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Voluntariado no exterior: por que você pode atrapalhar mais do que ajudar

Dicas Práticas | 24/04/18 | Atualizado em 29/04/19 | 8 comentários

Seu amigo foi pra o Vietnã nas férias e voltou cheio de histórias sobre as duas semanas que passou trabalhando como voluntário num abrigo pra crianças carentes. Muitas fotos no Instagram com meninos e meninas com roupas simples, mas grandes sorrisos no rosto, agarrados nas pernas dele.

Muitos relatos sobre os perrengues que passou e como tudo valeu a pena pra ajudar aquele povo tão necessitado. Parece lindo, né? Mas às vezes as aparências enganam e o trabalho voluntário em viagens – batizado de “volunturismo” – pode atrapalhar muito mais do que ajudar.

À primeira vista, é bonito mesmo: o viajante tá abrindo mão de dias de diversão e relaxamento pra trabalhar em prol de outras pessoas, tentando fazer uma diferença no mundo. Tá consciente dos seus privilégios e se esforçando pra oferecer algo pra sociedade. E, de quebra, conhecendo melhor a cultura local, superando desafios pessoais e até incrementando o CV.

Só que existem outras vidas envolvidas e uma olhadinha rápida como a que você dá naquela foto postada no Instagram não é suficiente: é preciso tentar enxergar o que está por trás e considerar várias questões éticas.

A polêmica do volunturismo

Fazer trabalho voluntário no exterior não é novidade: essa prática é antiga, mas tem se transformado de acordo com o momento histórico, como explica esse texto (em espanhol). Não por acaso, a popularidade desse tipo de viagem tem crescido especialmente entre a geração Y (presente!).

Nós, jovens de classe média de 20 e poucos/tantos anos, crescemos num ambiente de relativa estabilidade econômica, tivemos acesso a outras culturas desde cedo (seja presencialmente ou pela internet) e fomos, de maneira geral, convencidos de que somos especiais e podemos “fazer a diferença”.

Leia também:

Recomendações para ser voluntário no exterior de forma ética
Turismo sustentável: como ser um viajante mais consciente

Como viajar trabalhando em troca de hospedagem

Ao mesmo tempo, cada vez mais empresas se aproveitam disso e criam produtos sedutores que prometem uma experiência transformadora, promovendo uma ideia romântica de “mudar o mundo” pra quem se aventurar num país distante, muitas vezes cobrando muito dinheiro pra isso.

Em troca de umas centenas ou milhares de dólares (ou menos, pra quem embarca nessa por conta própria), existe a promessa de que o turismo vai ser elevado a outro patamar, oferecendo benefícios superiores pra você e pra os outros.

Infelizmente, muitas empresas e organizações bem intencionadas negligenciam questões importantes e geram obstáculos pra o desenvolvimento da economia local. Enquanto isso, várias outras muito mal intencionadas geram consequências graves como tráfico humano, abusos sexuais e sérios danos psicológicos em quem supostamente está sendo “ajudado”. Mas felizmente, muitas pessoas e organizações têm se posicionado no sentido de mostrar os problemas que o volunturismo pode provocar.

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Se você leu até aqui e tá pensando “poxa, mas eu queria tanto aproveitar aquele meu mochilão pela Ásia pra ajudar o próximo”, não desista (nem do texto nem da ideia de viajar pra ser voluntário). Não quero dizer que todo voluntariado internacional é inútil ou nocivo.

Mas é preciso estar muito bem informado pra escolher bem o projeto onde você vai atuar e pensar com cuidado sobre suas atitudes, considerando um monte de questões apontadas por quem é especialista no assunto. Vamos ver algumas delas?

Problemas do voluntariado no exterior

A indústria dos orfanatos

Existem muitas áreas em que se pode voluntariar no exterior: cuidando de animais resgatados de situações de maus tratos ou tráfico, trabalhando na área administrativa de uma ONG, ajudando a reconstruir uma cidade prejudicada por desastres naturais e mil eteceteras. Mas começo com o caso específico dos orfanatos porque acredito que eles representam o que há de mais grave envolvendo o volunturismo.

Em vários países, como Camboja, Uganda, Indonésia e Nepal, não faltam orfanatos onde jovens estrangeiros vão passar umas semanas brincando ou ajudando a cuidar das crianças. Isso pode parecer legal (“essas criancinhas todas precisam de ajuda, vamos colaborar!”), mas é bem problemático por diversos motivos.

Primeiro porque muitos desses lugares são criados (ou continuam existindo) só pra que seus donos possam lucrar com o dinheiro pago pelos gringos. Dessa forma são mantidas instituições irregulares, cheias de crianças que muitas vezes nem são órfãs, mas retiradas do convívio das famílias pra garantir que as doações continuem chegando.

Diversas pesquisas mostram que orfanatos ou abrigos não deveriam ser soluções de longo prazo pra crianças, sendo prejudiciais pra o desenvolvimento delas. Mas ainda fica pior: pra tornar os lugares mais “atraentes” pra quem tá no afã de ajudar, as crianças chegam a ser mantidas propositadamente em condições de saúde e higiene precárias.

Outra questão grave é o prejuízo emocional. Sabe aquele carinho espontâneo que as pessoas costumam falar que recebem das crianças quando chegam em lugares assim? Segundo especialistas, isso tem a ver com problemas psicológicos que elas desenvolvem ao serem abandonadas constantemente.

Imagina a situação: você não tem família ou vive longe dela, e a cada duas semanas chega um novo grupo de pessoas sendo carinhoso com você. Você se apega, aprende a confiar, e aí eles vão embora. De novo, e de novo, e de novo. É meio óbvio que isso não é bom pra o desenvolvimento das crianças e aprofunda a carência emocional delas, né?

Sem falar em casos mais extremos, que infelizmente são relativamente comuns: muitas dessas instituições estão ligadas a redes de tráfico de pessoas e pedofilia, como observa esse post do blog Once Upon a Trip.

Moral da história? Jamais faça trabalho voluntário em orfanatos. Se quer ajudar crianças em situação de vulnerabilidade, procure formas de apoiar organizações que desenvolvem soluções de longo prazo, como ajudar as famílias a obter os recursos e condições necessárias pra cuidar bem das crianças e lutar por questões como saúde pública e educação.

Pra saber mais sobre o assunto, você pode ler (em inglês) esse depoimento de uma inglesa que foi voluntária em orfanatos e hoje faz campanha contra, assistir a esse vídeo da organização Learning Service e explorar os recursos compilados pela Better Care Network, que faz campanha contra o voluntariado internacional em orfanatos.

trabalho voluntário em orfanatos

Empresas motivadas pelo dinheiro

Tá, então você resolveu procurar um projeto que não seja em um orfanato. Ainda existem, no entanto, várias questões a levar em consideração, como a seriedade da organização que promove o programa. Muitas das agências que fazem a ponte entre viajantes e instituições locais só querem saber do lucro, não dando real atenção às necessidades das comunidades (nem dos voluntários, frequentemente).

Já ouvi muitas histórias de gente que chega no lugar e descobre que vai fazer trabalhos totalmente inúteis, tipo pintar uma porta que já foi pintada na semana anterior por outro voluntário ou fazer uma apresentação no PowerPoint sobre o Brasil pra crianças de escola particular. Isso virou realmente uma indústria, e não falta gente mal intencionada querendo só seu dinheirinho.

Prioridade aos voluntários

Existem também casos em que até tem um trabalho real a ser feito, mas o conforto dos voluntários é considerado mais importante do que seu impacto na comunidade e as necessidades da organização que tá sendo ajudada. É como se o voluntário, que tá pagando pra participar dessa experiência, fosse visto como um cliente que precisa ser atendido em primeiro lugar.

São, por exemplo, os casos em que os viajantes são colocados em acomodações maravilhosas e recebem refeições de primeira, enquanto as pessoas que eles supostamente vão ajudar não têm a mínima estrutura pra fazer suas atividades. É claro que tem algo errado com o propósito dessas iniciativas, né?

Voluntários com objetivos errados

Outro problema é a própria motivação do viajante. Especialmente em países do “norte global”, onde é muito comum jovens tirarem uns meses ou anos pra viajar pelo mundo e fazer trabalho voluntário, essa prática tende a ser muito valorizada por empregadores. Consequentemente, bastante gente busca uma viagem assim só pra colocar a experiência no currículo.

E com essa onda de aparências nas redes sociais, acredito que muitos também se motivam pela vontade de mostrar como são altruístas e maravilhosos pra os seguidores do Instagram. Um bom exemplo disso são os posts irônicos do perfil @barbiesavior, criada por duas jovens que já foram voluntárias em países africanos e passaram a ver de forma mais crítica sua própria atuação (e a de outros tantos jovens privilegiados) e o complexo de “white saviors”.

Acho que nem precisava falar, mas enfim: quando os voluntários não estão no lugar com o objetivo principal de ajudar, o trabalho que vão realizar muito provavelmente não terá efeitos positivos.

barbie white savior

Pouca participação da comunidade

Outro aspecto relacionado a essa noção de “white savior” (a ideia de que jovens de países mais “desenvolvidos” têm, pelo simples fato de virem de ambientes privilegiados, mais condições de ajudar os outros) é o nível de envolvimento das comunidades locais nos projetos de voluntariado.

Muitos programas são desenvolvidos com nenhuma ou pouquíssima contribuição das pessoas do local, o que é absurdo, já que são eles quem entendem melhor as necessidades que passam.

Qualquer trabalho de desenvolvimento exige soluções locais, planejadas e executadas com participação ativa dos envolvidos. Você pode ter uma ideia que pareça muito boa, mas que não faça sentido nenhum pra realidade local, ou não seja realista no momento atual pra aquelas pessoas. E só vai saber disso se aprender com quem realmente entende a complexidade dos problemas e da cultura locais.

Pouco preparo dos voluntários

Um dos principais alertas pra ficar ligado em relação às vagas de trabalho voluntário se refere a projetos em que não existe nenhum tipo de seleção ou treinamento. Já vi situações bizarras em que jovens foram pra outro país pra ajudar a “combater o trabalho escravo” ou construir casas sem nenhum treinamento específico.

Não são raros os relatos de voluntários que passam um dia levantando paredes, por exemplo, e depois vem alguém pra consertar o que fizeram de errado. Ou pior: a coisa fica mal construída e corre o risco de machucar alguém.

O mesmo vale pra outros tipos de trabalho, em que a falta de capacitação pode atrapalhar muito mais do que ajudar. Por mais bem-intencionado que você esteja, talvez você ensine inglês pra as crianças de um jeito confuso e prejudique o aprendizado delas, por exemplo.

Além disso, muitos voluntários não falam absolutamente nada do idioma local, nem entendem a cultura do lugar, e essa falta de preparo também pode prejudicar o impacto das suas ações.

Ocupação de vagas de trabalho

Também acontece de voluntários exercerem funções que podiam estar sendo ocupadas por moradores do local. Afinal, se a organização pode ter um estrangeiro pagando pra trabalhar, é possível que ela não queira contratar um trabalhador local pra fazer o mesmo serviço, né?

Em muitos casos a instituição não tem mesmo recursos pra contratar alguém e precisa muito de uma ajuda voluntária, e também pode acontecer de faltar mão de obra qualificada naquela área. Mas é preciso fazer o possível pra se certificar disso.

E, se for o caso de não existir gente com suas habilidades no local, o ideal é o voluntário treinar gente de lá pra continuar o trabalho quando ele for embora. Perpetuar uma situação em que seja necessário vir alguém de fora pra resolver problemas não é sustentável e não ajuda nenhuma sociedade a longo prazo.

O objetivo precisa ser contribuir pra que a comunidade consiga recursos pra melhorar por conta própria, com o empoderamento dos seus próprios integrantes.

Período de voluntariado muito curto

Outra questão problemática se refere ao período do trabalho voluntário. A maioria dos brasileiros só tem um mês de férias ao ano, e muita gente quer usar parte desse período pra voluntariar em outro país. No entanto, em uma ou duas semanas (ou mesmo quatro) é muito difícil ter um impacto real.

Você provavelmente vai chegar e “pegar o bonde andando” e demorar um pouco pra entender como funcionam as coisas naquele país e naquela organização. E quando for embora, alguém novo vai ter que recomeçar tudo do zero.

Existem exceções, mas em geral é difícil ter um impacto consistente com intervenções curtas e que não façam parte de um projeto bem estruturado. Como observa Daniela Papi nesse vídeo do TEDx, “estamos oferecendo soluções de curto prazo pra problemas complexos e ficamos desapontados quando não conseguimos resultados de desenvolvimento a longo prazo”.

É ótimo ver gente bem intencionada e querendo ajudar enquanto abre a cabeça pra outras formas de ver o mundo. Mas a responsabilidade precisa vir em primeiro lugar.

Quer embarcar pra um voluntariado no exterior e não sabe como fazê-lo da forma mais ética possível? Dá uma olhada nesse outro post com recomendações pra quem quer ser voluntário em outro país.

Crédito das fotos que ilustram o post: Pexels – licença Creative Commons Zero (CC0)

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8 Comentários

  1. Marina Saretta

    Esse texto foi TÃO informativo e importante! Obrigada por sair do superficial e trazer tanta reflexão <3

    • Oi, Marina! Muitíssimo obrigada pelo feedback! <3 Faz toda a diferença. Um abraço!

  2. Adriana Nascimento

    Ótimo texto!

  3. Gostei da abordagem, muito rica! No Brasil temos grandes oportunidades de fazer volunturismo na nossa terra em comunidades que inclusive protagonizam o turismo comunitário como muitos strangeiro já fazem!

    • Oi, Alberto! É verdade! Dá pra ajudar muito sem ir longe, e assim fica até mais fácil se certificar de que a organização seja séria e os processos tragam vantagens reais para as comunidades :) Obrigada pelo comentário!

  4. Luiza

    Texto maravilhoso!! Um assunto sério que realmente precisa ser discutido e problematizado. Gratidão!

    • Oi, Luiza! Que bom que você gostou, muito obrigada pelo feedback :) Realmente é um assunto sobre o qual precisamos refletir, né? Acho que a maioria das pessoas que se envolve com atividades nocivas ou ineficazes nem tem consciência disso. Um abraço!

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