Viagem pra Dentro

Sobre o desafio de sair da zona de conforto

Até pouco tempo atrás, eu não tomava café nem cerveja e não era fã de palmito, tomate seco, brócolis, azeitona e nem mesmo – pasmem – de morangos. Hoje, adoro todas essas coisas. Mas por que eu tou dissertando aqui sobre a evolução do meu paladar? É que na minha mente gulosa essa me pareceu uma boa metáfora pra falar de outras mudanças: aquelas que acontecem dentro da gente e que fazem de nós seres em constante evolução – pelo menos se a gente fizer por onde.

Na verdade, a mudança que eu queria abordar aqui é uma mais específica: a que me fez passar de uma menina com pânico de sair da zona de conforto pra alguém viciada em recomeços – especialmente os geográficos ;)

Se você curte a página do blog no Facebook, deve ter me visto falar do debate sobre intercâmbio de que participei na Rádio JC News, do Recife, no mês passado. Na conversa, disponível na íntegra aqui, comentei que a ideia de morar fora já me deu bastante medo. Tanto que só fui tomar coragem pra fazê-lo aos 19 anos, já na faculdade, enquanto alguns conhecidos já tavam se jogando por aí aos 15, 16, em programas de high school.

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O fato é que a vontade de viajar surgiu justamente daí: da necessidade de superar minhas barreiras, ver até onde eu podia ir. Por isso, comecei aos poucos, com um teste de apenas um mês, no mesmo continente. Foi o bastante pra perceber que os monstros que eu pintava na minha mente eram pura imaginação. E é claro que não eram monstros exclusivamente meus. Sem saber, eu os dividia com muita gente.

Foi o que percebi ao conversar com amigos e conhecidos que voltaram do primeiro intercâmbio. Tem o medo de ficar longe d@ namorad@, medo de se afastar dos amigos, medo de não fazer novos amigos, medo do clima, medo da língua, medo de um avô ou avó querido ir embora desse mundo enquanto a gente tá longe. E tem também o simples medo do desconhecido, de segurar na ponta do balão e se deixar levar, de não ter certeza aonde aquele caminho vai dar.

Ora, eu não tinha me apaixonado ainda pelo tomate seco ou pelo palmito porque não tinha dado boas chances a eles pra que me conquistassem – o típico “não provei e não gostei” que nos faz reforçar tantos preconceitos nessa vida. Quanto à cerveja e ao café, acho que foi mais uma questão de timing. Ainda não era a hora pra esses hábitos entrarem na minha vida, assim como até meus 19 anos não era, pra mim, o momento pra fazer um intercâmbio.

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E não é assim com tanta coisa que a gente pensa que não gosta, que incomoda, que dá medo? Ou que não tem a ver com a gente, que não somos capazes de fazer? Um dia, se a gente se permite, as coisas vão acontecendo e tudo muda. De repente, percebi que em vez de pedir sempre o mesmo prato nos restaurantes, eu tava fazendo questão de provar coisas diferentes. E que em vez de ficar nervosa com situações novas a 15 km de casa, tinha toda a capacidade de usar as pernas e a boca que Deus me deu pra me virar do outro lado do oceano.

Já recebi muitas mensagens, por causa do blog, de gente que fica apreensiva com a ideia de um intercâmbio, ou de viajar só, mesmo que a passeio. Gente de todas as idades, crenças, experiências de vida. Normalmente, minha resposta é simples: vá, nem que seja aos poucos, mas vá. Afinal, cada um sabe seu limite, mas ir esticando essas fronteiras que a gente inventa pra nós mesmos é importante – e até divertido. É viver, né?

Ainda tenho medo de muita coisa nessa vida, bem mais do que gostaria. Mas se teve uma coisa que aprendi nas cinco vezes em que resolvi chamar outro lugar de lar foi que a zona de conforto existe pra ser ultrapassada, mesmo que não pareça tão simples. Porque, no fim das contas, tem uma coisa simples que a gente teima em esquecer: só tem coragem quem tem medo.

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7 Comentários

  1. Lara

    Ai, como é bom te ler! :)) estreando aqui nos comentários.. Demorei, mas aqui estou eu! Haha :*

    • Luísa Ferreira

      Awn, que linda! Muito bom almoçar/pegar ônibus contigo, dona Lara! :) Obrigada pelo comentário, fico muito feliz! beijo

  2. Thiago Ramos

    Muito bom e inspirador. Parabéns pelo blog! Adoro ler seus artigos.

    • Luísa Ferreira

      Oi, Thiago! Muito obrigada pelo comentário, fico feliz! ^^ Um abraço!

  3. Juliana

    ô luisa, tu é tão querida. parabéns pelo blog e pelas palavras. viajo domingo e ler isso aqui foi bem legal. um abraço!

  4. Camila

    Luiza, quando vc diz : “Na conversa, disponível na íntegra aqui, comentei que a ideia de morar fora já me deu bastante medo. Tanto que só fui tomar coragem pra fazê-lo aos 19 anos, já na faculdade, enquanto alguns conhecidos já tavam se jogando por aí aos 15, 16, em programas de high school.” fico um pouco preocuapda com o fato de só agora aos 24 anos ter iniciado meu curso de inglês e começar a planejar uma viagem para o Canadá para um curso intensivo da língua. =/

    • Oi, Camila! Não vejo motivos pra preocupação :) Falei “só fui tomar coragem aos 19” porque particularmente já tinha pensado nisso antes, mas além de não ter muitas condições financeiras, morria de medo da ideia de viver uma experiência dessas. Não quis dizer, de forma alguma, que seria tarde demais! Tenho vários amigos na sua situação, se preparando pra viajar aos 24, 25, 26 anos, ou que acabam de voltar do primeiro intercâmbio nessa idade. E amaram, aliás :D

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