Amazonas

Festival de Parintins: História, dicas e impressões de quem ama a festa

Considerado o maior espetáculo folclórico a céu aberto do mundo, o Festival Folclórico de Parintins é desconhecido de muitos brasileiros, mas atrai todos os anos cerca de 700 mil turistas para uma pequena ilha no rio Amazonas.

Tudo acontece em torno de uma disputa entre dois bois: Caprichoso e Garantido. Se você não conhece bem a festa, talvez isso pareça um pouco curioso. Mas basta assistir a alguns minutos das apresentações para perceber que estamos falando de algo muito maior do que uma simples competição.

Durante três noites, os bois se apresentam diante de milhares de espectadores no Bumbódromo, mais ou menos como o sambódromo das escolas de samba. Cada boi conta histórias por meio de alegorias gigantes, coreografias, personagens tradicionais e músicas conhecidas como toadas. Embora exista um vencedor ao final da disputa, o que mais chama a atenção é a força cultural da festa e o envolvimento da população local.

Afinal, a rivalidade entre os dois bois faz parte da identidade de Parintins. As cores azul (do Caprichoso) e vermelha (do Garantido) estão por toda parte. Os moradores costumam ter uma ligação afetiva muito forte com um dos lados, e a preparação para o festival mobiliza artistas, músicos, artesãos, costureiras, dançarinos e inúmeras outras pessoas durante o ano inteiro.

O festival é também uma celebração da Amazônia. Nas apresentações, aparecem elementos inspirados em lendas, paisagens e tradições da região. Ao longo das décadas, as referências aos povos indígenas e à diversidade cultural amazônica ganharam cada vez mais espaço, tornando-se uma das características mais marcantes do espetáculo.

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A história do Festival de Parintins

De acordo com o vídeo abaixo, do Canal History Brasil, os bois são cultuados por várias culturas historicamente. No Brasil, as brincadeiras de boi existem em diferentes regiões desde o século 18, com influências católicas e de religiões de matriz africana.

Além dos bois de rua e de terreiro, dois tipos mais antigos de brincadeira, em Parintins surgiu um terceiro tipo, o boi de arena. Por lá, essa tradição ganhou características próprias e se transformou em um espetáculo grandioso que reúne música, dança, teatro e artes visuais.

“A história do festival começou em 1913, quando os bumbás brincavam fazendo pequenas apresentações nas ruas de Parintins. O primeiro festival de fato aconteceu em 1965”, diz o vídeo a seguir, da TV A Crítica. Em 1988 foi construído o Bumbódromo de Parintins, local dedicado às apresentações, com capacidade para 25 mil pessoas.

Durante três dias, os bois são avaliados por jurados especializados em áreas como dança, teatro, artes, história e antropologia. A pontuação leva em conta 21 itens distribuídos em três categorias: musical, coreográfica e artística.

Com é o Festival de Parintins? Relatos de quem frequenta a festa

Mas como é viver o Festival de Parintins na prática? Como ainda não tive essa experiência, conversei com dois casais de viajantes que são apaixonados pela celebração.

Elka Albuquerque e Luis Queiros, ambos com 37 anos, são os criadores do projeto Do Norte ao Norte e adotaram um estilo de vida nômade em 2016. Desde então, já viajaram pela América Latina de carro, depois exploraram o continente em um motorhome e, mais recentemente, passaram a percorrer diferentes regiões do mundo de mochila. Luis, que é de Manaus, participou do festival pela primeira vez em 2000, enquanto Elka, recifense, conheceu a festa em 2005. Desde então, já voltaram diversas vezes.

Também conversei com Di Lima, de 37 anos, e Felipe Cuer, de 38, criadores do Pangeia Trips. Naturais de Nova Odessa e Americana, no interior de São Paulo, eles viajaram por todos os estados brasileiros a bordo de uma kombi adaptada como casa, conhecendo algumas das manifestações culturais mais marcantes do país. Acompanhados por Luis e Elka, eles conheceram o Festival de Parintins em 2024 e repetiram a dose em 2025.

Você pode acompanhar o trabalho deles nos perfis do Instagram @donorteaonorte e @pangeiatrips e também no site Do Norte ao Norte. Todas as fotos que ilustram este artigo são de autoria deles e foram cedidas para publicação no Janelas Abertas.

A seguir, os quatro viajantes compartilham suas impressões e dicas sobre uma das manifestações culturais mais fascinantes do Brasil.

O que faz o Festival de Parintins despertar tanta paixão? Conheça a origem da festa e leia relatos e dicas de frequentadores.

O que mais chamou a atenção de vocês quando foram ao Festival de Parintins pela primeira vez?

Elka: A grandiosidade das alegorias. Eu não conhecia absolutamente nada sobre o Festival, tinha apenas 16 anos e fui porque meus pais estavam indo com os amigos. Consegui entrar no Bumbódromo e fiquei encantada com a torcida do Garantido, aquela paixão toda, e claro, com as alegorias, que eram tão gigantescas que pareciam chegar pertinho da gente. A montagem das alegorias também me impressionou demais!

Luis: Na minha primeira vez eu ainda era criança, mas cresci com meus tios e primos brincando de boi desde cedo. A minha família é bem dividida entre Garantido e Caprichoso, mas desde a primeira vez que fui, foi o Garantido que me pegou de primeira.

Felipe: A dimensão do evento. As alegorias, tudo muito grande, colorido, muita luz. E também a qualidade musical, o talento dos músicos e dos profissionais que tocam ao vivo durante o evento.

Di: Ver como aquilo é uma paixão que move as pessoas a irem pra ilha – mesmo quem não entra no Bumbódromo. A apresentação só acontece durante três noites, e cada boi se apresenta por cerca de duas horas e meia. Mas a ilha recebe um número gigantesco de turistas que não têm ingresso e nem vão conseguir entrar na parte que é gratuita. Mesmo assim, eles estão ali pelo que o Festival de Parintins representa na vida deles. Isso me deixou emocionada.

Quantas vezes vocês já foram? O que faz vocês voltarem?

Luis e Elka: Luis já foi 5 vezes e Elka 4 vezes. Parintins tem o apelido de “Iha da Magia” e não é à toa. Tem alguma coisa ali naquele lugar que te atrai de uma forma bem difícil de explicar. Tem muita arte, cultura e festa em todo canto. O festival em si é só a cereja do bolo pra tudo o que acontece ali na ilha. Outro ponto que vale a pena ressaltar é a hospitalidade do povo Parintinense, que te recebe sempre de braços abertos.

Di e Fê: A gente foi pela primeira vez em 2024. Saímos de lá achando que não voltaríamos por causa do alto custo da viagem, mas voltamos no ano seguinte, e voltaríamos todos os anos sem dúvida. É incrível experimentar essa cultura tão forte. É muito animado, e além do festival tem toda a atmosfera de estar numa ilha na beira do rio Amazonas.

pangeia trips

Como vocês explicariam o que o festival tem de diferente de outros eventos culturais brasileiros?

Luis e Elka: É até difícil de explicar! Nada do que a gente fale ou mostre em vídeos ou fotos consegue traduzir o que a gente vê e sente de verdade ali. As alegorias, a história, a força das toadas, a apresentação, a torcida… tudo, tudo, tudo é diferente de qualquer outro evento cultural no Brasil. Só estando lá mesmo pra sentir tudo isso.

Fê e Di: A gente sempre mostra imagens, porque falando as pessoas não têm noção da magnitude do que acontece lá. Parintins é o maior festival folclórico do mundo, e ele honra muito os povos indígenas e de matriz africana, a história dos povos que habitaram essa região e habitam ainda hoje, e mantêm essa cultura viva.

Eu acho difícil o festival não emocionar mesmo quem estiver desavisado, mas se você aprender sobre a cultura da festa antes de ir, melhor. Para a gente foi muito natural, porque enquanto viajávamos pelo Brasil fomos convivendo com toda essa cultura através do contato com o pessoal do Do Norte ao Norte. A gente sempre ouvia, dançava e cantava as toadas antes de ir. Quando chegamos lá, fomos arrebatados por tudo que acontece na ilha durante esses dias. A gente tenta explicar, mas só sentindo na pele.

Mas vale ressaltar que em diferentes partes da região tem manifestações culturais incríveis ao longo do ano inteiro. Tem o Sairé em Alter do Chão (Pará), o Festival do Peixe Boi em Novo Airão (Amazonas), que é como uma “mini Parintins”.

Por que vocês torcem para o Garantido?

Elka: Como contei, fui pela primeira vez em 2005 e consegui ficar na galera do Garantido. Até então, eu não tinha escolhido um boi pra torcer, mas acho que aquilo ficou guardado em algum lugar da minha memória afetiva.

Quando voltei, em 2023, fui totalmente aberta para o boi me escolher. Como eu tinha ficado muito tempo longe das festas de boi, ainda não sabia para quem torcer. Então fui bem “bivina” mesmo (como chamam quem torce para os dois bois). Assisti a apresentação do lado do Caprichoso, cantei as toadas, depois fui assistir igualmente do lado do Garantido. E fiz isso nas três noites.

Mas, já na segunda noite, eu senti uma torcida enlouquecida do lado do Garantido, uma coisa que eu não senti do outro lado. Na terceira noite, eu estava exausta, já nem aguentava ficar em pé direito. E mesmo assim, vi a torcida torcer enlouquecidamente pelo Garantido na última noite.

Aquilo me deixou encantada. Ver como a torcida levantava o boi, que naquela época não estava passando por uma situação muito boa. Todo mundo meio sem esperança, mas ainda assim estavam lá, gritando todas as toadas até duas horas da manhã.

No dia da apuração, todo mundo sabia que não existia muita possibilidade de ganhar aquele ano, porque o Caprichoso simplesmente estava impecável. Mas, mesmo assim, a torcida estava lá. E quando dei por mim, eu estava torcendo pelos pontos do Garantido. Naquele momento eu entendi: o boi tinha me escolhido de verdade.

do norte ao norte

Como é a rivalidade entre os bois?

Luis e Elka: É uma rivalidade saudável. Nada comparado à rivalidade violenta que existe entre torcidas de times de futebol. Apesar da cidade ser dividida ao meio (quem vive em uma região torce pelo Garantido e em outra parte da cidade, pelo Caprichoso), durante o festival todo mundo anda junto e misturado, sem problema nenhum. Todo mundo, ou a grande maioria, tá ali pra brincar de boi.

Qual é o momento preferido de vocês nas apresentações na arena?

Elka: A contagem do boi Garantido (quando abre oficialmente a apresentação da noite) e o item 4: Ritual Indígena.

Luis: Os rituais. Esse geralmente é o ponto principal das apresentações, pois tem as maiores alegorias de cada noite e é um momento bem tenso, pois tudo tem que se encaixar perfeitamente.

boi garantido

O que acontece em Parintins fora das apresentações no Bumbódromo que um visitante não deveria perder?

Luis e Elka: Visitar o turistódromo e comprar muito artesanato indígena e sair parando de bar em bar que estiver tocando uma boa toada.

Como chegar a Parintins saindo de Manaus?

Luis e Elka: Existem três formas: avião (cerca de 1h), lancha rápida (cerca de 10h) e barco ou ferry (de 18h a 24h).

Quando os ingressos costumam começar a ser vendidos?

Luis e Elka: Nunca tem uma data exata. Desde o ano retrasado é vendido em Dezembro. A partir da data da venda do ingresso já é bom ir se planejando. Ou seja, 6 meses antes da festa.

Qual a média de preço de ingressos, hospedagem e transporte?

Luis e Elka: É bem absurda! Os ingressos dependem do setor, mas o passaporte para as 3 noites na arquibancada especial, este ano, custou R$1.980.

Hospedagem tem para todos os bolsos. Você pode dormir no próprio barco em que veio, e aí já fica incluso no valor pago pelo transporte, que costuma ficar em torno de R$500 ida e volta.

Um quarto de casal privativo em pousada sai, em média, R$3.000 para uns 5 dias. Outra opção é alugar uma casa e dividir com mais amigos. Nesse caso, uma casa para umas 10 pessoas costuma sair numa média de R$8.000 a R$10.000.

boi caprichoso

Que conselho dariam para alguém que quer conhecer o festival, mas acha que a viagem é complicada demais?

Luis e Elka: Se você vem de outro estado do Brasil, a logística é complicada mesmo. Envolve um custo a mais, que é a passagem de avião até Manaus, e muitas vezes ela não é barata. Até existem voos saindo de São Paulo direto para Parintins, mas aí é meio na sorte. Tenho amigos que já conseguiram.

Mas vale cada minuto investido e cada centavo gasto! A gente costuma dizer que é uma experiência que todo brasileiro precisa ter pelo menos uma vez na vida. O problema é que nunca vai ser só uma vez. Porque, depois que você vai pela primeira vez, sempre vai querer voltar. E fazer amizade por aqui é a coisa mais fácil do mundo! Pode ter certeza que no próximo ano você já terá até casa e cama pra ficar.

Fê e Di: É realmente complicado, mas não é impossível. Você pode chegar de barco ou avião, tem o ponto positivo e negativo de cada um, você tem que ir desenrolando isso. Não é uma coisa muito óbvia. É preciso entrar em contato para saber se tem vaga, se vai ser de rede, se vai ser o barco a jato…

Outra coisa difícil lá é hospedagem, porque tem poucas opções. Você pode dormir no barco, por exemplo, mas aí vai depender do quanto a pessoa está disposta a passar perrengue.

Para alguém que não tem experiência viajando de forma independente eu acho complicado planejar tudo sozinho, sem conhecer os caminhos. Para quem acha que é complicado demais e quer facilitar, tem pacotes prontos, só que é bem caro. Mas aí de uma próxima vez talvez dê para voltar já entendendo como é que funciona, com mais planejamento.

Os ingressos acabam muito rápido, as hospedagens esgotam rápido também. É complicado para todo mundo, até para o pessoal que está lá, mas vale a pena.

festival de parintins

Existe alguma outra festa relacionada ao festival que vocês consideram imperdível?

Luis e Elka: Sim, a Alvorada do Boi Garantido, a segunda maior festa de Parintins depois do Festival. Fomos nos últimos dois anos. É um evento que eu costumo chamar de “paraíso”, porque a cidade inteira fica encarnada. Em todos os lugares só dá Garantido, as festas são do Garantido, e o dia da Alvorada em si é surreal demais! Mais uma vez, fica difícil explicar a sensação.

O que vocês acham que as pessoas de outras partes do Brasil costumam não entender sobre o Festival de Parintins?

Fê e Di: Para começar, muitas não sabem nem que existe. Acho que a grande massa, no geral, não quer nem saber do que está acontecendo lá. Mas é muito grandioso e uma forma de resistência cultural.

Às vezes as pessoas falam, “é tipo um carnaval”. Não é. Falam “É tipo times de futebol”. Não é também. No futebol tem briga, rivalidade… Lá é respeitoso, é diferente.

E às vezes a gente conta para as pessoas e percebe que elas não têm noção do tamanho do evento. Acho que elas não costumam entender o quão importante, grandioso e representativo isso é para a nossa cultura aqui do Brasil. O brasileiro médio conhece muito pouco o Brasil.

Você já sabia como é o Festival de Parintins? Se surpreendeu com alguma informação? Conta nos comentários!

Para ficar por dentro das informações sobre a festa você também pode seguir o perfil do Instagram @parintinsoficial.

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