Bósnia

Guerra da Bósnia: livros e museu retratam a infância durante o conflito

Bósnia | 19/12/17 | Atualizado em 27/12/17 | 2 comentários

“Eu me sinto como uma nadadora que foi obrigada a entrar na água fria contra sua vontade. Me sinto chocada, triste e assustada e me pergunto aonde eles estão me forçando a ir. Me pergunto por que tiraram de mim as margens tranquilas e encantadoras da minha infância”. O desabafo de Zlata Filipovic, feito no livro O Diário de Zlata, ecoou na minha mente enquanto eu caminhava por Sarajevo, onde ela morou. E me acompanhou, também, quando visitei o War Childhood Museum, que reúne objetos e depoimentos pessoais de jovens que cresceram durante a Guerra da Bósnia.

Ocorrido entre 1992 e 1995, o conflito na Bósnia e Herzegovina foi considerado o mais prolongado e violento da Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial. A Guerra da Bósnia envolveu os três grupos étnicos e religiosos da região: os sérvios cristãos ortodoxos, os croatas católicos romanos e os bósnios muçulmanos. E, em pouco mais de três anos, deixou centenas de milhares de vítimas.

Tanto o livro quanto o museu nos permitem ter uma perspectiva desse período histórico diferente do que vimos nas aulas de história e nos jornais. Os sobreviventes guardam infinitas lembranças de medo e luto, e conhecer suas histórias contribui pra que não percamos a dimensão humana desse conflito e de tantos outros que acontecem mundo afora enquanto você lê esse texto.

O Diário de Zlata

Zlata era uma menina feliz de classe média. Aos 10 anos, ela amava a escola, os amigos, música pop e moda, e costumava viajar com a família nas férias. Mas quando a guerra chega a Sarajevo, a rotina da família é forçada a mudar completamente. Atiradores se posicionam nas colinas por trás da casa, amigos morrem ao caminhar pelas ruas, água e eletricidade viram artigos raros, as escolas são fechadas e a inocência da infância é roubada dela e tantas outras crianças.

Tendo lido o Diário de Anne Frank, ao qual a menina judia se referia como Kitty, Zlata resolve batizar seu diário de Mimmy. E, disciplinada, vai contando pra Mimmy vários fatos do dia a dia. Fala, por exemplo, sobre quando a família precisa colocar um plástico no chão pra tomar banho com água que precisam ir buscar a pé em outra parte da cidade. E conta também quando uma das professoras da escola improvisada descobre que a menina mantinha um diário e envia uma cópia pra publicação, atraindo a atenção da mídia e provocando o lançamento de O Diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra.

kindle com livro diário de zlata

Enquanto muitos dos problemas se repetem dia após dia, uma sensação de monotonia angustiante vai tomando conta de quem lê e tenta se imaginar preso numa casa, vendo sua querida cidade ser destruída, se acostumando a tiroteios e explosões, vendo a morte se tornar recorrente e percebendo que a paz ainda estava longe.

Com a simplicidade da infância, Zlata fala sobre como os destinos das pessoas frequentemente dependem de jogos políticos, pouco ou nada relacionados aos verdadeiros interesses da população. “Parece-me que esses políticos estão falando de sérvios, croatas e muçulmanos. Mas todos eles são pessoas. São todos iguais. Todos têm braços, pernas e cabeças, caminham e conversam, mas agora há ‘algo’ que quer torná-los diferentes”, lamenta.

O livro foi divulgado como “a Anne Frank da Bósnia”, e sempre se ressalta que no caso dessa protagonista a história teve um “final feliz”. Mas quantas outras crianças e adolescentes não tiveram a mesma sorte, durante a Guerra da Bósnia e tantas outras? Quantos traumas esses jovens carregam até hoje? No final do seu diário, Zlata faz uma simples pergunta que resume a cruel insensatez de qualquer guerra: “Por quê?”.

Se você se interessa pelo assunto, leia também o post que escrevi sobre o livro Vozes Roubadas: Diários de Guerra, organizado por Zlata pra compilar trechos de diários escritos de crianças e adolescentes durante guerras em diversos países e períodos históricos.

War Childhood Museum

Se você não tiver lido o Diário de Zlata antes de visitar Sarajevo, ou quiser ampliar essa experiência, recomendo a visita ao War Childhood Museum (Museu da Infância em Guerra). Inaugurado este ano, o museu teve sua primeira semente plantada em 2010, quando Jasminko Halilovic – ele mesmo uma “criança da guerra”, nascido em 1988 – começou a compilar, pela internet, relatos de contemporâneos que também tinham crescido durante o conflito.

Os mais de mil depoimentos recebidos viraram um livro, publicado em 2013, mas o projeto foi além: Jasminko passou a receber desses e de outros jovens vários objetos ligados a memórias da infância em guerra, além de gravar algumas dezenas de relatos orais. Tudo isso virou uma exposição temporária e, mais recentemente, ganhou um espaço permanente no centro histórico da capital.

livro sobre a infância na guerra da bósnia

livro sobre a infância na guerra da bósnia

museu da infância em guerra

O projeto me chamou a atenção por ter sido criado por alguém da minha idade, e foi impossível não me colocar no lugar de quem dava os depoimentos. Apesar de pequeno, o espaço merece ser visitado. Nele, uma TV transmite vários relatos, uma projeção com trechos no livro toma conta de uma parede e uma série de brinquedos, fotos, roupas e outros objetos ficam expostos, junto com a história por trás de cada um.

Entre os itens, roupas feitas no improviso porque as atuais já não cabiam, livros que precisavam ser queimados pra aquecer a casa ou cozinhar, um ursinho que pertencia ao irmão que morreu… Fragmentos de histórias que se misturam a relatos como o de Mela, nascida em 1984: “Colecionar estilhaços de balas em vez de figurinhas, rezar pra Deus à noite pra minha família sobreviver ao dia seguinte. Essa foi minha infância”.

recordação de infância na guerra da bósnia

museu sobre a infância na guerra da bósnia

museu sobre a infância na guerra da bósnia

Achei que o lugar podia ter sido melhor explorado e que a coleção exibida podia ser um pouco maior, mas não deixa de ser emocionante, especialmente pra quem tem pouco contato com essa perspectiva sobre o conflito. Algumas das histórias são supertristes e outras mais leves, mas ainda assim cheias de significado. Achei massa que nessas últimas, menos “pesadas”, eles colocaram pequenas escadas pra que crianças possam ver o item exposto, acompanhadas de placas com os dizeres “peça a um adulto pra ler essa história pra você”.

museu sobre a infância na guerra da bósnia

Afinal, o aspecto educativo é um dos pontos centrais do projeto. Atualmente, os criadores do museu estão colecionando mais objetos e depoimentos, e pretendem ir além da Bósnia, documentando histórias similares em outros países. “Nossa meta para a próxima década é criar a maior coleção do mundo dedicada à experiência de crescer durante uma guerra”, diz o site.

Você já foi no museu, leu um dos livros ou tem algo a compartilhar sobre a Guerra da Bósnia? Conta aí nos comentários.

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2 Comentários

  1. Roberto de Campos Modesto

    Infelizmente os donos do poder acabam com as vidas das pessoas por pura ganância de poder político ou econômico.

    • É bem isso mesmo, Roberto! E o tempo passa e as coisas não mudam, né? O ser humano é um bicho complicado :(

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