Viagem pra Dentro

Sobre (re)aprender a andar de bicicleta aos 27 anos

Viagem pra Dentro | 25/10/16 | Atualizado em 25/07/19 | 2 comentários

“É como andar de bicicleta, a gente nunca esquece!”. Sempre tive a impressão de que a pessoa que cunhou esse ditado não deixou de pedalar pouco depois de aprender e ficou longe de uma bike até os 27 anos. Tá certo que a memória motora deixa alguma coisa guardada lá no fundo da mente, que vem à tona na hora do vamos ver. Mas quando você é descoordenada e sedentária, a coisa pode não ser assim tão simples. E esse era, como vocês devem estar imaginando, o meu caso. Até esse mês. \o/

Contextualizando: eu tive uma infância meio “de apartamento”, criando mil brincadeiras com uma criatividade que nem acredito que tinha, mas sem muito contato com atividades físicas/ao ar livre. Como resultado, tive poucas oportunidades pra pedalar por aí.

Corta pra 2009. No meu segundo intercâmbio, em Sevilha, fui apresentada ao maravilhoso mundo das bicicletas compartilhadas, que lá se chamam Sevici. Meus compañeros de piso fizeram logo os cartões pra usar as tais bikes públicas e lá iam eles pedalando pra o bar ou o parque, enquanto eu pegava ônibus.

Corta pra 2012. Sabendo que em Lyon, onde eu ia fazer o terceiro intercâmbio, rolava o mesmo esquema de bicicletas, resolvi aprender antes de viajar. Chamei um amigo pra me ensinar, mas a situação não era muito propícia: atrasada pra o trabalho, tinha pouco tempo sob o sol quente, num estacionamento irregular e usando uma bike meio desconfortável. Depois de alguns minutos, consegui ir em frente, mas desisti na hora de fazer a curva. Shame on me. Passei todo o tempo em Lyon sem curtir a cidade sob duas rodas, na companhia de uma amiga que também não se dava bem com esse meio de transporte.

Corta pra 2013. O tal esquema de bikes compartilhadas chegou no meu Recife e as ciclofaixas de domingo não só foram criadas, como ficaram super na moda. Várias amigas compraram bicicletas e prometeram que me ensinariam a andar. Mas o tempo passou e nada. Me esqueci disso, e quando lembrava, visualizava criancinhas de seis anos passando por mim em alta velocidade e rindo da minha cara enquanto eu me estrebuchava no chão. E deixava pra lá.

Corta (juro que é a última vez que digo isso) pra 2016. Decidi que esse ano resolveria isso. Passei alguns meses esperando que uma amiga me ajudasse a aprender, mas ela tinha a rotina dela e eu tinha a minha – e também muita preguiça. Descobri a Escola Bike Anjo e pensei em ir pra uma aula, mas acordar cedo no domingo depois da farra era difícil. Até que, durante uma bad depois de um fim de relacionamento, eu decidi que não ia mais adiar.

Num sábado, ainda antes de sair da cama, vi um vídeo do Bike Anjo no Facebook pra me inspirar e fiz meu cadastro no Bike PE. Peguei uma das bicicletas laranjinhas com a hashtag #issomudaomundo (parece que nesse caso muda mesmo) e fui pra um estacionamento.

Era ou vai, ou racha. Passei alguns minutos sentada na bike e me movendo com os pés no chão, sem coragem de apostar no equilíbrio e pedalar. Aí me lembrei de um blog gringo em que uma menina falava que sempre tinha pensado que não era capaz de andar de bicicleta por ser totalmente descoordenada, até que resolveu tentar e percebeu que isso era uma mentira que ela vinha contando pra si mesma. Aí deixei de mimimi e pedalei.

Não vou dizer que rolou um momento de iluminação divina do tipo “oh, eu sabia fazer isso, estava adormecido dentro de mim” porque eu ainda fiquei vacilante por um tempo e precisei de mais uma meia hora pra ter coragem de fazer uma curva. Mas depois de umas duas horas andando em círculos entre os carros eu tava achando superdivertido esse negócio e sem acreditar que eu tava em cima de uma bicicleta (e sem cair!). Uma vitória que pode parecer ridícula pra você que tá lendo, mas que pra mim era motivo de um orgulho desses bem grandes.

Porque eu tive medo, vergonha e preguiça. Esperei que alguém me ajudasse, esperei o dia em que os astros convergissem e que todas as condições fossem perfeitas. Até que desisti de esperar, não pensei muito e vi que era mais simples do que eu pensava. E que eu podia fazer sozinha – assim como tanta coisa nessa vida.

Tive um pouco de dificuldade pra aprender a dirigir e hoje fico feliz por pegar horas de estrada com relativa tranquilidade, mas esse (re)aprendizado da bike foi muito mais legal. Porque dirigir nunca curti muito, mas às vezes é preciso. Com a bicicleta a história é diferente: no meu caso, não é necessidade. É simplesmente algo legal, que eu tava a fim de fazer por mim.

Ainda tenho um caminho pela frente até me sentir 100% segura em cima de uma magrela (o que a pessoa não escreve quando não quer repetir palavras, né?). Mas vou seguir esse caminho, com meu jeito meio desastrado de ser. E tudo bem. Mesmo se eventualmente eu cair e alguma criança de seis anos rir de mim. ;)

Porque além dos benefícios pra o meio ambiente, melhora do condicionamento e o escambau, preciso confessar: desde criança não me divertia com algo que exige esforço físico (além de caminhar pra ver coisas legais mundo afora). E quer coisa melhor na vida do que superar seus medos e ainda curtir o processo? Sair pra andar de bike aos domingos e feriados tem sido, pra mim, uma das melhores partes da semana.

Qualquer que seja a “bicicleta” da sua vida – desenhar, surfar, dançar balé, dirigir, fazer teatro, whatever – espero que você deixe de adiar também. E que, se gostar, continue fazendo, mesmo que a princípio fique tudo meio tronxo, inseguro e sem jeito. Porque é só pra você e pra mais ninguém.

Crédito da foto em destaque: Pexels – Licença CC0

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2 Comentários

  1. Sarah

    Ai, Luísa, que pena que não rolou essa libertação nos teus tempos de intercâmbio :( Mas que bom que esse dia chegou =D A gente tem que parar de se deixar levar pelas desculpas e pelo comodismo, né? Eu sou meio medrosa, mas encarei o tour de bike nas vinícolas de Mendoza, Argentina, graças ao meu amigo que é ciclista e me meteu nessa, foi muito divertido! Mas ainda não tive coragem de entrar no mundo dos pedais :P. Enfim, que aproveites muito essa nova fase ;)

    • Oi, Sarah! Pois é, mas antes tarde do que nunca, né? :P Que delícia deve ser esse tour de bike nas vinícolas! Ontem aluguei uma bicicleta em Paquetá e fui tão, tão, tão feliz pedalando com ela pelas ruazinhas de lá :) Obrigada pelo comentário! <3

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