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Viajar para aprender: conheça o curso de inovação social do Amani Institute

Viajantes | 08/01/19 | Atualizado em 08/04/19 | 2 comentários

Depois de 27 anos vividos em São Paulo, Jessica Comin resolveu trocar o ritmo acelerado da megalópole por uma experiência transformadora do outro lado do mundo. No início de 2018, a designer deixou o emprego em uma grande agência de branding e rumou à Índia pra participar da pós em Social Innovation Management do Amani Institute. Ao concluir o programa, conseguiu um emprego usando suas habilidades em prol de projetos de inovação social, e hoje vive na ponte aérea Quênia-Moçambique.

viagem de trem pela índia

Jessica compartilha uma visão sobre viagens que tem muito a ver com o que quero pra mim e pra o mundo. Ela vê o processo de descobrir outras culturas como forma de aprender sobre si mesma e sobre as problemáticas que nos rodeiam, mais do que simplesmente conhecer lugares bonitos.

Em uma conversa por e-mail, ela me contou sobre suas experiências no incrível programa do Amani Institute, que oferece vivências práticas pra profissionais que desejam ter carreiras com impacto social. E falou, também, sobre seu objetivo de viajar com foco no seu crescimento, e não no turismo. Com a palavra, Jessica. :)

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A pós do Amani Institute: entrevista com Jessica Comin

O que você fez nos primeiros anos de carreira?

Me formei em design gráfico em 2012, pelo Senac. Trabalhei como estagiária em agências de design de embalagem e publicidade por 4 anos, e aí fiz uma especialização em branding e comecei a trabalhar com isso, em uma agência de branding da WPP atendendo a conta global da telefônica, onde fiquei por 5 anos, até o começo de 2018.

Seu trabalho lhe fazia feliz?

Eu gostava do meu trabalho. Gosto de design e de branding, mas já estava muito acomodada e sem aprender ou crescer há algum tempo. Permanecer nesse emprego por tanto tempo acabou se tornando uma estratégia: eu ganhava bem e tinha uma boa autonomia, com bastante tempo livre para focar nos meus próprios projetos.

Fez sentido por um tempo, e eu acabei levando uma vida paralela de empreendedorismo e voluntariado, que me ajudou a continuar na minha zona de conforto. Mas eu sentia que era um trabalho vazio de significado. Eu queria viajar o mundo e queria trabalhar com algo que mudasse o mundo, e fazer uma operadora de celular vender mais planos não fazia mais sentido pra mim.

Como começou sua ligação com questões de inovação social?

Quando eu era mais nova, meus pais se separaram e minhas condições de vida mudaram mas eu continuava em uma escola particular, cara, com amigos que tinham muito dinheiro. E eu achava que era pobre por isso, por não ter as mesmas coisas. Um dia eu fiz um quiz bobo na internet e descobri que era “mais rica que 95% da população”. Foi esse quiz que estourou a minha bolha.

Claro que no início da minha vida profissional eu fui engolida pela pressão social e a idealização do mundo corporativo, mas logo isso passou a não me satisfazer mais. Comecei a viajar sozinha e enxergar o mundo de verdade, voluntariei em algumas organizações, comecei a fazer cursos sobre o setor de impacto social e soube que eu queria trabalhar na área.

E qual é sua história com viagens?

Nunca tinha morado fora antes de ir pra Índia e vim de uma família que não tinha muita grana, então não fazia viagens internacionais, nem nada. Com 25 anos, quando consegui juntar dinheiro pela primeira vez, fiz um mochilão sozinha pela América do Sul. E foi aí que essa minha nova fase começou. Depois disso, fiz muitas viagens sozinha, incluindo um mochilão pela Namíbia e Africa do Sul e uma viagem de ônibus até o Uruguai.

jessica em mochilão

Como surgiu a ideia de se inscrever na pós do Amani Institute?

Quando eu comecei a me interessar pela questão social e pelo comportamento humano eu fui fazer uma pós graduação de SocioPsicologia. Lá eu conheci uma mulher que tinha feito Amani e que trabalhava no escritório de São Paulo. Ela sempre dizia que eu tinha o perfil e que eu devia fazer o curso… Fui dar uma olhada e me interessei, mas achei caro para o meu orçamento.

Daí, quando eu estava na África do Sul, conheci uma mulher (que é minha amiga até hoje) que tinha feito Amani no Quênia, conversamos muito sobre o curso e ela me contou que tinha conseguido uma bolsa. Então a ideia de participar do programa se tornou mais possível. Apliquei para uma bolsa, felizmente consegui, e em um mês já estava na Índia.

jessica no taj mahal

Como funciona esse programa?

É um programa de 9 meses dividido em 3 fases: Foundation Phase (1 mês a distância para nivelar conhecimento e integrar os participantes do curso); Immersion Phase (4 meses presenciais que podem ser feitos na Índia, no Quênia ou no Brasil); Acceleration Phase (4 meses a distância de continuação de projetos, reflexões sobre próximos passos e reinserção no mercado de trabalho).

Na Immersion Phase, o curso é dividido em 2 partes principais com aulas que duram os 4 meses: Social Innovation (onde aprendemos a metodologia da Amani e desenvolvemos um projeto de Inovação Social real seguindo todas as etapas do processo) e Inner Journey (onde passamos por um processo de autoconhecimento e de transformação). Além disso, 2 vezes por mês temos mini-cursos de 3 dias com professores internacionais e temas como Bio-Empathy, Leadership, Fundraising, Measuring Impact, etc.

Durante o programa, também precisamos trabalhar na área. Quem é empreendedor, precisa aplicar os novos conhecimentos na própria organização, e quem não é é colocado em um estágio de acordo com suas expectativas e habilidades.

Por que você escolheu Bangalore pra parte presencial?

Eu não queria fazer no Brasil, porque achei que não fosse gerar o mesmo impacto na minha vida. Na época, eu achei que tinha aplicado pro Quênia, que era o único local disponível. Mas acabou que, naquele semestre, eles tinham acabado de inaugurar a classe da Índia e não fizeram turma no Quênia. Foi assim que fui pra Índia, muito feliz, porque sempre fui muito ligada à toda a filosofia indiana, yoga etc.

jessica na índia

Como lidou com os custos?

O curso custa em torno de 8 mil dólares, mas com a bolsa paguei menos. Juntei dinheiro por bastante tempo para poder me bancar, mas enquanto estava lá continuei pegando freelas de design do brasil e ainda fiz um bico de atriz para ajudar no aluguel.

Meu estágio também me pagava um valor meio simbólico, mas que pagava meu mercado. A Índia também é muito barata e meu estilo de vida é muito tranquilo. Eu não gastava mais de 2 mil reais por mês, com tudo incluído e fazendo viagens aos finais de semana.

jessica comin

Que dicas você daria pra quem quer se inscrever no programa?

Se você está buscando uma transição de carreira para entrar no setor de impacto, se inscreva. Se você está buscando um encontro consigo mesmo e um grupo de apoio para te ajudar no seu próprio processo, se inscreva. Não faça na sua própria cidade. Saia da zona de conforto e abrace esse período. São apenas 4 meses, faça valer a pena. E vá de coração aberto e, principalmente, mente aberta. Uma mente condicionada entra em modo defensivo e é inimiga da mudança e da evolução.

Quais eram os perfis dos outros participantes?

Tinha de tudo. Uma classe com pessoas de 24 a 40 anos, mas a maioria na casa dos 30. Grande parte estava em fase de transição de carreira e querendo sair do mundo corporativo, e uma parte menor já trabalhava no setor social e tinha empreendimentos próprios. Backgrounds muito diferentes, de advogado a professora de yoga. Na minha turma foram 22 fellows, de 12 países diferentes (Índia, Brasil, Peru, China, Estados Unidos, Argentina, Colômbia, Paraguai, Congo, Ruanda, Iraque, Jordânia).

O que você achou do programa do Amani Institute?

Eu acho que o programa é muito o que você faz ele ser. Eu realmente levei a ideia de imersão a sério, estagiei em 2 lugares ao mesmo tempo e me dediquei muito mesmo a todo o processo. Pra mim, foi transformador. Mas a melhor parte da Amani é, sem dúvida, a comunidade. Eu sinto que tenho uma família em todo lugar do mundo.

É um programa muito intenso, de muita troca e muita vivência em conjunto, com pessoas de lugares muito diferentes. Cada lugar que eu vou hoje eu posto uma mensagem na nossa plataforma e sempre tem algum fellow por lá, que logo se disponibiliza para me mostrar a cidade ou me dá um sofazinho pra dormir.

Me identifico rapidamente com todo fellow que conheço. É um grupo lindo de pessoas incríveis que têm um sonho em comum e trabalham pra fazer um mundo melhor. Foi justamente por meio dessa rede que acabei conseguido um emprego no Quênia depois do programa.

viagem de trem pela índia

Como foi a experiência de morar na Índia?

Eu gostei tanto da Índia que, depois do curso, ainda fiquei mais 4 meses por lá. Viajei bastante, pelo país todo, e ainda fiquei 1 mês em um ashram em Rishikesh em uma formação para virar instrutora de yoga. Às vezes brinco que vivi um relacionamento abusivo com a Índia. Às vezes ela te trata mal, você quer desistir e fugir, mas aí, no dia seguinte, ela é linda e doce e te mostra o porque você quis estar ali. quando você vê, você está presa naquela imensidão de pessoas, cores e sabores e não imagina mais outra forma de viver.

Sinto falta todo dia de lá, mas reconheço que não é pra todo mundo, não. E é especialmente difícil para as mulheres. Pra quem tem vontade de ir, mas está precisando de um pouco mais de coragem, vale começar pelo sul da Índia, que é muito mais fácil de digerir e de se acostumar aos poucos com a cultura. Há muitas Índias além daquela da novela, e tem uma Índia pra todo mundo.

O que você foi fazer em Moçambique?

Eu tive uma formação muito interdisciplinar e nunca soube como juntar todas as minhas experiências em uma carreira, apesar de sempre ter conseguido enxergar tudo de forma complementar: design gráfico, branding, sociopsicologia, design thinking, inovação social, cool hunting, futurismo, etc.

A Amani me fez enxergar uma carreira em que tudo isso fazia sentido e me apresentou à ThinkPlace, uma consultoria de design que trabalha com human-centered design para criar um futuro melhor e solucionar problemas sociais.

Uma fellow trabalhava no escritório deles do Quênia e me indicou para uma vaga em um projeto que iam fazer em Moçambique. Apliquei, passei pelo processo seletivo e me chamaram. Isso foi em setembro de 2018.

Desde então, tenho ficado na ponte aérea Quênia-Moçambique e já trabalhei em dois projetos: uma pesquisa de fatores comportamentais da má nutrição infantil e outro de desenvolvimento de um programa de planejamento familiar para adolescentes.

depois do curso do amani institute, jessica foi trabalhar na áfrica

depois do curso do amani institute, jessica foi trabalhar na áfrica

depois do curso do amani institute, jessica foi trabalhar na áfrica

Onde você está agora? Quais são os próximos passos?

Nesse momento estou escrevendo pra você do sofá da minha melhor amiga, em Lisboa. Vim aqui passar o Natal e o Ano Novo, porque às vezes essa vida que escolhi pra mim pode ser muito solitária. senti falta de estar com alguém que me conhecia antes de tudo isso e também de ficar parada em um lugar por mais tempo, curtindo coisas bobas como fazer um jantar e ver Netflix.

Depois volto para Moçambique, onde estou em um projeto até o fim de fevereiro, e, depois disso ainda não sei. A ThinkPlace quer me contratar para outros projetos, mas ando pensando em voltar pra Asia. Não sei, gosto de deixar as coisas em aberto e dizer sim para novas oportunidades. Vamos ver o que o futuro me guarda.

Você acha que sua forma de viajar esse ano foi diferente das suas experiências anteriores? Como?

Sim, muuuito diferente. Eu criei vários hábitos novos. Por exemplo, mantenho um diário e escrevo newsletters para amigos e familiares todo mês, como uma forma de me forçar a escrever e refletir sobre o que estou vivendo para que nada se perca em meio a paisagens bonitas e perca seu significado de resignificação (haha).

Além disso, falo com absolutamente todo mundo. Nunca fui boa de networking, mas agora adoro trocar experiências com todos. E algumas pessoas com uma história de vida incrível eu peço para entrevistar. Isso acaba fazendo com que eu aprenda desde reiki, até a fazer um prato típico da Itália ou jogar um jogo famoso no Vietnã.

Também comecei a dizer sim pra tudo e já fiz 3 trabalhos “voluntários” para pessoas que encontrei na estrada, seja a identidade visual de uma colombiana que quer escalar o Everest a uma estratégia de comunicação de uma banda de Nairóbi. Isso me ajuda muito a fazer meu trabalho e minha experiência cada vez mais multi-cultural.

Essa decisão também coloca um norte nas escolhas que eu tomo. Por exemplo, eu tinha uma passagem comprada pra Bali quando consegui esse emprego no Quênia. Chateei uma amiga que ia se encontrar comigo, mas optei pelo trabalho e não pelo turismo, como prometi pra mim mesma que faria. Walk your talk, né?

depois do curso do amani institute, jessica foi trabalhar na áfrica

Quais foram seus principais aprendizados nesse processo?

Que difícil. Hahahaha. Algumas pessoas me perguntam se eu mudei muito esse ano. Eu digo que não sei. É muito fácil se sentir transformada, iluminada, ou qualquer palavra da moda, quando se está na estrada, longe da sua vida tradicional. Um dos medos que tenho é voltar pra São Paulo e ser sugada de volta pra minha vida antiga, mesmas pessoas, mesmos lugares, mesmos empregos e perceber que, no fim, nada disso fez diferença.

Mas hoje, eu acho que aprendi a me respeitar e viver menos de acordo com a opinião dos outros. Aprendi a dizer não. mas também aprendi a dizer sim para coisas que me tiram da minha zona de conforto. Aprendi a ser feliz sozinha. A me colocar no lugar do outro e julgar menos. Aprendi que todo mundo tem razão, mas também aprendi que ser feliz é mais importante que ter razão.

Aprendi que não preciso ter uma opinião pra tudo. A escutar mais do que falar. Aprendi quem são meus amigos de verdade. e, principalmente, que tá tudo bem se afastar de pessoas que despertam o pior de você.

jessica na índia

E o que foi mais difícil?

A solidão pega, viu? Tem muita coisa difícil. são muitas despedidas. Muitos lugares novos. Muitas coisas diferentes o tempo todo, que deixam o corpo e a mente exaustos. Teve uma vez que fiquei 3 dias sem sair do quarto do hostel só pedindo comida delivery porque tudo que eu queria era ficar sem fazer nada por um tempo hahahah.

Faz falta estar com pessoas que te conhecem bem. Faz falta a comida da mãe. Faz falta a segurança de ter pra onde voltar. Faz falta ter mais do que 9kg de roupas. Faz falta ter uma casa, suas coisas, sua geladeira, seu travesseiro.

Quando se está sempre na estrada fica difícil se relacionar com alguém, fica difícil se aprofundar em qualquer coisa, mesmo em uma amizade. E foram muitas as vezes que eu sofri e tive que dar tchau para pessoas especiais. Mas a vantagem dessa vida é saber que, cedo ou tarde, os caminhos se cruzam e nada, nada mesmo, é eterno.

Nesse momento da minha vida, essa escolha faz sentido. E enquanto tudo isso que faz falta for menor do que tudo que faz sorrir, sigo aqui.

Acompanhe as viagens de Jessica Comin no Instagram e no Vimeo. Pra saber mais sobre o curso de Social Innovation Management do Amani Institute, que costuma abrir duas turmas por ano, acesse o site do instituto.

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2 Comentários

  1. Esse texto me deu uma esperança tão grande no mundo… Tenho pensado cada dia mais em de alguma forma contribuir e trabalhar na África, mas, como te acompanho, Luísa, aprendi que é preciso muita pesquisa para fazer da forma correta. Eu amei descobrir o perfil da Jéssica e ver o estilo de vida dela. Parabéns mesmo, é de uma coragem sem tamanho e de uma grandiosidade imensa. Tô acompanhando de perto nas redes sociais agora. Obrigada por nos apresentar a ela!

    • Ah, que linda! :) Adorei o comentário <3 Também fiquei muito feliz por esbarrar com Jessica nesse mundo online. E ela tem feito alguns comentários sobre quanto tá questionando suas próprias noções sobre trabalho no terceiro setor em países "menos desenvolvidos" que o nosso e tal... Acho que vão vir boas reflexões por aí. Vamos aprendendo todas juntas! :)

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