Alemanha

Campos de concentração perto de Berlim e Munique: Sachsenhausen e Dachau

Viajar nem sempre é divertido. Às vezes é difícil, doloroso, angustiante. Assim como a maioria das coisas que transformam a gente, né? Sabendo que esse é o tipo de experiência transformadora, visitei esse ano dois antigos campos de concentração transformados em memoriais/museus na Alemanha.

O primeiro, Sachsenhausen, fica pertinho de Berlim. O outro, Dachau, fica a uma hora de Munique. Não por acaso, os dois são parecidos. E, dependendo de como estiver seu roteiro por essas duas cidades, recomendo muito escolher um deles pra conhecer. Porque não é agradável estar tão perto de onde o horror aconteceu, mas é essencial não esquecer. E mais importante: não deixar acontecer novamente.

Juntei algumas informações práticas e históricas, fotos e impressões sobre os dois campos de concentração:

Sachsenhausen

Você pega um trem e um ônibus saindo de Berlim. Passa na recepção, pega um mapinha e um audioguia e vai até a entrada do campo, talvez sem se dar conta que tá seguindo o percurso que os prisioneiros faziam. E aí, no pesado portão de ferro, lê a infame frase: Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”). Não tem como ignorar o peso do que aconteceu ali.

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Um dos maiores campos de concentração do Reich, o Saschsenhausen ficou ativo de 1936 a 1945. Ele e seus subcampos mantiveram presas cerca de 200 mil pessoas, que eram submetidas a trabalho forçado e viviam em condições totalmente desumanas. Dezenas de milhares morreram em consequência de doenças, desnutrição, tortura, execuções e experimentos médicos absurdamente brutais, e muitas delas foram transportadas de lá pras câmaras de gás de Auschwitz.

Por mais que você tenha lido sobre isso, assistido a filmes etc. e tal, estar lá e imaginar que foi bem ali que tudo isso aconteceu dá uma nova dimensão ao horror. Depois da minha visita, em maio, revi alguns desses filmes e li um livro sobre o holocausto e minha percepção da dor de quem viveu a perseguição nazista foi muito mais palpável.

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Devido à localização estratégica pertinho de Berlim, o Saschsenhausen era um dos mais importantes e abrigava o “centro administrativo” pra todo o sistema de horror que os nazistas criaram, capilarizado pelos territórios sob domínio de Hitler.

E mesmo depois da ocupação de Berlim Oriental pelas forças Soviéticas essa história terrível não acabou: os soviéticos usaram o lugar pra se pintar de “heróis antinazistas”, mas usaram o espaço entre 1945 e 1950 como prisão, mantendo cerca de 60 mil pessoas também em condições desumanas. Entre elas estavam oficiais alemães transferidos dos campos aliados e anticomunistas.

Depois de tudo isso, o campo não foi mantido exatamente como era antigamente. A maior parte do espaço, na verdade, é hoje um grande descampado cercado por muros e arame farpado, com torres de controle espalhadas pelo perímetro.

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No lugar onde ficavam os barracões dos prisioneiros sobraram pedrinhas que delimitam o espaço. Mas alguns dos aposentos foram recriados em dois barracões, que contam a história do lugar e mostram como (sobre)viviam os prisioneiros. Uma exposição multimídia conta, ainda, com depoimentos de sobreviventes falando sobre suas experiências.

Você também vai passar por um espaço semicircular onde os prisioneiros tinham que ir duas ou três vezes do dia pra serem contados, muitas vezes esperando em pé por horas sob chuva ou frio intensos. E por outros ambientes como a prisão, que mantinha as pessoas punidas por infringir regras do campo e também personalidades proeminentes presas pela Gestapo; uma trincheira usada pra execuções; a enfermaria e as valas comuns onde os corpos eram enterrados.

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Se você tiver tempo, vale assistir a um vídeo de 20 minutos exibido no prédio onde funcionava a cozinha, que dá uma geral em diversos fatos históricos que contextualizam o que acontecia ali com relação ao resto do mundo.

Na saída, passei pela instalação sonora que fica do lado de fora com depoimentos soando pelo meio das árvores e tive que segurar o choro pensando não só no que aconteceu ali e em outros campos parecidos, mas também no que a humanidade ainda faz de tão cruel hoje em dia. :(

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A visita é gratuita, mas vale a pena alugar o audioguia, que tá disponível por três euros (valor de outubro de 2016) em alemão, inglês, espanhol, francês, holandês e italiano. Existem por lá vários painéis com texto, mas no audioguia tem horas e horas de conteúdo muito interessante, incluindo depoimentos de pessoas que sobreviveram ao campo. Também existem visitas guiadas oferecidas pelo próprio museu e por outras empresas, mas elas custam uns 15 euros por pessoa.

Tente passar pelo menos metade de um dia por lá, porque o espaço é grande e tem muuuita informação pra ver (e absorver). Infelizmente fui com o tempo contado (umas três horas e meia) e achei corrido. Pra informações práticas atualizadas (horários de funcionamento, valores etc.), acesse o site oficial.

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Como chegar

É fácil chegar lá a partir de Berlim usando o sistema de trens S-Bahn. Peguei o trem S1 em direção a Oranienburg  – ele passa nas estações Brandenburger Tor, Potsdamer Platz e Friedrichstrasse. A viagem a partir de Friedrichstrasse dura 50 minutos. Outras opções são pegar o trem regional RE 5 saindo da estação central (Hauptbanhof) ou o RB 12 de Lichtenberg pra Oranienburg, em viagens de 30 minutos.

Chegando à estação de trem é só atravessar a rua e pegar o ônibus 804 (em direcção a Malz) ou o 821 (em direção a Tiergarten) e descer na parada Gedenkstätte. Na parada tem uma tabela com os horários dos ônibus (que passam umas duas vezes por hora) e o memorial fica bem pertinho de onde você desce, como mostra a segunda foto aí embaixo. Também dá pra ir andando, em uns 15 ou 20 minutos. Se quiser voltar de ônibus, dê uma olhada nos horários de saída quando chegar na parada em frente ao memorial, pra programar a hora em que você vai sair de lá e não ter que ficar esperando.

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Eu fui de ônibus e voltei a pé porque esqueci de olhar antes os horários e o ônibus tinha acabado de passar. Como não tinha GPS e sou desorientada, fui pedindo informações ao pessoal na rua pra chegar à estação. Muita gente por lá não falava inglês, mas se você falar “Wo ist der Banhof?” (algo como “vô ist dea banrrof”, que significa “onde fica a estação de trem?”) dá pra desenrolar. :P

Dachau

Visitei esse outro campo de concentração em julho, quando tava na Alemanha de novo pra participar do acampamento do IFM-SEI. Se você já foi pra o de Sachsenhausen e não tem um interesse mais profundo por Dachau ou pela história do holocausto, não acho que valha tanto a pena ir aos dois, porque são bem parecidos (e imagino que o mesmo valha pra outros campos). Pra mim, essa segunda visita foi interessante porque eu tive o dia inteiro pra andar por lá, ouvir mil gravações do audioguia e absorver tudo com mais calma do que na correria em que eu tava no anterior.

O campo de concentração de Dachau foi inaugurado em 1933, e nele também foram desenvolvidos planos e regras que serviram de modelo pra todos os outros campos da SS. Os primeiros prisioneiros de lá eram oponentes políticos do regime, comunistas, sindicalistas e alguns membros de partidos políticos conservadores e liberais. Nos anos seguintes, foram enviados pra lá vários judeus, homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová, entre outros “indesejados”.

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A partir de 1938, depois da Anschluß (anexação político-militar) da Áustria, prisioneiros austríacos foram pra lá também, e depois o campo recebeu tchecos, poloneses, noruegueses, belgas, holandeses, franceses etc. No total, mais de 200 mil prisioneiros de mais de 30 países ficaram lá, em 34 barracões.

Assim como em Sachsenhausen, esses barracões foram demolidos, mas dois deles foram reconstruídos e funcionam como museu, mostrando diferentes distribuições dos “quartos”, que foram modificados (pra pior) com o passar do tempo. Dá pra ver como eram os banheiros e as camas, onde cada vez mais gente se espremia. Segundo relatos de sobreviventes, os prisioneiros tinham que dormir de lado e se alguém precisasse se levantar durante a noite provavelmente não conseguiria espaço pra voltar. :(

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Planejado pra 6 mil prisioneiros, o campo ficou cada vez mais lotado com o passar dos anos. Quando o lugar foi liberado pelas tropas americanas, 30 mil pessoas se espremiam nas instalações totalmente precárias.

Assim como em Sachsenhausen, também dá pra visitar outros prédios, como o da cozinha e enfermaria, e ter uma ideia de como funcionava a maioria dos campos de concentração – já que a distribuição dos espaços era quase sempre a mesma. Tem também a prisão, o crematório (esses fornos na foto abaixo) e  a câmara de gás, que ao que tudo indica não foi usada para execuções em massa, mas não deixa de ser chocante.

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Em Dachau a visita também é gratuita e também é possível (e recomendável) pagar 3,50 euros pelo aluguel do audioguia, só que lá ele tá disponível também em português (de Portugal), além de vários outros idiomas. Existe ainda um documentário sobre o campo, com 22 minutos de duração, mas ele passa em alguns horários específicos e eu não consegui assistir. Também tem visitas guiadas pagas – se tiver interesse, procure online ou pergunte na sua hospedagem. Pra informações práticas atualizadas (horários de funcionamento, valores etc.), acesse o site oficial.

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Como chegar

Eu fui pra Dachau num ônibus fretado a partir do acampamento onde eu tava, mas voltei de transporte público porque o ônibus abandonou meu grupo. :P Pelo que vi, é fácil ir e voltar de lá a partir de Munique. É só pegar o trem S2 com destino a Dachau/Petershausen e descer na estação de Dachau. A viagem dura uma meia hora a partir da estação central de Munique (Hauptbanhof).

Depois, pegue o ônibus 726 numa parada em frente à estação de trem em direção a Saubachsiedlung e desça em KZ-Gedenkstätte, parada de ônibus que fica a poucos passos da entrada pra o estacionamento do memorial. De acordo com o memorial, você pode comprar um bilhete diário Munich XXL nas máquinas automáticas, que dá direito a ir desde a estação central de Munique ao campo, incluindo trem e ônibus. A viagem toda dura cerca de uma hora.

Dicas importantes

Em ambos os campos, como você viu nas fotos, existem grandes espaços abertos. O que isso significa? Que você vai passar um bom tempo andando debaixo de sol, chuva ou neve. É bom, então, ir preparado com roupas adequadas pra o clima, sapatos confortáveis e carregando pouca tralha. Vale levar uma garrafa d’água, óculos escuros e talvez algo pra comer, porque as cafeterias ficam na entrada dos memoriais e não vale muito a pena passar lá na metade da visita.

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4 Comentários

  1. Eliane carvalho

    Eu estive no museu e foi uma emoção só.Estava conhecendo alguns países e claro Berlim não poderia ficar de fora. Foi realmente emocionante e recomendo

    • Impossível não se emocionar, né, Eliane? E pensar nos absurdos que o ser humano é capaz de fazer… Um abraço!

  2. suelly Coraccio

    é muito triste saber como ser humano continua sendo por que bem antes disso já havia crucificado um homem que também nâo havia feito absolutamente para ser morto daquela forma tão cruel e nesses campos muito pessoas perderam sua vidas

    • Parece que não aprendemos nada, né, Suelly? Até hoje, infelizmente… Um abraço

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