sozinha de bares e de um festival incrível numa ilha no meio do rio. Receber visita de uma amiga belga, reencontrar uma amiga inglesa, rever uma amiga brasileira. Fazer passeio de barco, ficar de molho nas termas, lagartear no parque. Chegar sem muitas referências prévias e me apaixonar por uma cidade com todos seus prós e contras, de coração aberto.

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Quanto mais eu olho pra trás, quanto mais o tempo passa, mais percebo como esse breve período foi um turbilhão de emoções. Foi muito diferente de ter uma vida “de verdade”, com rotina e grandes amigos, como em Valladolid. Foi diferente de viver como “turista de longo prazo”, só passeando, estudando e farrando em Lyon. Pela primeira vez, durante um “intercâmbio”, senti que talvez fosse hora de ir pra casa. Mas isso não fez com que fosse fácil ir embora. Nem muito menos com que as lembranças fossem menos doces.

Foi incômodo, foi divertido, foi intenso e por isso mesmo foi marcante. Isso tudo que eu não consigo explicar me impressiona, porque ainda não consigo entender como tanta vida pôde caber em dois meses. O que entendo, sim, é que a vida devia ser sempre um pouco assim. Intensa, divertida e inexplicável.

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16 Comentários

  1. Carina Teixeira

    Luísa, que texto cativante! Viajei contigo através das tuas palavras! Senti precisamente isso na minha primeira viagem em que fiquei 1 mês em Cabo Verde. Naquela altura, também me questionei de como é possível sentir tanta coisa, viver tanta coisa em 30 dias! E demorei muito tempo a arrumar tudo dentro de mim. Foram 30 dias que mudaram a forma de eu encarar a vida e a mim própria.

    • Luísa Ferreira

      Oi, Carina! Obrigada :) Pois é! Já senti que vivi uma vida em um mês quando fui pra Buenos Aires, mas isso foi mais forte ainda dessa vez. Tem viagens que mudam mesmo a gente, né? Passar esses 30 dias em Cabo Verde deve ter sido incrível. Um abraço!

  2. Adorei o post! É uma sensação undescritivel apaixonar-se por um local. Me sinto assim morando em Madrid, depois de todos os perrengues vem a calmaria…

    • Luísa Ferreira

      Que bom que você gostou, Rafaella! :) Não acho que tenha conseguido explicar direito o que senti, porque foi mesmo diferente de todos os outros lugares onde morei. Mas acho que todo mundo que passou por algo parecido entende, né? Um abraço! Ah, e tou trabalhando pra deixar o blog mais responsivo, valeu :)

  3. Só uma observação: Tenho dificuldades em ler seu blog pelo meu cel e pelo meu iPad :(

  4. Thamires

    Apaixonante! Suas palavras me fizeram imaginar como deve ter sido seus dias em Budapeste! Talvez quem estava lá com você não tenha sentido nem a metade de tudo isso…é realmente incrível como a vida pode ser maravilhosa!
    Fascinante o seu relato! Amo este blog!

    • Luísa Ferreira

      Que comentário lindo, Thamires! :)) Muito obrigada!

  5. Maria Teresa Marvila de Oliveira

    Luisa o que eu sinto por Valladolid você postou aqui contando sobre Budapeste, meu Deus 2 anos se passaram desde que voltei e sinto muita mas muita saudade mesmo, estou ficando depressiva por demorar tanto o dia do meu regresso a Valladolid, amei desde o primeiro dia….nem consigo falar mais, porque eu choro!!!!

    • Poxa, Maria Teresa… Tenta se planejar pra voltar pra lá e, enquanto isso, procura fontes de alegria onde você está! Sei que é bem difícil, mas espero que você fique bem :) Um abraço!

  6. Priscilla

    Olha Luisa, to com lágrimas nos olhos lendo esse teu texto hahaha
    Morei 13 meses em Budapeste e revivi cada emoção de ter estado ali pelas tuas palavras. É realmente como tu disseste: “Chegar sem muitas referências prévias e me apaixonar por uma cidade com todos seus prós e contras, de coração aberto.” <3
    Antes de me mudar pra Budapeste eu tinha vivo um ano em Portugal, numa cidadezinha charmosa chamada Aveiro. Voltei pro Brasil e fiquei obcecada com a idéia de voltar pra Europa, e aí surgiu o CsF. Quando eu achei que ia ser fácil voltar para Portugal, o programa eliminou Portugal da lista de países-destino, e fiquei meio perdida sem saber que país escolher, e resolvi selecionar Noruega. Por algum impulso aleatório, no último dia de inscrições eu decidi mudar o país de destino da Noruega para a Hungria, sendo que eu conhecia vários nadas sobre o país, cultura, ensino… Foi realmente muito aleatório. Mas não me arrependo nadinha, acredito que foi a melhor decisão que já tomei na vida! Não consigo por em palavras o meu amor por aquela cidade, por aquele país, por aquelas pessoas. Fui muito feliz em Budapeste, é um sentimento que levo comigo todos os dias e espero ansiosamente poder voltar lá em breve. To me jogando nas candidaturas de bolsas de mestrado na Europa agora, inclusive através do teu blog descobri sobre a bolsa do santander pra Valladolid e já to me vendo morando naquela cidade hahaha Tu vendeste bem demais o peixe daquele lugar! Sucesso viu Luisa, esse teu blog é maravilhoso, continue inspirando pessoas! :)

    • Hahaha que massa, Priscila! Às vezes essas aleatoriedades levam a gente aos melhores caminhos, né? Budapeste nem tava entre as cidades que eu mais queria conhecer na Europa e graças a ela vivi algumas das melhores experiências da minha vida. Bom saber que contigo foi parecido! Queria ter passado mais tempo por lá haha. Falando nisso, já olhasse bolsas de mestrado na CEU? Eu cheguei a conseguir uma parcial pra fazer mestrado em sociologia lá (também voltei da Europa morrendo de vontade de ir pra lá de novo, especialmente pra Budapeste), mas acabei precisando recusar por razões pessoais. Não sei se eles ainda têm o programa de bolsas, mas se tiver algum curso que te interesse vale muito a pena! Boa sorte \o/ Um abraço e obrigada pelo comentário <3

  7. Lori Diniz Gualberto

    gostaria de saber o nome do bairro ou cidade da Hungria, próximo a Budapest, que tem bordados hungaros, roupas tipicas bordadas,?

    • Oi, Lori! Você deve encontrar no mercado municipal, ao lado da ponte verde :)

  8. Fernando Ferreira

    As paixões surgem do nada, não se explicam. Simplesmente acontecem. Conheço grande parte das grandes cidades europeias e gosto, naturalmente, de muitas. Mas gostar é uma coisa, sentir-se apaixonado é outra. E paixão, paixão mesmo, só nutro por duas cidades – Lisboa e Budapeste.

    • Oi, Fernando! É muito pessoal mesmo, né? Coisa de ‘feeling’ e das experiências que vivemos ali :) Um abraço!

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