México

Tour fotográfico na Cidade do México e uma conversa sobre fotografia de rua

México | 31/05/18 | Atualizado em 19/06/18 | Deixe um comentário

“Callegrafía”: o que as ruas escrevem. O nome desse projeto fotográfico foi a primeira coisa que me chamou a atenção quando descobri o trabalho do fotojornalista americano Keith Dannemiller. Há 30 anos ele chama de lar a Cidade do México, e há uns dois anos promove tours fotográficos pela capital. Seu foco é, justamente, a vida que se escreve pelas ruas. Em especial no vibrante centro da cidade, que vai muito além dos pontos turísticos que aparecem nos guias.

E quanta vida, viu? Como boa metrópole, a Cidade do México transborda movimento. Mas não se trata de um corre-corre frio e impessoal. Muito pelo contrário, aliás. O que me cativou nesse canto do mundo foi, coincidentemente, o mesmo que fez Keith decidir morar ali depois de muitas visitas a trabalho: a atmosfera acolhedora que vem, como não podia deixar de ser, das pessoas.

“É uma cidade grande, mas é muito diferente de Nova Iorque, Los Angeles, Londres ou Paris. As pessoas puxam assunto na rua, são amigáveis. Não é que todo mundo vá te dar ‘oi’ o dia inteiro, mas existe uma atmosfera simpática. É como se as pessoas pensassem: ‘a gente tem que se dar bem, porque somos muitos, então vamos fazer isso de um jeito amigável’, em vez de ficarem competindo por espaço”, opina o fotógrafo.

tour fotográfico pela cidade do méxico

Outro fator, acrescenta, lhe conquistou por ali: “Como fotógrafo, adoro a energia e o movimento nas ruas. Você vê prédios construídos nos anos 1600 e 1700 e pessoas em frente a eles fazendo as mais diversas atividades cotidianas, modernas. O contraste é interessante. Acho a cidade também um pouco surrealista, vez ou outra encontro umas cenas bem inusitadas. Ela oferece narrativas visuais muito ricas”, completa Keith.

Achei interessante saber que a ideia de transmitir essa paixão pelas ruas da capital mexicana aos turistas não partiu dele. Depois de quase três décadas vivendo as ruas da Cidade do México e documentando-as pra diferentes jornais estrangeiros, Keith recebeu um pedido inesperado: “um cara de NY estava em San Miguel de Allende, no norte do México, e viu meus trabalhos online. Ele me abordou dizendo que ia vir pra capital e queria que eu o acompanhasse pra tirar fotos no centro. Ele veio, gostou e trouxe depois um grupo de amigos. Acabei montando um roteiro e uma página no meu site e deu certo. A resposta tem sido muito positiva”, explica.

Sobre fotografia de rua

Além de andar pra lá e pra cá, Keith aproveitou pra me explicar alguns conceitos de fotografia e trocar umas ideias sobre fotografia de rua, ou seja, a arte de capturar pessoas em momentos espontâneos do seu dia a dia. Esse tipo de imagem pode deixar os registros de uma viagem muito mais interessantes, né? São fotos que absorvem um pouco do que é, de fato, a vida naquele lugar, indo além das cenas típicas de cartões postais.

Por outro lado, acho muito mais difícil tirar boas fotos de momentos espontâneos do que de um monumento lindão ou uma paisagem deslumbrante. Muitas vezes é preciso, por exemplo, ter paciência pra esperar até algum elemento aparecer e tornar a cena mais interessante – tipo aquele mural colorido ou aquela escadaria monumental que são bonitos por si sós, mas podem ficar muito mais legais com uma pessoa compondo a foto.

Na minha conversa com Keith, falamos sobre a importância de ter sempre a câmera na mão, pronta pra disparar, pra conseguir capturar momentos espontâneos. Quem nunca ficou com raiva de si mesmo porque perdeu um superclique por não ter tempo de pegar a câmera ou o celular na bolsa?

Outro ponto essencial é sorrir, conversar com as pessoas e não se esconder. “Se você é um fotógrafo de rua, tem que se aproximar dos seus objetos, não pode ser furtivo. A ideia que tento passar é a de mergulhar no ambiente, interagir com as pessoas. Normalmente não penso duas vezes: se vejo algo interessante, vou e disparo. Mas é claro que existem limites éticos, como não fotografar crianças se os pais não quiserem”, observa Keith.

É importante lembrar que os “objetos” fotografados são, afinal, sujeitos. Se tratam de seres humanos, e não meros personagens pra ilustrar suas recordações de viagem. Em ambientes públicos, tá todo mundo, na prática, suscetível a ser fotografado, mas é preciso sensibilidade pra não ser desrespeitoso. A linha às vezes é fina, né? Mas simpatia ajuda. Nem que seja depois do clique: vale a pena sorrir, se apresentar e checar se o fotografado tá OK com aquilo.

Caso o idioma seja um empecilho, sinais gestuais costumam ser suficientes pra passar a mensagem. Já tive que sacudir a câmera, dar um sorrisinho e fazer um sinal de “legal” com cara interrogativa pra me comunicar, mas consegui me fazer entender. Você tem experiências boas ou ruins com isso? Conta aí nos comentários!

Segundo Keith, dentre as milhares de fotos que já tirou de estranhos nas ruas, são muito raros os casos em que as pessoas tenham pedido pra apagar o registro depois que ele mostrou a foto e explicou por que tinha fotografado a cena. “Normalmente, mesmo quando a pessoa se mostra incomodada a princípio, acaba mudando de ideia quando converso”, conta o fotógrafo, que muitas vezes imprime as fotos que faz e volta aos lugares por onde passou pra entregá-las aos fotografados. Quando estamos de passagem, isso costuma ser inviável, mas pra quem fotografa no lugar onde mora é uma gentileza que custa pouco.

Tour pelo Centro da Cidade do México

Depois do papo num café no centro da cidade, saí com Keith pra ele me mostrar, na prática, do que estava falando. Fiz uma mini versão do tour, andando pelo centro comercial da Cidade do México, e apesar de não ter caprichado tanto nas fotos, curti muito o passeio.

Keith conhece aquilo ali como a palma da mão e me guiou por várias ruas que não têm, a princípio, muitos atrativos. Mas têm vida de sobra: lojas de todo tipo, mercadinhos, bares, barracas de comida, restaurantes familiares. E muita gente. Gente indo ao trabalho, gente fazendo comida, gente vendendo bugigangas, gente jogando na loteria, gente bebendo às 11h, gente fazendo fila nas taquerías…

passeios na cidade do méxico

centro da cidade do méxico

Passamos por ruas mais obviamente fotogênicas e cheias de grafiti, como a Calle Regina, e outras dedicadas ao comércio. Assim como no centro de outras cidades, você encontra por lá diferentes áreas divididas por “temas”: tem a rua dos eletrônicos, a dos vestidos de festa, a das coisas pra casa… E muitos lugares baratos pra comer, desde chicharrón (pele de porco frita) a uns PFs de respeito.

calle regina

fotografia na cidade do méxico

graffiti na cidade do méxico

Fizemos também uma parada estratégica (uma das minhas partes preferidas do passeio) na Pulquería los Duelistas, onde provei meu primeiro pulque (por apenas 10 pesos, ou R$ 1,80). O pulque, uma bebida alcoólica asteca feita a partir do suco fermentado do agave, costumava ser considerada “coisa de pobre” (conceito reforçado pelas indústrias de outras bebidas, como cerveja). Mas recentemente ela se popularizou entre as outras classes, numa espécie de “renascimento” de costumes tradicionais. A bebida é meio leitosa e eu achei que não ia curtir, mas até que me surpreendi positivamente.

Talvez, confesso, tenha sido influenciada pelo ambiente. Afinal, a Los Duelistas é das pulquerías mais interessantes da cidade, em funcionamento há mais de 100 anos. Lá você encontra pinturas meio psicodélicas nas paredes e no teto, uma jukebox fornecendo uma trilha sonora bem variada e um tantão de gente tomando jarras inteiras de pulque, seja o tradicional ou com sabores (sempre tem uns cinco disponíveis, incluindo aveia e goiaba).

Achei especialmente interessante ver uma galera pedindo a bebida pra levar e saindo de boas pelas ruas com seu copo de isopor e canudo, como se fosse um inocente milkshake. :P Ah, e olha Keith aí embaixo.

pulquería

Keith Dannemiller

pulquería na cidade do méxico

Outro lugar que provavelmente não estaria no meu roteiro foi um prédio abandonado ocupado pelo pessoal do Movimiento de Unificación y Lucha Triqui (MULT). Como me explicou Keith, o movimento busca assegurar os direitos e a unificação do Pueblo Triqui, originário do estado de Oaxaca.

Num edifício antigo no centrão da CDMX, eles se reúnem, se mobilizam e vendem peças de roupa e acessórios produzidos artesanalmente, como forma de garantir a renda da comunidade. É um dos muitos exemplos da luta dos diversos povos indígenas mexicanos, que envolve a defesa do território, dos recursos naturais e dos seus idiomas e a melhora das condições de vida, entre outras reivindicações.

movimento de unificação e luta triqui

mult cidade do méxico

tour fotográfico pela cidade do méxico

Saiba mais sobre os tours fotográficos

“Eu adoro fazer os tours porque posso conhecer pessoas, mostrar a elas uma cidade que adoro e falar sobre fotografia”, explica Keith. Entre os clientes, ele recebe desde gente que acabou de ganhar uma câmera e não sabe usá-la ainda (e então recebe uma breve aula) até profissionais que querem trocar experiências e receber dicas sobre a cidade. “Muita gente também me procura por não sentir segurança pra caminhar pela Cidade do México com uma câmera. A mídia fala sobre o México como um lugar perigoso, mas não se pode generalizar. Como conheço a cidade, sei aonde podemos ir e aonde não podemos ir”, acrescenta.

foto por Keith Dannemiller

foto por Keith Dannemiller

“O tipo de pessoa que recebo mais comumente é quem sabe usar a câmera em automático e tira fotos boas. Tento mostrar outras possibilidades, como o que você pode fazer ao escolher prioridade de abertura ou prioridade do obturador, por exemplo, em vez de usar o modo totalmente manual”, acrescenta. Achei massa que ele entra em contato com os participantes dos tours antecipadamente pra pedir que mostrem a eles algumas fotos que já fizeram, e assim orientá-los de acordo com cada estilo.

Além do centro da cidade, Keith também oferece outros “módulos” por diferentes partes da cidade, como o bairro Roma e a Basílica de Guadalupe. A basílica, importantíssima pra população católica de lá, fica especialmente interessante aos domingos, quando costuma receber muitos peregrinos.

Pra quem quer fazer o tour num sábado, ele recomenda começar pelo Parque de la Ciudadela, onde casais se reúnem pra dançar um ritmo chamado de Danzón, típico de Cuba. “É muito interessante de ver e de fotografar. Tem uma orquestra, os casais vão vestidos a caráter. Os homens são chamados de pachucos e as mulheres de rumberas. Os pachucos usam roupas super chamativas e coloridas, gravata, correntes e um chapéu tipo fedora, com pluma… E as mulheres costumam usar uma saia longa ou bem justinha e curta, e muitas joias”, descreve.

foto por Keith Dannemiller

Outros cantinhos bem fotografáveis que podem ser visitados nos tours são o Mercado de Jamaica, onde se vendem principalmente flores, e o Mercado de La Merced, o maior da cidade.

foto por Keith Dannemiller

Vale ressaltar que o foco dos passeios é a fotografia de rua, então quem participa não deve esperar encontrar um guia de turismo, ou um passeio focado em prédios bonitos. “Não vamos ficar indo de um ponto turístico para o outro. o que acontece entre eles, enquanto caminhamos, é o que importa”, finaliza.

As fotos que ilustram esse post são minhas e foram feitas durante o passeio, com exceção das últimas quatro e da que aparece no topo do post, que pertencem a Keith Dannemiller e foram cedidas pra publicação aqui.

Os passeios duram quatro horas e são feitos em inglês ou espanhol. Pra mais informações, acesse o site de Keith Dannemiller.

A blogueira fez uma entrevista com Keith seguida por uma versão reduzida do tour a convite do fotógrafo durante uma viagem pelo México em março de 2018. As opiniões expressas aqui são pessoais. O Janelas Abertas preza pela transparência e sempre sinaliza eventuais parcerias. Saiba mais sobre as políticas do blog.

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