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Pedal na Estrada: Três anos dando a volta ao mundo de bike

Livros | 11/09/12 | Atualizado em 20/06/16 | 4 comentários

“O mundo não é tão perigoso quanto mostram na televisão”, garante Arthur Simões, 30 anos, fotógrafo e nômade. E se ele tá dizendo, pode confiar: entre 2006 e 2009, Arthur deu uma “volta ao mundo” (roteiro aqui) sozinho, de bicicleta. É claro que não foi moleza. Ele sofreu dois acidentes, foi hospitalizado com problemas gastrointestinais na Índia e passou por momentos de pânico fugindo de pedradas na Etiópia, entre outros apuros. 

Ainda assim, ele afirma que tudo valeu a pena. “A cada dia eu via pessoas e paisagens diferentes. Era incrível poder viver tão intensamente”, relata. Pra ele, o maior impacto da viagem foi a gentileza de quem encontrava pelo caminho. “Sempre me ajudaram muito. As pessoas me recebiam em casa e me davam presentes. Chegaram a me parar na estrada pra me dar uma arma, pra eu me proteger”, conta.

Fotos: Arthur Simões

Mas espera aí: como foi isso? Mais uma vez, tou pulando o começo da história. Senta aí que eu conto. O ano era 2006. Aos 24 anos, Arthur Simões era bacharel em direito, mas não exercia a profissão. Em vez disso, dava aulas de ioga e sonhava em viajar. Até que surgiu a ideia de unir o sonho a uma paixão que alimentava desde criança: andar de bicicleta. Só o que faltava era dinheiro (ok, não é bem um detalhe), mas isso não o fez desistir. Determinado, Arthur decidiu correr atrás de patrocínio, batendo de porta em porta até achar quem topasse bancar a viagem. 

Pra consegui-lo, teve a ideia de criar o site Pedal na Estrada, onde registrou costumes e curiosidades dos lugares visitados em textos, imagens e vídeos. A ideia era usar o material como fonte de informação em escolas de todo o Brasil. O projeto educativo deu certo, mas a viagem foi além. Ela mudou a vida de Arthur, que no percurso descobriu-se fotógrafo, profissão que agora pratica, e mudou sua visão de mundo. 

Farol embeleza paisagem na Austrália
Foto: Arthur Simões

A viagem terminou em 2009 e, depois de 37 mil km rodados em 46 países durante três anos e dois meses, não faltam histórias pra contar. “Viajando sozinho, você tem uma imersão maior em cada cultura. Fui em lugares incríveis que não costumam receber turistas, como Mianmar e Iêmen. Tudo era muito autêntico, foi impressionante.” Pra potencializar ainda mais essa imersão cultural (e economizar dinheiro), quando possível Arthur se hospedava na casa de habitantes locais. “Não há melhor forma de ver como as pessoas vivem do que estando dentro da casa delas”, explica.

E além do site e das palestras que ele dá mundo afora, a viagem foi materializada em forma de livro, como eu contei antes. Lançado no fim de 2011, O Mundo ao Lado traz relatos sobre o longo percurso, incluindo trechos de diários escritos na época. O livro peca em alguns aspectos, principalmente a revisão – errinhos de ortografia e de digitação não são poucos, infelizmente -, mas é muito interessante ver o que passou pela cabeça de um jovem que resolveu deixar pra trás uma vida confortável e passar mais de três anos sozinho (com exceção de breves intervalos em que algum amigo ou recém conhecido o acompanhava), vivendo em condições não muito agradáveis.

Não pude deixar de pensar que, em muitos momentos, Arthur poderia ter tido mais cautela – afinal, se arriscar nem sempre é necessário pra ter uma “experiência autêntica”, e partir pra uma volta ao mundo sem cuidados básicos como tomar as vacinas necessárias não é exatamente a coisa mais inteligente a se fazer, como ele mesmo pôde constatar. Em alguns momentos, me pareceu que ele estava mais lutando por sua sobrevivência do que qualquer outra coisa. Por outro lado, seus relatos me inspiraram a relativizar os inevitáveis perrengues e exercitar a flexibilidade diante das situações que a viagem nos apresenta

Sozinho e concentrando boa parte do roteiro em países pouco amigáveis a turistas (em muitos deles, conta, era visto como uma nota de dólar ambulante), cada dia era um desafio pra Arthur e exigia uma boa dose de adaptação aos costumes locais. Constatar que ele conseguiu resolver tais desafios (contando, às vezes, com uma boa dose de sorte) faz pensar duas vezes antes de reclamar pelo atraso de um voo ou algo do tipo.

As condições do barco que o levou do Iêmen a Djibouti não eram as melhores…
Foto: Arthur Simões

A hospitalidade foi marcante no Iêmen
Foto: Arthur Simões

Entre outras coisas, Arthur pôde observar a diferença na forma como é tratado o povo original da Austrália, os aborígenes, e os nativos da Nova Zelândia (esses últimos, conta, são mais respeitados e inseridos na sociedade). “Os aborígenes estavam ainda fortemente ligados a seus costumes primitivos e ancestrais que, para as condições do deserto, eram perfeitos. Mas também eram incompatíveis com a cultura trazida pelo europeu, que não conseguia aceitar o estilo de vida que essas pessoas levavam”, diz.

Passando pelo Iêmen, um dos países que mais o impressionou pela hospitalidade das pessoas, ele observou que há duas vidas distintas no mundo árabe: uma dentro de casa e outra fora dela. “As mulheres ficavam restritas a essa vida privada”, diz, enquanto os homens “na rua eram machões, cultivavam bigodes, cara feia, carregavam facas, pistolas e metralhadoras, fumavam cigarros, mascavam qat – a droga local – e podiam fazer o que bem entendessem. Mas dentro de casa, quase sempre se submetiam às regras das mulheres, quando casados”. Ele até ficou, vejam só, mais de um ano sem entrar em contato com mulheres (eu disse que a viagem foi difícil!).

Resumir três anos de viagens em 200 páginas não é tarefa fácil. Por isso, senti falta de mais informações a respeito dos lugares pelos quais Arthur passou e mais histórias sobre as pessoas que encontrou. Mas gostei da sinceridade com que ele relatou as experiências vividas, já que obviamente nem tudo são flores em uma jornada como essa e é muito bonitinho voltar de uma viagem falando apenas do que deu certo. “O mundo que eu havia visto não era assim tão romântico quanto as pessoas esperavam ouvir. Ele era maior e mais complexo do que geralmente estamos acostumados a pensar”, observou. Principalmente quando não estamos só batendo ponto nos lugares mais turísticos…

A convivência com a população de cada lugar, como essa família paquistanesa, foi o ponto alto da viagem
Foto: Arthur Simões

No final, Arthur tava cansado, como era de se esperar. “As mudanças pelas quais eu constantemente passava, de temperatura, idioma, costumes, país, comida e água esgotavam meu corpo”, conta no livro. Em muitos momentos, ele se sentiu perdido e se espantou com o quanto havia mudado. Por isso, a volta pra casa não foi fácil – foi, na verdade, uma das partes mais difíceis da jornada, diz. Mas tudo o que viveu fez de Arthur uma pessoa mais tolerante. Aprendi a respeitar mais e a julgar menos. Fiquei mais livre”, reflete. Pra quem quiser mais, o livro tá nas livrarias e o Pedal na Estrada tá também cheinho de histórias e fotos. :)

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“Definitivamente, eu não ligava tanto para a paisagem e riquezas dos países – estes fatores me influenciavam também -, mas estava mais interessado nas pessoas e em como elas tratavam as outras pessoas. Para mim, um país não era feito apenas de paisagens, estradas, cidades, mas especialmente de pessoas.” (página 130)
 

Todas as fotos que ilustram o post são de autoria de Arthur Simões e foram publicadas no site Pedral na Estrada.

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