Viagem pra Dentro

Um viva aos romances de viagem: por mais entrega na “vida real”

Cheguei tarde da noite, suada e descabelada depois de horas esperando o ônibus atrasado embaixo de um viaduto, mais algumas horas tentando dormir num assento apertado e uma longa caminhada com as duas mochilas desde a estação de metrô. A pessoa menos paquerável do universo, basicamente. Deixei as coisas no quarto e fui conhecer os que seriam meus colegas pelas próximas duas semanas. Depois de algumas horas de conversa madrugada adentro com um deles, mandei mensagem pra uma amiga: “acabei de conhecer alguém que ou vai virar um grande amigo ou algo mais” (acho que usei um termo mais jovem, mas vocês entenderam).

Na manhã seguinte, pulei num trem com ele pra um bate-volta até cidades próximas. No outro dia, já tava claro que ele tava interessado na segunda opção que mencionei pra tal amiga. Pouco tempo depois, entrávamos juntos num ônibus pra passar uns dias em outro país. Na despedida, um aperto no coração, algumas lágrimas e a gratidão por ter vivido 15 dias daqueles que marcam a vida.

Quase todo mundo que tá solteiro e passa um tempo na estrada coleciona alguns “romances de viagem”. Teve o brasileiro que mudou de rota pra reencontrar a argentina que tinha cruzado seu caminho uns dias antes. Teve a menina que foi pra o deserto procurar trabalho por sugestão de um amigo, acabou ficando com esse amigo e dois dias depois se mudou pra casa dele – seguem por lá até hoje, com a própria agência de viagens.

Teve o casal que se conheceu num cemitério, em pleno Dia de Mortos, e acabou casando. Teve o português que passou duas semanas com uma francesa na Hungria e se mudou pra Alemanha pra ficar perto dela. Teve a brasileira que conheceu um espanhol de Bilbao estudando inglês na Inglaterra, quando ambos ainda não tinham nenhum idioma em comum, e acabou indo morar com ele em Barcelona.

Teve um monte de casal que ficou junto até morrer, muitos outros que jamais se viram de novo, alguns que se reencontraram e viram que não tinham futuro e outros que mantiveram contato e viraram grandes amigos.

romances de viagem

Vamos jogar a real aqui, que ninguém acredita em conto de fadas: é claro que quando estamos viajando tudo tende a ser mais leve e mágico, os probleminhas da “vida real” são esquecidos e é muito mais fácil ver belezas que defeitos. Também é fato (bem discutido e representado em filmes, livros e textões do Facebook) que o começo de qualquer romance envolve muita ilusão. É verdade, sim, que esse encantamento que acontece na estrada muitas vezes tá fadado a morrer ali, não encontrando lugar na bagunça do dia a dia.

Ainda assim, acho massa essa entrega que vejo tanto em viagens. Tanto em relação a amizades (quem nunca dividiu a vida inteira com alguém que conheceu no hostel ou no trem?) quanto à parte mais romântica da coisa. O tempo é curto, o coração tá aberto, a bagagem (metafórica) de cada um tá bem distante. Misture tudo isso com uma conexão especial, deixe ferver por uns cinco minutos e o resultado vai ser uma história delícia (sim, vou usar essa metáfora culinária barata, desculpa aí).

Aí vem minha sugestão de prato do dia, pra todos os dias: por que não adaptar essa receita pra “vida real”? Afinal, você pode muito bem substituir os joguinhos, o medo e a indiferença por um punhado de entrega, vulnerabilidade e coragem de ir a 200 km por hora mesmo sabendo que talvez tenha um muro lá na frente.

Pode jogar no lixo de não recicláveis o “não vou chamar pra sair porque da última vez fui eu que chamei”, o “não vamos sair juntos três dias seguidos porque parece namoro” e o “vou fingir que não tou nem aí, pra não parecer que vou me apaixonar ou evitar que isso aconteça”. E acrescentar, em troca, umas boas doses de vontade, sinceridade e – por que não? – intensidade.

romances de viagem

Pode deixar de fora ingredientes inúteis como o tipo de roupa, a maquiagem ou falta dela, o bairro onde mora ou a profissão que exerce e se concentrar no que o outro tem pra compartilhar. Pode não esperar condições ideais e improvisar com o que estiver disponível na geladeira. Sim, sempre tem chance de a receita desandar, mas sabe o quê? Se der certo, uma noite (ou um punhado delas) pode valer por uma vida inteira.

Tá certo que cada um tem seus traumas e prioridades, além da liberdade pra decidir quando e até que ponto se envolver. Mas qualquer receita azeda facilmente se estiver temperada pelo medo, pelo apego à zona de conforto, pelos joguinhos que regem as relações românticas ou por julgamentos externos.

Mais uma vez, vale até pra amizades: aquela pessoa legal que você conheceu numa festa pode parecer meio stalker se te chamar pra almoçar, passear ou (imagina só!) viajar pra outra cidade no dia seguinte. Ou parecer louca se começar a conversar sobre a vida, o universo e tudo o mais na fila da farmácia. Mas e se a conversa for boa? E se vocês só tivessem dois dias juntos no mesmo lugar? Não valeria a pena aproveitar?

A gente costuma saber quando vai terminar a viagem, ou quando nossos caminhos vão se separar, e facilmente se abre pela urgência de viver o momento. Mas, no dia a dia, mais facilmente ainda se engana ao pensar que a vida é infinita e que ficar vulnerável é vergonhoso. Por isso, um viva aos romances de viagem. E outro viva a quem não precisa ir longe de casa pra se jogar, quando o coração dá pistas de que vale a pena.

Crédito das fotos do post: Pexels – licença Creative Commons Zero (CC0)

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10 Comentários

  1. Roberta

    Que texto lindo demais! Se joga sim! E depois ‘levanta, sacode a poeira e dar a volta por cima!’ 😊😘

  2. Rejane

    Muito bom, Lu. Viva o amor. Que seja infinito enquanto dure!

  3. Camila Lemos

    Melhor texto. <3

  4. Amei demais!!! Concordo muito e tbm já vivi isso. Amores de viagens são melhores que esses amores com freio que as pessoas têm oferecido por aí. Esse texto seu me lembrou dois textos do meu blog: Gente que diz sim e Saber do Fim. Fica também o convite para dar uma olhada. :)

    • Oi, Lívia! Que massa que você gostou, se identificou e também aproveitou pra se jogar aí pela vida <3 Tou em trânsito agora, mas vou olhar teus textos, sim! Obrigada pelo comentário :)

  5. Lays Barbosa

    Poxa, que texto massa <3

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