Viagem pra Dentro

Sobre começos e sobre se descobrir longe de casa

Viagem pra Dentro | 27/09/12 | Atualizado em 19/12/17 | 5 comentários

Morando com uma francesa, uma alemã e uma belga, é inevitável que as pessoas nos perguntem: “já viram O Albergue Espanhol?”. :P Duvido que algum Erasmus nesse mundo não o tenha visto. Eu, que tinha assistido o filme e sua sequência (Bonecas Russas) umas duas vezes, resolvi aproveitar a ocasião pra revê-lo. Além da mistura de línguas e culturas, que é uma delícia, ele fala sobre a experiência de deixar coisas pra trás e ir tentar se descobrir longe de casa. E aí que logo no começo uma fala do protagonista, Xavier, me lembrou de uma sensação que tive nos primeiros dias em Lyon e que agora chega em forma de déjà vu.

Relevando minha tradução meio tosca, o que ele diz é mais ou menos assim: “Quando chegamos a uma cidade, vemos as ruas em perspectiva. Sequências de prédios esvaziados de sentido. Tudo é desconhecido, virgem. Mais tarde, teremos vivido nessa cidade. Teremos caminhado nessas ruas. Teremos chegado ao fim das perspectivas. Teremos conhecido esses prédios. Teremos vivido histórias com as pessoas. Depois de um tempo, tudo isso nos pertence, por termos vivido aí. Era isso que ia me acontecer. E eu ainda não o sabia”. 

O apê do filme: uma pequena babilônia

Eu sei. Lembro que ao chegar em Sevilha não tinha essa consciência, mas hoje sim. Apesar de o deslumbre inicial não ser mais tão grande e de já estar habituada a algumas das particularidades de estar nesse país, nesse continente e nessa situação, sei que muita coisa vai mudar. Que em breve não vou mais precisar do mapa pra chegar à maioria dos lugares, já vou saber o que cada bar tem de melhor, terei meu cantinho preferido no parque e contarei anedotas mil envolvendo pessoas que ainda nem conheci. Sei que quando menos esperar, essa cidade vai ser, pra mim, muito mais do que informações históricas e geográficas como as que listei aqui.

Esse é o jogo. O exercício de despir-se de si mesmo, assim como das paisagens habituais. De reinventar-se e atribuir significado a algo que não é seu de origem. Pegando emprestada a linda analogia de Glenda, trata-se de recriar seu jardim a cada estação. Reconstruir-se e construir memórias que terão um gosto bem diferente das outras. Criar uma rotina desconectada – não só geograficamente – da rotina habitual. Abraçar situações inesperadas.

Chegando em Sevilla, em 2009

Assim como um novo relacionamento me faz olhar pra os antigos de outra forma, cada nova experiência dessa me faz ver tudo sob outra perspectiva. As cidades onde vivi, as pessoas que conheci. Até mesmo a cultura desse país, que já não me era estranho, assume outras cores. Outros sentidos.

É por isso que é preciso mover-se. Ainda que esses ganhos venham de mãos dadas com uma dose de perdas, é preciso ir. Até mesmo pra voltar depois e dar um novo sentido ao que era familiar a princípio. Pra entender melhor o que é meu. E quem sabe, com sorte, achar o meu lugar em mim e por aí.

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5 Comentários

  1. demorei um pouco pra terminar de ler esse post, fiquei aqui relendo algumas frases que tu escreveu.<3

  2. RFK

    Perfeito. Dá mesmo vontade de reler e reler. Cada frase um sentido, cada sentido, sentimento reconhecido. Lindo e profundo, como sempre. Amei.

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