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Vozes Roubadas: diários de Guerra escritos por crianças

Livros | 05/05/14 | Atualizado em 03/01/18 | 4 comentários

“Eu pensava que as guerras aconteciam às outras pessoas”.

Você já leu o Diario de Anne Frank? Eu também. Mas nem eu nem (provavelmente) você começamos, pouco depois da leitura, nosso próprio diário de guerra. A bósnia Zlata Filipovic sim. Aos 11 anos, ela testemunhou a chegada da guerra no seu país, em abril de 1992, e começou a escrever sobre os horrores que aconteceram na Bósnia e o novo modo de vida que sua família foi forçada a adotar, sem água ou eletricidade e com muito pouca comida.

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Os escritos a fizeram ser conhecida como “a Anne Frank da Bósnia”, alcançando grande sucesso depois de serem publicados com o nome O Diário de Zlata – que ainda não li. Então por que tou falando nisso aqui? É que acabei de terminar outro livro, organizado por Zlata em parceria com a poeta inglesa Melanie Challenger, que inclui um trecho do diário original.

“Está bem, não entendo nada, é verdade que sou ‘pequena’, que a política é coisa dos ‘grandes’. Mas mesmo assim tenho a sensação de que os ‘pequenos’ iam saber fazer política melhor que os ‘grandes’. Com toda a certeza a gente não teria optado pela guerra”.

Vozes Roubadas – Diários de Guerra é uma compilação de, como o próprio nome indica, diários escritos durante guerras. Mas não são quaisquer diários: todos eles foram escritos por crianças e adolescentes. Não, não é um livro de viagem propriamente dito (assim como Stasilândia e Flor do Deserto, que já apareceram aqui no blog). Mas ele nos leva, sim, numa viagem histórica através de mentes que testemunharam/participaram tão precocemente de terríveis conflitos em várias partes do mundo.

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Acompanhados de breves e úteis contextos históricos, os relatos nos oferecem uma imagem autêntica, real e íntima do cotidiano e do horror de não uma, mas várias guerras. No livro, encontramos 14 diários que vão desde a Primeira Guerra Mundial à invasão do Iraque, passando por distintos momentos da Segunda Guerra Mundial, pela Guerra do Vietnã, pela Guerra dos Balcãs e pela Segunda Intifada, no Oriente Médio.

“Acho que me tornei uma pessoa mais velha, muito mais velha e assustada durante aquele curto período que passei com a cara metida no chão!”

Em alguns momentos, vemos pontos de vista opostos, que nos ajudam a despir-nos de qualquer maniqueísmo: o relato de uma menina palestina vivendo em meio à ocupação israelense vem logo depois do de uma jovem judia com medo de ataques terroristas. Um jovem soldado neozelandês que falava do dia a dia no combate tem seu diário encontrado por um oficial nazista, que continua escrevendo nas páginas seguintes. E assim por diante, vemos o dia a dia do jovem soldado e as privações da criança presa com a família no porão de casa. Vozes tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo.

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Desespero, revolta, compaixão, medo, injustiça e a consciência da perda da inocência são elementos presentes na maioria dos registros. Os autores dos diários nos confessam detalhes simples e humanos, falando de animais de estimação ou contando que são fãs de Michael Jackson. E falam da saudade de coisas simples do cotidiano, agora inacessíveis, como as aulas na escola, as brincadeiras com os amigos, as comidas preferidas, a natureza. Em sua maioria, encaram o diário como um amigo, um confessionário e um refúgio.

“É o aniversário do imperador! Como mimo, recebemos uma lata de abacaxi para cada três mulheres e uma caixa de sabão Rinso para cada quatro mulheres. Que festa!!!”.

A visão das crianças sobre os acontecimentos oferece um retrato pessoal e imediato, não influenciado por frias análises posteriores. Como resultado, nos deparamos com registros históricos muito poderosos. São relatos de coragem, compaixão e que revelam um nível de maturidade absurdo – em incontáveis momentos, me peguei boquiaberta ao pensar que aquelas linhas haviam sido escritas por alguém tão jovem. São vozes que a guerra tentou calar, mas não conseguiu.

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E, além de me emocionar, foi inevitável imaginar as vidas, inquietudes e anseios que estarão por trás das outras tantas vítimas de conflitos do passado e do presente, cujas histórias desconhecemos e que só chegam a nós como números em reportagens ou livros de história – ou nem isso.

“Às vezes, quando converso e rio durante as refeições, paro subitamente e pergunto a mim mesma: ‘Que razão você tem para rir? A situação em que se encontra é terrível demais para rir dessa maneira. Então PARE COM ISSO!'”.

Como bem define Zlata, “Vemos a guerra como um conceito enorme e alienígena, quase impossível de ser plenamente entendido. Ao conhecer as pessoas que a vivenciaram, cresceram em meio a ela e compartilharam conosco seus fragmentos diários, podemos dividir o conceito da guerra em pedaços menores e começar a entender o que ela significa”. Nesse sentido, “Vozes Roubadas” ajuda a abrir os olhos e o coração. Recomendo.

“Imagino como será a vida quando a guerra acabar. Acho que a primeira coisa que farei será ir às ruas dançar, então, diário, se um dia vir uma menina louca dançando pelas ruas, saiba que terá chegado o fim da guerra e que esta garota serei eu”.

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4 Comentários

  1. Mariana

    Vou ler! :D

    • Luísa Ferreira

      Leia mesmo! :) E venha aqui depois contar o que achou, hehe. Um abraço

  2. Gostei! Nem sabia desse livro, mas desde criança sou fã da Zlata com “O diário de Zlata” então vou comprar sim!

    • Luísa Ferreira

      Oi, Fernanda! Acredita que eu só fui conhecer “O Diário de Zlata” agora? Antes tarde do que nunca, né? :P Leia esse sim, com certeza você vai gostar. Um abraço!

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