Viagem pra Dentro

Sororidade e viagens: como ajudar outras mulheres a viajar sozinhas

Viagem pra Dentro | 19/10/18 | Atualizado em 03/11/18 | Deixe um comentário

Mulheres brasileiras viajam menos que homens. É o que aponta a Secretaria de Aviação Civil do Ministério de Transportes: de acordo com eles, somos 43,6% dos passageiros de voos no país. Elas também têm menos planos de viagem, de acordo com a última Sondagem do Consumidor do Ministério do Turismo: só 27,3% das entrevistadas disseram ter intenção de viajar nos meses seguintes, contra 35,3% dos homens.

As razões pra isso estão, é claro, ligadas a questões estruturais da nossa sociedade. Mas eu e você podemos ajudar mulheres a viajar mais, e sozinhas. Vamos falar sobre isso?

Por que mulheres viajam menos

Uma pesquisa do buscador de passagens aéreas Voopter feita em março deste ano com mais de 5 mil mulheres (em que 45,8% nunca viajou só) aponta algumas possíveis razões pra essa desigualdade de gênero nos voos.

De acordo com as respostas, o principal empecilho pra viajar mais é a falta de dinheiro, seguido da falta de tempo e do medo.

A falta de dinheiro pode ser uma realidade pra ambos os gêneros, mas vale ressaltar que no caso das mulheres é agravada pelas diferenças salariais – de acordo com o IBGE, ainda recebemos 23,5% menos que os homens.

Já o tempo escasso tem a ver, também, com a jornada dupla de muitas mulheres, que acumulam funções no mercado de trabalho com atividades domésticas e cuidados com filhos e idosos em casa.

Já o terceiro motivo, o medo, foi objeto de uma pergunta específica na pesquisa da Voopter. Os medos mais mencionados pelas participantes foram o fato de ser mulher (45,7%), a falta de confiança na segurança pública do destino (29,7%), o fato de não saber outras línguas (21,9%) e a falta de contatos locais (14,8%).

Outros componentes, como preconceito racial e discriminação pela orientação sexual, também agravam a situação de muitas mulheres. Os gráficos detalhados tão aqui.

Não vamos conseguir mudar a sociedade da noite pra o dia. Mas enquanto isso, quem disse que devemos ficar em casa? E quem disse que não podemos ajudar umas às outras a lidar com esses entraves?

mulher viajando sozinha

Como ajudar mulheres a viajar sozinhas

Sororidade: “união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum”. Apesar de ainda não estar registrado em nossos dicionários, esse conceito tem sido muito falado ultimamente (ainda bem!).

Ele tem a ver com empatia, irmandade e solidariedade. Com apoiarmos umas às outras pra conquistarmos juntas a igualdade a que temos direito.

E é claro que nessa história, as viagens não podiam ficar de fora. Nossa liberdade de ir e vir e de descobrir o mundo não pode ser podada pelo fato de sermos mulheres.

Juntas somos mais fortes, e podemos contribuir pra que cada vez mais mulheres descubram o mundo por conta própria e se conheçam melhor. O resultado, pra usar outra palavrinha da moda maravilhosa, é empoderador.

Mas como fazer isso? Sugiro seis atitudes que podem fazer a diferença pra ajudar outras mulheres a viajar mais, com qualidade e segurança. Vamos a elas:

1. Dar apoio moral

Muita mulher desiste de viajar só, ou nem chega a cogitar a possibilidade, por ouvir de seus companheiros, amigos ou familiares que isso é perigoso, inapropriado ou qualquer outro julgamento limitador. Outras sofrem mais com obstáculos internos, dizendo a si mesmas que não são capazes ou que o mundo é muito assustador.

Entra aí a empatia: precisamos incentivar e apoiar os sonhos e planos de mulheres que queiram viajar. Você vive num contexto diferente e viaja sozinha sem problemas? Massa! Ainda assim, é importante entender e acolher outras mulheres que tenham dificuldade pra superar certas barreiras.

Vale escutar os medos e desabafos, contar sobre como você superou suas próprias apreensões e noias, se disponibilizar pra conversar pelo Whatsapp em eventuais momentos de solidão.

Também vale compartilhar histórias de viagem como inspiração (suas ou de outras mulheres) ou simplesmente falar: “se joga, amiga”. Às vezes a gente só precisa de um empurrãozinho pra acreditar em nós mesmas.

2. Evitar julgamentos

Isso vale, também, pra quem escolher caminhos que pareçam “fora do padrão”. Viajar e deixar os filhos sob os cuidados de outras pessoas por um tempo, viajar sozinha com filhos pequenos a tiracolo, viajar de carona. Fazer couchsurfing, ir encontrar um paquera estrangeiro ou mesmo abrir mão do combo “casa + marido + filhos” e viver de forma nômade, sem endereço certo.

Já vi muitas mulheres serem alvo de julgamentos, inclusive de outras mulheres, por escolhas como essas. Tudo bem se você não tem coragem ou interesse de adotar as mesmas atitudes, mas isso não te dá o direito de criticar o comportamento da coleguinha.

E se o que te motiva é uma preocupação genuína por uma pessoa próxima, vale avaliar os riscos reais junto com ela e ajudar a diminui-los se eles realmente existirem. Que tal pedir a placa da pessoa que der carona pra sua amiga e combinar de procurar ajuda caso ela não mande notícias de tanto em tanto tempo?

Pense bem: se fosse um homem fazendo a mesma coisa, você julgaria? E o que você ganha opinando sobre a vida de outra pessoa?

mulher pedindo carona

3. Colaborar pra que a viagem seja possível

Acredito que o empecilho mais fácil de “atacar” através da união com outras mulheres é o medo. Mas isso não quer dizer que a gente não possa fazer nada sobre os dois problemas mais citados na pesquisa do Voopter: falta de dinheiro e de tempo.

Se uma mulher do seu convívio não tem tempo pra si mesma, não tem com quem deixar os filhos no final de semana, tá precisando de uma grana extra pra tirar férias, tá num emprego que a escraviza… Que tal tentar ajudar?

Algumas ideias: se oferecer pra ficar com as crianças por uns dias, fazer uma cotinha com outras amigas e dar uma viagem de presente, ajudar a conseguir um freela/bico pra dar um incremento na renda, emprestar uma casa de praia, se oferecer pra resolver as burocracias da viagem pra ela, indicar pra vagas de emprego interessantes…

Cada uma de nós pode usar o que tá a nosso alcance pra ajudar as migas a curtirem a vida, recarregarem baterias ou mesmo caírem no mundo sem data pra voltar. Quanto maiores forem nossos privilégios, mais chances de ajudar.

4. Oferecer dicas

Informação é poder! Pra quem não tá acostumada a viajar, o processo todo pode parecer complicado ou intimidador. E mesmo quem já tem experiência em viagens pode ficar insegura ao ir pra um destino específico que não conhece bem, especialmente se não tiver tempo de fazer pesquisas aprofundadas.

Se você entende de viagens ou é uma expert no lugar que ela quer visitar, por que não ajudar? Seja porque já viajou pra lá antes ou porque é moradora, se você tem dicas e conselhos pra oferecer a amigas, conhecidas ou desconhecidas, coloque-se à disposição.

Valem desde dicas de segurança (que regiões da cidade evitar, como se comportar naquele país de cultura diferente etc.) e de roteiro (qual o melhor itinerário, quantos dias ficar em cada lugar, o que fazer por lá) a outras informações práticas, como funcionamento de transporte público, melhores bairros pra se hospedar, o que levar na mala…

Às vezes bastam alguns minutos de conversa pra esclarecer várias dúvidas e ajudar mulheres a viajar. Sua experiência pode fazer toda a diferença pra que outra viajante se sinta mais segura e não caia em roubadas. E a sensação de ter ajudado é das mais gratificantes da vida, te juro!

mulher viajando sozinha

5. Fazer companhia

Tem um tempinho livre? Que tal entrar em contato com uma viajante que vai visitar sua cidade e se oferecer pra leva-la pra passear, ou se encontrar pra tomar um café? Além da chance de fazer uma nova amiga, você pode ajudá-la a se sentir acolhida num lugar onde não conhece ninguém.

Talvez aquela viajante sonhe em conhecer a vida noturna da cidade onde você mora, mas não tenha coragem de sair sozinha pra balada. Talvez ela esteja num momento pessoal complicado e esteja sem ânimo pra passear sozinha. Talvez não fale o idioma local e esteja com dificuldades pra curtir a viagem.

Pra encontrar mulheres que estejam de passagem por onde você mora, você pode usar recursos online como os que vou mencionar mais adiante. E também pode, é claro, se mostrar disponível através do bom e velho boca a boca, e receber amigas de amigos.

6. Ajudar em casos de necessidade

Sempre esperamos que o pior não aconteça, mas infelizmente nós mulheres corremos mais riscos em qualquer lugar do mundo. A maior parte dos casos de violência de gênero acontece dentro de casa, mas sozinhas num lugar estrangeiro ficamos vulneráveis a certas situações e podemos não ter com quem contar.

Vez ou outra, são denunciados casos de assédio em viagens, e muitas vezes as empresas envolvidas não tomam atitudes contundentes pra evita-los ou resolvê-los, como observa esse texto do Finanças Femininas.

Por isso, é muito importante cuidarmos umas das outras. Viu uma mulher sozinha passando mal, sendo assediada ou sendo vítima de algum golpe ou esquema? Ofereça ajuda, interceda, não finja que não viu.

Vários relatos demonstram que quando uma mulher é vítima de assédio num ônibus, por exemplo, e reage sozinha, é mais difícil o resto dos passageiros acreditarem nela e agirem pra protegê-la do que se outras mulheres se juntarem a ela e mostrarem indignação.

Coloque-se no lugar da outra mulher, mostre que você está do lado dela e tome medidas práticas quando necessário, como levá-la até uma delegacia, hospital ou simplesmente um lugar mais seguro. Vamos juntas, cuidando umas das outras.

como ajudar mulheres a viajar mais

Recursos pra mulheres que viajam sozinhas

As trocas pessoais são o que existe de mais rico, mas a internet é maravilhosa pra nos conectar e ajudar a conseguir apoio. Especialmente em se tratando de viagens, já que nem sempre conhecemos alguém que more naquela cidade a milhares de quilômetros da nossa.

Entre outros recursos online, recomendo participar de grupos do Facebook voltados pra mulheres viajantes. Alguns exemplos são o Mulheres que viajam sozinhas, o Viajante Solo e o Mochileiras e Mulheres Viajantes. E principalmente o Couchsurfing das Mina, que tem uma pegada mais feminista e serve tanto pra encontrar hospedagem na casa de outras mulheres pelo mundo quanto pra trocar dicas e conselhos de viagem.

Enquanto escrevia esse post, encontrei o Woman Trip, um site brasileiro que se propõe a criar uma rede de mulheres viajantes. O app Vamo Comigo também parece bem legal: ele conecta mulheres que estão indo ou querem ir pra o mesmo lugar, na mesma data e com os mesmos interesses.

Recentemente conheci a fundadora do SisterWave, que é basicamente um AirBnb só pra mulheres. A plataforma foi idealizada em uma Startup Weekend Women e ainda não tá em pleno funcionamento, mas já dá pra se cadastrar. E descobri também que o BlaBlaCar, site de caronas remuneradas, tem uma funcionalidade que permite anunciar e buscar caronas só entre mulheres: o Só Para Elas.

Também vale recorrer ao bom e velho Couchsurfing, usando o site ou o aplicativo. Principalmente a função “hangouts”, que serve pra contactar pessoas que estejam no mesmo lugar que você, sejam elas viajantes ou moradoras. Tem muito homem usando o app pra paquerar, mas você pode falar só com as mulheres se quiser evitar isso. Já fiz boas amizades assim!

Nosso percurso pela vida pode ser cheio de pedras, mas se andarmos de mãos dadas conseguimos achar um caminho lindo através delas. Você tem outras dicas pra ajudar mulheres a viajar mais? Conta aí nos comentários!

Contrate seu seguro viagem com desconto
Pesquise e reserve hotéis com os melhores preços no Booking
Alugue um carro nas melhores locadoras com a Rentcars e pague em até 12x
Procure a casa de câmbio com a melhor cotação da sua cidade 

Quando você usa esses links, o blog ganha uma pequena comissão pra se manter vivo e você não paga nada a mais por isso. <3 Saiba mais sobre as políticas de monetização do Janelas Abertas clicando aqui.

Pra conferir muito mais conteúdo sobre viagens todos os dias, siga o Janelas Abertas no Facebook, no Instagram e no Youtube. Espero você lá! :)

Posts Relacionados

0 Comentários

Deixe o seu comentário