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Stasilândia: como funcionava a polícia secreta alemã

Livros | 23/12/13 | 2 comentários

“O trabalho deles era saber tudo sobre todos, usando quaisquer meios que escolhessem. Eles sabiam quem lhe visitava, para quem você telefonava, e sabiam se sua mulher estivesse lhe traindo”. 

Meu conhecimento de história nunca foi muito além das boas notas na escola, mas acho que ver o mundo ao vivo provoca um impulso quase inevitável de tentar entender o que fez as coisas estarem como estão. Nos últimos tempos, me vi fascinada pela vida na Alemanha Oriental, como já mencionei no post sobre o DDR Museum, um dos museus mais legais que visitei em Berlim.

Coincidentemente, pouco tempo depois de viver a Alemanha pela primeira vez eu dei de cara com um livro que viria a ser um dos meus preferidos dos últimos tempos: Stasiland. No Brasil, ele foi lançado pela Companhia das Letras com o título Stasilândia: Como funcionava a polícia secreta alemã.

Esse foi o primeiro livro da australiana Anna Funder, escrito enquanto ela trabalhava respondendo a cartas dos telespectadores em uma emissora de TV em Berlim. A obra de não-ficção nasceu a partir da inquietação da autora, que queria saber mais sobre a vida dos Ossi (alemães do leste) sob o domínio e a vigilância dos Stasi.

O nome é a versão encurtada de Ministerium für Staatssicherheit (Ministério para a Segurança do Estado), a opressora polícia secreta que vigiava tudo e todos na Alemanha Oriental. E quando eu falo “tudo e todos” não é exagero: algumas estimativas afirmam que havia um espião – remunerado ou não – pra cada 6,5 pessoas.

Como bem define uma crítica citada na capa da edição americana, o livro é uma obra-prima de análise investigativa escrita quase como um romance. Usando várias pequenas histórias pessoais e emocionantes, Anna nos faz imaginar um pouco melhor o que tava por trás dos grandes fatos da história que moldaram a Alemanha desde que ela foi dividida em duas.

Anna Funder conta sobre a vigilância, a propaganda, as vítimas e a resistência na vida sob o domínio dos Stasi.

Anna Funder fala sobre a vigilância, a propaganda, as vítimas e a resistência sob domínio dos Stasi.

O relato é ao mesmo tempo uma viagem pela tal Stasilândia – ou melhor, pelas vidas dessas pessoas que foram manipuladas e cerceadas pelo sistema de vigilância mais absurdo da história – e pelo percurso jornalístico e pessoal que levou a autora a essas descobertas. Em um segundo estamos em Berlim, no inverno de 1996, em um apartamento grande e vazio com bêbados e punks do lado de fora, onde Anna morou durante a apuração.

Na página seguinte, ela nos transporta para a Alemanha oriental antes da queda do muro, pra história desses personagens tão reais que pareciam estar sentados junto a mim enquanto eu lia. Relatos da história de um país e de um regime político – como da noite em que a população tomou conta do quartel-geral dos Stasi, em 1990 – se misturam às narrativas sobre um estilo de vida, um modo de pensar, um estado de coisas que é tão recente e ao mesmo tempo parece distante pra quem não o viveu.

Página após página, conhecemos os percursos de pessoas que foram impedidas de estudar ou trabalhar porque eram vistas como inimigas do Partido. Mortes inexplicadas, adolescentes detidas e torturadas por espalhar folhetos, tentativas de fuga e estratégias de espionagem tão absurdas como armazenar potes com objetos pessoais dos cidadãos e usar cachorros pra reconhecer os cheiros e determinar a presença de alguém em algum lugar.

E Anna Funder também ouve o “outro lado”: depois de colocar um anúncio no jornal pra encontrar fontes, ela conversa com ex-Stasi e escuta as histórias deles. Entre esses personagens está o cartógrafo que pintou a linha onde o muro seria construído, e que passou a manter em sua casa uma espécie de arquivo do muro.

Na figura desse homem, Hagen Koch, observamos como a ideologia da RDA (República Democrática Alemã) era forçada nas mentes das pessoas. “A RDA era como uma religião. Foi algo em que eu fui criado para acreditar”, afirma Koch. Afinal, de mãos dadas com o sistema que controlava o dia a dia de todo cidadão estava a superpoderosa propaganda. E tão absurdo quanto ler sobre as vidas que foram destruídas em nome dessa ideologia é tentar entender, com a ajuda de Anna, o que se passa pela cabeça de quem fazia parte do aparato de opressão.

No meio de tudo isso, uma constatação: o muro e o que ele representou ainda existem. “O Muro persiste na mente dos Stasi como algo que eles esperam que exista novamente algum dia, e nas mentes das vítimas deles também, como uma assustadora possibilidade”, conclui a autora. A consciência dessa possibilidade é fundamental, como nos ensina a história.

Eu tou indo pra o terceiro estágio do curso de alemão e ainda sou incapaz de manter uma conversa complexa na língua, mas situações como as que vivenciamos através do livro me dão ainda mais vontade de desvendar esse idioma tão bonito – e igualmente complicado -, que guarda nele, como todos os outros, tanta coisa sobre a história e a personalidade do seu povo. Uma história intrigante, marcada por opressão, feridas, luta e reconstrução.

Recomento a leitura de Stasiland pra quem quiser se sentir pegando o metrô na Alexanderplatz e ter uma aulinha de história ao mesmo tempo.

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2 Comentários

  1. Miriam

    Pra quem se interessa pelo assunto, sugiro assistir ao filme A VIDA DOS OUTROS. É uma obra prima, belíssimo, vale muito a pena.

    • É verdade, Miriam! :) Boa dica. Um abraço!

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