Aprendizado e trabalho

Como publicar um livro independente: dicas de quem fez

Aprendizado e trabalho | 05/10/22 | Atualizado em 17/11/22 | 2 comentários

Como publicar um livro independente? Eu me fiz essa pergunta alguns anos atrás, depois de decidir que iria adiante com um projeto de livro que estava guardado como rascunho. Depois de muitas pesquisas, cursos e conversas com pessoas da área de editoração, resolvi me lançar nessa empreitada.

No começo de 2022, lancei meu primeiro livro, o “Guia de viagens pra dentro e pra fora: como viajar de forma transformadora e responsável”. Felizmente, os resultados têm sido melhores do que eu esperava! Estou super feliz com o andamento das vendas e principalmente os feedbacks de leitores de todo o Brasil <3

Escolhi ficar responsável por toda a produção editorial e fazer uma campanha de financiamento coletivo pra arrecadar o valor necessário pra publicação. Não foi nada fácil: além da dedicação à escrita, precisei dar conta de muitas tarefas que eram novas pra mim.

Mas aprendi muito nesse processo, que foi bem gratificante! E agora venho compartilhar esses aprendizados, pra quem sabe ajudar outros escritores com as mesmas dúvidas que eu tinha lá atrás.

Adianto que não vou propor uma fórmula ideal que funciona pra todos os autores. Vou compartilhar as principais alternativas de publicação que encontrei e contar minha experiência real como autora independente, pra você pesar prós e contras e decidir como publicar seu livro.

Vale ressaltar que eu sou jornalista e, apesar de nunca ter trabalhado no mercado editorial, já tinha interesse pela área. Também tinha já alguns contatos de boas profissionais pra contratar pra partes importantes do processo, e consegui reorganizar minhas demandas de trabalho pra passar alguns meses focada no livro.

Decidi fazer toda a produção editorial por conta própria, produzir livros físicos em grande tiragem e me ocupar também da divulgação e das vendas, o que não foi nada fácil. São muitas tarefas diferentes pra cumprir, muitas decisões a tomar e muito tempo de dedicação.

Por isso, vale considerar alguns dos outros caminhos que vou apresentar aqui. Ou, se decidir seguir como eu fiz, pelo menos você vai saber bem aonde tá se metendo, hehe.

Seja como for, recomendo que você se pergunte: quais são meus objetivos com essa publicação? Quero atingir muita gente, ou já fico feliz se meus amigos e familiares lerem meu livro? Meu maior desejo é construir autoridade num segmento? Busco algum lucro com as vendas? Tenho dinheiro pra investir? Já tenho um público construído? Quanto tempo tenho pra me dedicar ao processo?

No decorrer deste artigo, você vai conhecer alguns caminhos que podem ser mais ou menos interessantes a depender das suas respostas a essas questões.

como publicar um livro independente

Preciso de uma editora para publicar um livro?

Você já deve ter ouvido falar em histórias de autores que hoje são best sellers, mas tiveram seus manuscritos recusados por editoras dezenas de vezes antes de serem publicados. A britânica J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter, é um dos exemplos mais citados.

É possível fazer como ela e insistir em mandar seu livro pra editoras convencionais, torcendo que alguma delas se interesse em publicá-lo? Sim! Mas se você não for uma pessoa “de renome” ou tiver contatos nas editoras, é bem provável que seu manuscrito nunca seja lido.

Não leve a mal: as empresas recebem uma demanda enorme de publicações pra análise e têm equipes reduzidas. Além disso, o processo de edição e publicação de um livro, especialmente no formato físico/impresso, é custoso. E quando uma editora tradicional que assume esse processo, os custos são todos dela.

Por isso, as grandes editoras costumam escolher o que apresenta mais probabilidade de “dar certo”, como autores já reconhecidos ou tradução de livros estrangeiros com boa repercussão, por exemplo. Assim, elas têm mais chances de recuperar os investimentos que fizeram na publicação.

A boa notícia é que você não precisa de uma editora para publicar um livro. É cada vez mais fácil publicar um livro independente, como vou explicar aqui.

E se mesmo assim você tiver o sonho de ver sua obra com o selo de uma grande editora, uma publicação independente pode ser uma “porta de entrada”. Afinal, se essa primeira edição tiver boa repercussão e você for conquistando leitores, pode ser mais fácil chamar a atenção de editoras tradicionais para republicar o mesmo título ou publicar novos livros seus no futuro.

Por que publicar um livro de forma independente?

A publicação independente é uma forma de fazer com que as pessoas tenham acesso ao que você escreveu, mesmo que seu público seja potencialmente pequeno e não chame atenção de uma editora. Além disso, existem outras razões pra optar por esse caminho.

Ter total controle sobre sua obra

No meu caso, por exemplo, eu já tinha clareza sobre como queria que fossem vários aspectos do livro, e gostava da ideia de ter autonomia sobre a obra.

Quando existe uma editora envolvida, o autor muitas vezes não tem a palavra final sobre questões como projeto gráfico, capa e decisões ligadas ao conteúdo e à linguagem. Se você publica de forma independente, pode decidir por sua conta como quer que seu livro seja.

Vale ressaltar, no entanto, que isso pode ser um ponto negativo caso você não tenha segurança sobre as escolhas editoriais que pretende fazer e prefira contar com o apoio de alguém mais experiente.

Ter acesso à maior parte do lucro

Como falei acima, as editoras tradicionais não cobram pelo trabalho de edição, distribuição e divulgação do livro. Por outro lado, quase todo o lucro recebido com as vendas fica com elas.

Em geral, um autor recebe no máximo 10% do valor de capa de cada exemplar. Ou seja: se seu livro estiver à venda por R$ 50, você provavelmente vai lucrar até R$ 5 por cada cópia vendida.

Optar pela edição independente não significa que você vá enriquecer com as vendas do seu livro. Afinal, os custos envolvidos são muitos. Livros são produtos com margem de lucro baixa, especialmente se você optar pela versão impressa. Se seu principal objetivo for fazer dinheiro, provavelmente seria melhor optar por e-book ou mesmo gravar um curso, se for um livro de não-ficção.

Mas é possível, sim, ganhar um percentual bem mais alto que os 5% a 10% de uma publicação convencional. Falo por experiência própria: as vendas do meu livro estão longe de serem minha principal fonte de renda, mas rendem um valor razoável em comparação com o que receberia de uma editora.

Desvantagens da publicação independente

Gostou da ideia de ter total autonomia sobre seu livro e possivelmente ganhar um dinheirinho com ele? Ótimo! Mas é importante ter consciência das desvantagens envolvidas. Pra mim, existem duas questões principais a se considerar:

O investimento financeiro

Quando você faz o processo por conta própria, os custos envolvidos ficam por sua conta. E se você quiser fazer um trabalho profissional e de qualidade, são vários custos: edição ou leitura crítica, revisão, projeto gráfico, diagramação, design da capa, impressão, divulgação, distribuição…

Mas afinal, quanto custa publicar um livro independente? Queria ter um número exato pra te dizer, mas isso depende muito, como vou falar mais adiante.

Existem formas de baratear ou eliminar algumas dessas etapas acima, caso você pretenda fazer um livro mais simples ou seja menos exigente quanto à qualidade.

Por exemplo: pra mim, era muito importante contar com ótimas profissionais de design, edição e revisão e pagar a elas o valor que pediram, além de ter escolhido uma proposta de livro com projeto gráfico mais elaborado.

Mas conheço gente que fez livros com diagramação muito mais simples, pediu pra um amigo fazer a revisão, optou por uma impressão mais baratinha, escolheu um formato pequeno ou poucas páginas, entre outras soluções pra reduzir custos.

Uma possibilidade, caso você não tenha como investir um valor alto do seu bolso, é conseguir esse dinheiro através de um financiamento coletivo, que funciona como uma pré-venda. Também vou falar disso logo mais, porque foi o que viabilizou o lançamento do meu livro.

O trabalho envolvido

Além dos custos, outra questão importante pra quem resolve publicar um livro independente é que se você não tem uma editora, você é sua própria editora. Ou seja: você vai ter o trabalho que um profissional especializado teria.

Eu particularmente curti essa experiência, porque me interesso pelo mercado editorial; tanto que fiz cursos voltados ao tema, como o Vida do Livro, de Daniel Lameira, cofundador da Antofágica, e até mesmo Gramática para preparadores e revisores de texto, da Universidade do Livro.

Ainda assim, foi um baita desafio. Tive que buscar todas as prestadoras de serviço (revisora, diagramadora, editora, gráfica etc.), criar um fluxo de trabalho, acompanhar as entregas, solicitar ajustes, planejar a divulgação… Tudo isso enquanto concluía as tarefas “de escritora”, como as edições de texto sugeridas pela pessoa que contratei pra isso (minha “leitora crítica”).

Você pode também contratar alguém com experiência pra supervisionar todas essas etapas. Seja uma pessoa que tenha trabalhado em editoras ou que já tenha passado pelo processo de publicar um livro independente.

Caso resolva fazer tudo por conta própria como eu fiz, saiba que será preciso aprender muito sobre o processo editorial, incluindo questões técnicas da confecção de um livro.

Sem falar nas habilidades de gestão: você vai precisar de disciplina, organização e jogo de cintura pra gerenciar um projeto que envolve vários profissionais. Ao mesmo tempo em que administra as expectativas sobre como você espera que fique seu livro, que certamente é um sonho, né?

Caso você, assim como eu, não tenha experiência na área, nem dinheiro sobrando pra arriscar cometendo muitos erros, algumas decisões podem ser difíceis de tomar e gerar um bocadinho de estresse.

Definitivamente não é fácil, mas se você tiver tempo e disposição, vale a pena! E existem alternativas que simplificam um pouco o trabalho. Por exemplo, optar por uma publicação artesanal ou digital, como vou falar no próximo tópico.

Formas de publicar um livro independente

Decidiu que não vai mesmo recorrer às editoras tradicionais? Existem várias maneiras de publicar um livro independente, como os exemplos que vou explicar abaixo.

É possível misturar alguns aspectos de cada opção, ou ainda lançar seu livro inicialmente de um jeito e depois fazer novas tiragens de outras formas.

1. Publicação artesanal

Seu maior objetivo é ter seus textos nas mãos de algumas pessoas por aí, mesmo que não seja sob um formato de livro “tradicional”? Você gosta de trabalhos manuais e valoriza o aspecto “único” de uma obra? Que tal, então, publicar seu livro independente de forma artesanal?

Dependendo do perfil do seu livro, você pode até publicá-lo sob o formato de zine, – obras independentes e experimentais, geralmente reproduzidas por fotocópia e distribuídas gratuitamente. É uma boa alternativa pra quem quer publicar poemas e busca uma pegada mais artística, por exemplo.

Outra opção é imprimir as páginas do livro numa gráfica comum, ou mesmo na impressora de casa, e fazer a capa em encadernação artesanal. Existem vários tutoriais online de métodos de encadernação simples e baratos.

2. Publicação digital (e-book)

Um dos principais custos envolvidos na publicação de um livro independente é a impressão das cópias físicas do livro. Pra mim, que escrevi meu livro já pensando num projeto gráfico que faria muito mais sentido na versão física, com espaços pra completar e ilustrações, ter o livro impresso era inegociável. Mas pra muita gente, lançar primeiro em e-book pode ser uma ótima solução.

Você ainda vai ter que se preocupar com edição, revisão, capa e diagramação, além de aprender como funciona a distribuição digital, em plataformas como a Amazon – ou contratar alguém que entenda disso.

No entanto, vai economizar com os custos de impressão na gráfica, que “comem” boa parte do orçamento de um livro, e também não precisa se preocupar com os envios das cópias físicas.

3. Empresas que prestam serviços editoriais

Quer um livro impresso e com cara de “livro oficial” mesmo? Então vamos às opções sobre como tornar isso realidade. A menos trabalhosa é buscar uma prestadora de serviço, que muitas vezes se auto intitulam editoras, mas não são o mesmo que as editoras tradicionais.

Enquanto uma editora propriamente dita não cobra nada do autor, essas empresas são pagas pra cuidar de todas ou algumas etapas da publicação pra você, como diagramação, revisão, criação da capa e impressão. Algumas delas oferecem também serviços de divulgação, como assessoria de imprensa e participação em eventos e feiras.

Esse pode ser um caminho interessante se você não quer contratar os profissionais “avulsos” e não tem muito tempo pra se dedicar ao processo. Ou se você tem interesse apenas em alguma etapa, como o serviço de impressão, mas não quer investir numa grande tiragem numa gráfica tradicional.

Algumas dessas empresas trabalham com impressão sob demanda, em que cada vez em que alguém comprar seu livro, eles imprimem um exemplar e o enviam diretamente pra pessoa. Em outros casos, você pode solicitar pacotes de pequenas tiragens, tipo 50 ou 100 exemplares. No entanto, quase sempre o custo por exemplar vai ser bem mais alto que numa impressão em grande tiragem (500 livros ou mais).

Tem quem escolha essas empresas pelo fato de que elas costumam colocar um logotipo no livro, como se fosse a marca de uma editora, mas na minha visão isso não é bem uma vantagem: se não for o selo de uma editora tradicional, ter a logo ali não faz muita diferença.

Também existem prestadores de serviço desse tipo que prometem distribuir seu livro pra livrarias pelo Brasil e em Portugal e colocá-lo à venda nos seus sites, mas é bom ficar atento pra ver se as promessas são verdadeiras e se os acordos compensam.

Já vi algumas empresas que colocam o livro à venda nos seus sites, mas não fazem nenhum esforço de divulgação e pagam só 20% das vendas ao autor, por exemplo.

Recomendo comparar custos e benefícios oferecidos, ler direitinho os contratos, analisar alguns livros feitos pela empresa e procurar autores que tenham usado esses serviços pra saber como foi a experiência deles.

Existem casos em que os valores cobrados por serviços como revisão e capa são abaixo da média do mercado, e não por acaso os resultados podem ter qualidade questionável.

Além disso, pelo tipo de tecnologia usado pra impressão, a qualidade do livro pode ser inferior à de gráficas que imprimem grandes tiragens, usando métodos de impressão mais caros. Mas não dá pra generalizar, e dependendo do seu nível de exigência, pode ser suficiente pra você.

Como não usei serviços desse tipo, não tenho recomendações de empresas de confiança, mas existem muitas opções pra você comparar.

Um exemplo é o Clube de Autores, em que você manda o arquivo do livro pronto, informa o valor de venda e diz quanto quer receber de direitos autorais. O site vende o livro e faz o pagamento do seu percentual quando houver vendas. Eles também oferecem a opção de contratar serviços como revisão, diagramação, capa etc. pelo site Profissionais do Livro.

Outra opção é a Autografia. Um amigo publicou o livro dele lá, mas optou por pagar só pela impressão de uma pequena tiragem e contratar serviços de revisão, capa e diagramação com profissionais que ele já conhecia.

4. Impressão em grandes tiragens

Essa é a opção mais parecida com o que uma editora tradicional faria. Nesse caso, você administra todo o processo editorial por conta própria e contrata uma gráfica pra imprimir algumas centenas de exemplares do livro de uma só vez. Foi a opção que eu escolhi pra lançar meu livro.

As principais vantagens são a qualidade, já que se você optar por uma boa gráfica a impressão vai ter o mesmo nível que a de um livro feito por uma grande editora, e o custo por exemplar, que fica mais baixo quanto maior for a tiragem impressa.

Por outro lado, você vai precisar fazer um investimento financeiro mais alto, gerenciar o trabalho da gráfica, armazenar as caixas de livros e cuidar das vendas e envios.

E quanto custa imprimir um livro assim? Essa resposta vai depender de vários fatores: a quantidade de exemplares, o tipo de papel, a quantidade de páginas, o formato e tamanho, o tipo de encadernação, a laminação, se vai ter páginas coloridas ou só preto e branco, se vai ter “orelha” ou não… Pra comparar os valores e avaliar o que você pode pagar, recomendo pedir várias opções de orçamento pra as gráficas e compará-los.

A partir daí, você faz escolhas de acordo com o que é mais importante pra você e seu projeto. Por exemplo: eu optei por fazer um livro com orelha, mas abri mão das ilustrações coloridas que queria a princípio. Escolhi um bom papel, mas enxuguei algumas páginas pra o valor caber no orçamento.

Não faz ideia de qual papel ou formato escolher? Observe livros que tenham a ver com o seu, com um visual que você gosta, e veja na ficha técnica qual foi o tipo de papel usado. Muitas publicações trazem essa informação nas últimas páginas, assim como o nome da gráfica onde foram impressas.

Como eu fiz uma campanha de financiamento coletivo e garanti as vendas de mais de 300 livros na pré-venda, optei por mandar imprimir 1000 cópias, reduzindo bastante o custo de impressão por exemplar.

Caso você prefira sentir a recepção do seu público primeiro, ou não possa fazer um investimento tão alto, pode começar imprimindo uma tiragem bem menor, tipo 100 ou 200 exemplares. E, se for o caso, aumentar a quantidade numa reimpressão.

A gráfica que usei foi a Provisual, do Recife, minha cidade natal. Tive alguns problemas com eles na fase final, mas apesar disso fiquei satisfeita com o resultado.

Vale a pena orçar também gráficas em outras cidades do Brasil. Eu gostei muito do atendimento da Bartira, de Diadema (São Paulo), que imprime livros de várias editoras renomadas.

No entanto, optei por trabalhar com uma empresa local pra poder acompanhar o processo mais de perto e não me preocupar com a logística de envio. Nem sempre as gráficas oferecem o serviço de envio dos livros pra você, podendo ser necessário contratar uma transportadora por fora e lidar com possíveis imprevistos, além dos custos.

Seja como for, é bom procurar livros que tenham sido impressos pela gráfica e, se possível, conversar com autores pra saber como foi a experiência deles.

guia de viagens pra dentro e pra fora

Como publicar um livro independente por crowdfunding

Desde que decidi colocar em prática o projeto do meu livro, resolvi que ia viabilizá-lo por financiamento coletivo. Também chamado de crowdfunding, esse tal de financiamento coletivo é basicamente uma “vaquinha”. A ideia é juntar colaborações financeiras de várias pessoas pra, na soma dessas forças, fazer um projeto acontecer.

No caso de um livro, é como se fosse uma pré-venda. Só que além de oferecer a opção de compra antecipada do livro, geralmente com desconto em relação ao valor pelo qual ele vai ser vendido depois, você também pode criar outras recompensas, com diferentes valores de contribuição, pra chegar no valor que precisa pra custear o projeto.

Existem várias plataformas de crowdfunding que você pode escolher pra colocar o seu projeto no ar, como Catarse e Apoia.se. Eu escolhi a Benfeitoria e gostei da plataforma e do atendimento.

Em uns 40 dias de campanha online, consegui arrecadar R$ 30.502 com contribuições de 322 apoiadores, cobrindo assim os meus gastos com produção editorial, impressão, divulgação, recompensas extras que ofereci na campanha, os custos de transação financeira e a taxa da plataforma Benfeitoria.

Fazer uma campanha de financiamento coletivo dá bastante trabalho, mas optei por isso por várias razões. Primeiro porque já contribuí com vários projetos desse tipo e acho muito legal as pessoas se unirem pra fazer um sonho acontecer. Além disso, eu não tinha essa grana disponível pra arriscar, investindo no projeto do livro sem saber se ia conseguir vender o suficiente depois.

Outro ponto importante na minha decisão foi o fato de eu ter uma presença online há muitos anos e saber que muitos dos meus leitores aqui do blog e da minha newsletter e seguidores do meu perfil no Instagram apoiariam o lançamento do meu livro independente.

Não foi fácil: estudei muito sobre a dinâmica de uma campanha de crowdfunding, preparei bastante conteúdo de divulgação com antecedência e dediquei muitas horas à divulgação da campanha enquanto ela estava no ar.

Foi cansativo, inclusive emocionalmente, mas valeu MUITO a pena. Fiquei muito grata por ter condições de realizar esse sonho e lembrar que a gente chega bem mais longe de forma coletiva. E foi uma delícia ver o livro pronto sabendo que mais de 300 pessoas já estavam esperando por ele!

Pra te inspirar, olha aqui o vídeo que fiz pra divulgar a campanha:

Passo a passo para lançar um livro independente

Tá achando que essa história de publicar um livro independente dá muito trabalho? Dá mesmo! E o processo nem sempre é linear, já que cada projeto tem suas particularidades. Mas pra te ajudar a ter uma noção melhor das etapas, segue um resumo do caminho que eu percorri na publicação do meu livro:

1. Ideia

Tudo começou com uma ideia: o momento em que decidi que tipo de livro queria escrever, qual seria meu principal público-alvo e quais premissas eram inegociáveis pra mim (por exemplo, misturar diferentes gêneros de escrita, não me basear só em relatos pessoais e ter uma pegada lúdica).

É claro que tudo isso pode ir mudando no meio do processo, mas interessante ter em mente o perfil de leitor que você pretende atingir, quais são seus objetivos com essa publicação, qual vai ser o estilo de escrita usado etc.

2. Escrita

O processo de escrita propriamente dito é o coração do seu livro, ainda que pra um autor independente as outras etapas também exijam muito tempo e energia.

Cada autor tem seu método de escrita; é bom saber como outras pessoas fazem pra se inspirar, mas o que importa é o que funciona pra sua realidade.

Quando eu decidi de fato escrever meu livro, eu já tinha umas centenas de páginas de Word que acumulei durante anos, entre textos soltos que fui escrevendo, referências de outros livros, filmes e músicas, artigos daqui do blog que queria adaptar e pesquisas que fiz pra parte teórica.

Seja escrevendo ficção ou não-ficção, muita gente vai acumulando pedaços de textos, referências e insights durante o tempo. Um conselho que dou é criar um arquivo ou pasta pra salvar tudo no mesmo lugar, e assim não perder nenhuma ideia legal, nem ter retrabalho depois.

Partindo desse texto bruto, o que me ajudou muito a organizar as ideias e refinar o escopo do livro foi organizar tudo num software de escrita chamado Scrivener. Não sei o que teria feito sem ele! Recomendo muito. É pago, mas dá pra testar de graça e achei que vale super a pena.

3. Edição

Meu passo seguinte foi contratar uma pessoa pra fazer a “leitura crítica” do livro, ou seja, editar o texto. Contei com a ajuda essencial de uma pessoa muito competente que conheci online: Paula Medeiros, do projeto Chicas e Dicas. O principal trabalho dela era fazer sugestões de ajustes no texto, mas ela também me ajudou a definir o projeto gráfico junto com a designer.

Montei com Paula um cronograma e de tempos em tempos ela me enviava um capítulo com comentários, sugerindo ajustes de linguagem, mudança na ordem de alguns trechos, supressão de outros, coisas pra acrescentar…

Pra mim, essa foi uma etapa essencial, já que depois de tanto tempo trabalhando no meu próprio texto eu não conseguia mais ter uma visão “macro” pra entender se aquilo também faria sentido pra outras pessoas, hehe.

Além disso, ter a opinião de uma profissional com experiência no mercado editorial me deu mais confiança pra colocar esse projeto no mundo, entendendo que ele estava interessante o suficiente pra quem mais importa: o público.

Ah, nesse processo eu também “bati o martelo” em relação ao título e subtítulo que tinha pensado inicialmente.

Não se esqueça também dos textos pra as orelhas do livro (se houver) e pra quarta capa (contracapa), que podem ser escritos pelo autor ou por terceiros.

4. Projeto gráfico e capa

Em paralelo à edição do texto, contratei a designer Iara Adeodato pra pensar o projeto gráfico e a capa do livro. Projeto gráfico é a “carinha” do livro: as fontes usadas, tamanhos, posicionamento na página, ilustrações (se houver)… Enfim, todos os elementos visuais, que devem estar alinhados ao conteúdo e aos objetivos do livro e influenciam bastante na experiência de leitura.

A capa pode ser criada por outra pessoa, mas eu fiz tudo com a mesma profissional. É importante dedicar atenção a essa etapa, já que a capa é a primeira coisa que as pessoas veem e pode fazer a diferença pra alguém se interessar em pegar seu livro numa prateleira ou compra-lo numa loja online.

capa completa do livro guia de viagens pra dentro e pra fora

5. Diagramação

Depois que o texto estava editado (o que incluiu várias idas e vindas dos capítulos entre Paula e eu) e que aprovei o projeto gráfico, enviei o arquivo de Word pra designer responsável pela diagramação (que no meu caso também foi Iara Adeodato, mas pode ser uma pessoa diferente se você preferir).

Nessa etapa, o profissional de design pega o texto do Word e coloca num software especializado pra diagramação de livros (geralmente o Adobe InDesign), seguindo o projeto gráfico pré-definido e organizando o conteúdo pra que a leitura seja agradável.

Mais do que simplesmente colocar as palavras na página, o diagramador tem que se atentar à hierarquia visual (tamanhos e pesos das fontes de textos e títulos), margens da página, espaçamento entre linhas e entre parágrafos e elementos visuais que podem ajudar a organizar tudo isso.

O resultado final vai ser um arquivo em PDF, gerado pelo designer nas especificações adequadas pra impressão na gráfica. Ou, se você for fazer um e-book, um arquivo digital finalizado em formatos como ePub e Mobi, que permitem a melhor experiência de leitura em dispositivos como o Kindle, da Amazon.

6. Revisão

Vejo muitos autores independentes subestimarem a importância de uma boa revisão de texto. Como trabalho com revisão e edição, tinha uma exigência alta em relação à qualidade do texto final do meu livro e consciência de que todo escritor deixa passar erros, redundâncias e incongruências.

Tem quem peça pra um familiar ou amigo fazer a revisão. De fato, ter um par de olhos “frescos”, sem o olhar viciado de quem já releu o mesmo texto várias vezes, já ajuda muito. Mas se você quer um resultado profissional, recomendo muito contratar um revisor experiente.

Em editoras tradicionais, geralmente há várias etapas de revisão e também o que se chama de “preparação de texto” ou “preparação de originais”.

A preparação é uma leitura que busca não só erros de ortografia e gramática, mas também problemas de coesão, clareza e fluidez textual, adequação ao contexto, questões de estilo e padronização. Essa etapa é feita com o texto ainda em Word.

Como eu trabalho com escrita, meu texto não exigia mudanças muito drásticas, e minha “leitora crítica” assumiu essa função de preparação.

Outra etapa importante de revisão acontece quando o livro já está diagramado, usando como base o arquivo em PDF.

Nessa fase, os problemas textuais já são bem menores, e o revisor vai se atentar mais a detalhes como padronização de negritos, itálicos, caixa-alta e baixa, numeração do índice de acordo com o miolo e ver se existem “viúvas” ou “órfãs” (linhas e palavras que ficam “sobrando” na diagramação). Além de dar, também, uma nova olhada em questões de ortografia, coesão, concordância e tal.

Pra essa fase, eu contratei a revisora Eugênia Souza, que fez um trabalho excelente. Depois dos apontamentos dela, a designer fez as “emendas” (ajustes) no arquivo original, salvou um novo PDF e eu verifiquei cada um dos pontos várias vezes. O trabalho parece infinito, hahah. Mas vale a pena!

7. Formalização

Entra em cena, então, a parte burocrática pra seu livro vir ao mundo oficialmente, antes de enviá-lo pra gráfica. A não ser que esteja fazendo uma publicação artesanal e informal, você deve solicitar o ISBN e a Ficha Catalográfica do livro.

O ISBN é como o número de identidade do livro, pra que ele seja localizado em livrarias ou online. Ele aparece na Ficha Catalográfica, que fica no início do livro, e também no código de barras, impresso na quarta capa da publicação.

A Ficha Catalográfica é obrigatória por lei pra publicações não periódicas. Nela aparecem informações como título do livro, autor, data e local da publicação e assunto. Essa ficha deve ser feita por um bibliotecário matriculado no Conselho Regional de Biblioteconomia e inserida pelo diagramador na página de créditos, no verso da folha de rosto.

Quando já tiver o arquivo do livro quase pronto, é só solicitar tanto o ISBN quanto a Ficha Catalográfica pela internet, de uma vez só, pelo site da Câmara Brasileira do Livro (CBL). É só criar uma conta, preencher as informações solicitadas, pagar as taxas e aguardar alguns dias pra receber a ficha por e-mail. E aí você manda as informações pra o designer incluir na arte e finalizar o arquivo final.

8. Impressão ou publicação online

O arquivo do livro está pronto? Parabéns! Agora é hora de mandar pra gráfica os arquivos em PDF do miolo e da capa, que serão impressos separadamente. Geralmente as gráficas fazem primeiro uma “boneca”, ou “prova” pra você checar se está tudo certinho e autorizar a impressão da tiragem completa.

Se a publicação for online, verifique os procedimentos pra publicação na Amazon ou outra plataforma que você escolher.

9. Divulgação

Pensa que acabou? Ainda não! Quando o livro estiver disponível pra compra em versão e-book ou você receber as caixas com os exemplares impressos, é preciso fazer com que as pessoas saibam dele e queiram compra-lo, né? Começa, então – se você já não começou antes, na pré-venda – a etapa de divulgação.

Se você quer publicar um livro independente, mas não gosta ou tem dificuldade de vender as coisas que faz, saiba que precisará superar isso, ou ficará com livros “encalhados”, sem leitores.

A não ser que possa pagar pra que alguém se encarregue totalmente da divulgação, você vai precisar ter noções de marketing e correr atrás das vendas por conta própria.

Existem muitas formas de divulgar um livro independente. Dá pra escrever um artigo completo só sobre isso. Olha algumas sugestões:

  • Criar um perfil no Instagram e produzir conteúdo relacionado ao livro;
  • Fazer anúncios pagos no Instagram, Google Ads etc.;
  • Contratar uma assessoria de imprensa pra entrar em contato com veículos de comunicação tradicionais e influenciadores;
  • Escrever releases e fazer contato com jornalistas e produtores de conteúdo pra internet por conta própria;
  • Participar de feiras e eventos presenciais.

10. Vendas e distribuição

E agora que as pessoas sabem sobre meu livro, como faço pra vendê-lo? Pra essa etapa também existem muitas possibilidades.

Você pode contratar uma empresa especializada em distribuição de livros, que fica responsável por oferecer seu livro pra livrarias pelo Brasil; pode abordar livrarias e outros pontos de venda por conta própria; pode criar uma loja online ou uma página do PagSeguro ou similar e fazer as vendas pela internet…

Atualmente, o meu livro está à venda numa loja online que montei na plataforma Iluria e eu mesma faço os envios pelos Correios semanalmente, pra todo o Brasil. Também entrei em contato diretamente com pontos de venda físicos em diferentes cidades, como Recife, Fortaleza, São Paulo e Curitiba, e fiz com cada lugar um acordo pra vendas em consignação.

Existem prós e contras em cada opção, então recomendo pesquisar os custos e esforços envolvidos pra avaliar como vender seu livro. Se for ficar responsável pelos envios, invista em uma embalagem que proteja bem o conteúdo e considere os custos de embalagem e transporte no preço de venda.

Vale saber que os Correios têm uma modalidade de envio especial pra livros e outros itens impressos, chamada “Impresso Módico”. Nesse tipo de envio, o valor de frete depende apenas do peso do livro, e não da distância. Ou seja: você paga o mesmo valor pra mandar seu livro pra qualquer endereço do Brasil.

livros preparados para envio

Você não precisa publicar um livro

Eu tinha o sonho de publicar um livro físico há muitos anos. Vê-lo exposto em prateleiras de livrarias e principalmente nas mãos de leitoras e leitores pelo Brasil e pelo mundo tem sido uma delícia! Mas se você não quer ou não pode encarar essa empreitada de publicar um livro independente agora, não significa que não possa ser lido.

Muito antes de ter meu livro no mundo, eu já tinha centenas de milhares de leitores aqui neste blog e te garanto que isso também é muito recompensador.

Se a ideia é fazer com que as pessoas encontrem seus textos e sejam impactadas por eles, é possível começar um blog, usar plataformas como o Medium ou criar uma newsletter, por exemplo. Tanto como um fim em si mesmo, quanto como um meio pra fidelizar leitores e construir autoridade, facilitando o lançamento de um livro no futuro.

Seja como for, não deixe suas ideias numa gaveta! Ao jogar seus escritos no mundo, mesmo que isso provoque insegurança, você vai poder curtir uma das partes mais gostosas do processo: vê-los ganhar novas perspectivas e se enriquecerem a partir dos olhares de cada leitor. É bom demais. :)

Gostou dessas dicas sobre como publicar um livro independente?

Passei muitas horas escrevendo um artigo bem completo pra poder ajudar outros autores, com informações que penei pra encontrar por aí.

Se quiser e puder retribuir a ajuda, você pode contribuir com meu trabalho comprando meu livro “Guia de viagens pra dentro e pra fora: como viajar de forma transformadora e responsável”.

E se precisar de mais orientações sobre o processo de escrita, produção editorial ou financiamento coletivo, você pode pedir um orçamento de consultoria personalizada pelo e-mail luisa arroba janelasabertas.com.

Boa sorte com seu projeto de livro independente! Se seguir alguma dessas dicas, me conta aqui depois.

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2 Comentários

  1. Larissa

    Amiga, voc6e é perfeita. Entenda. A didática, minha gente. Que passo a passo!

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