O que fazer em Marrakech: dicas e opiniões sinceras
Antes de ir para Marrakech, eu já tinha ouvido alguns alertas: “é muito turística”, “é caótica”, “não é a melhor cidade do Marrocos”. Ainda assim, cheguei lá curiosa. Afinal, a cidade é quase sinônimo de Marrocos no imaginário de muita gente. Pesquisei o que fazer em Marrakech, mas fiquei bem flexível para o que aparecesse pelo meu caminho.
Depois de ter passado por Fez, Chefchaouen e Tânger, Marrakech, entendi o que queriam dizer quando me falaram que não valia a pena passar muitas noites em Marrakech. Não foi uma experiência ruim, mas também não foi meu destino preferido.
É claro que, como em qualquer lugar do mundo, é questão de gosto, perfil e objetivos. Aqui neste artigo vou compartilhar minhas impressões para você tirar suas conclusões, além de falar sobre o que acho que vale a pena entre os principais atrativos de Marrakech – e alguns mais escondidinhos.
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O que fazer em Marrakech: minhas impressões
Cheguei a Marrakech no fim da tarde, vinda de Tânger, onde passei uma noite para encontrar uma colega marroquina, aproveitando que não tinha transporte direto de Chefchaouen, onde eu estava antes. Minha primeira impressão na chegada, na estação de trem, foi muito boa: achei bonita, moderna e ampla.
Depois fui pegar um táxi na rua, já que os que ficam na estação costumam cobrar mais caro. Tinham me alertado para ficar mais atenta a pequenos golpes em Marrakech, mas foi bem tranquilo conseguir um táxi compartilhado (como é comum no país) por um valor justo.
Me hospedei numa das ruelas labirínticas da medina, mas com ajuda de um vídeo enviado pela minha hospedagem não foi difícil encontrar o lugar (os táxis não entram na medina). Depois de fazer check-in, saí para jantar perto do hostel e, em poucos minutos, já estava desviando de várias motocas.
Logo entendi que em Marrakech é importante caminhar com atenção. Mesmo dentro da medina, onde as ruas são estreitas e cheias de gente, motos circulam o tempo todo, buzinando para abrir caminho. Dependendo do seu estado de espírito, isso pode parecer curioso e divertido ou pode ficar um pouco cansativo.
Fui jantar em um restaurante que o recepcionista do hostel me indicou num cantinho da praça principal, Jemaa el-Fna. O nome do lugar é Snack Toubkal e não achei a comida particularmente saborosa, mas tinha um bom custo-benefício, localização fácil e o atendimento ágil, então acabei indo de novo no dia seguinte. Como ele é bem aberto, achei um lugar legal para espiar o movimento, e ainda peguei um pôr do sol lindão.

Ao anoitecer observei o ritmo se acelerar ainda mais. Na praça, barracas de suco decoradas com frutas falsas disputam atenção com vendedores de comida e souvenirs, música, luzes, dançarinos e atrações problemáticas, como encantadores de serpentes e animais presos por coleiras para fotos.
É difícil ficar indiferente a essa área de Marrakech, coração da parte histórica e turística da cidade, com tantos sons, cheiros, cores e pessoas. Mas enquanto a medina de Fez me pareceu mais ocupada por pessoas da própria cidade e em Chefchaouen vi muitos turistas marroquinos, em Marrakech a sensação foi de estar cercada principalmente por turistas estrangeiros como eu.


Acho que muita gente que vai ao Marrocos acaba indo só para Marrakech, especialmente europeus com poucos dias de viagem. Vários amigos meus que moram na Europa fazem exatamente isso: vão passar um fim de semana prolongado só em Marrakech.
Esse turismo concentrado me deu a impressão de que na medina de Marrakech as coisas são mais pensadas para quem está de passagem, o que não curto tanto. É claro que é possível ir além disso, mas exige um pouco mais de esforço.
Outro fator que influenciou minha experiência foi o clima. Eu fui para o Marrocos no fim da primavera, mas Marrakech já estava bem quente. Durante o dia, andar pela cidade exigia certa estratégia: procurar sombra, fazer pausas e beber muitos sucos (não por acaso, as barracas de suco foram das minhas partes preferidas da cidade!).
Nesse sentido, a escolha da hospedagem pode mudar muito sua experiência no Marrocos, e especialmente em Marrakech. Como a acomodação por lá era mais cara que nas outras cidades, fiquei em um lugar com bom custo-benefício, mas sem uma área comum muito agradável, tipo um pátio com sombra para descansar durante as horas mais quentes.
Se eu fosse voltar, especialmente no verão, escolheria um riad com jardim, sombra e talvez até piscina, para equilibrar melhor os momentos de exploração e descanso.
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Free walking tour: contexto é importante
Na manhã seguinte à minha chegada, fiz uma das coisas que mais recomendo fazer em Marrakech (e na maior parte do mundo): um free walking tour, passeio guiado a pé sem um custo fixo – você paga no final o quanto achar justo.
Existem vários desses tours por lá, que você pode encontrar online. Eu reservei pelo site GuruWalk um passeio que percorria a medina com o guia Mohammed Amine e curti bastante. Sempre me perguntam quanto pagar nesses tours: no Marrocos, a própria plataforma sugere algo em torno de 10 euros (ou 100 dirhams, a moeda local).
O passeio começou em frente à Mesquita Koutoubia, um marco visual da cidade. Nenhum prédio em Marrakech pode ser mais alto do que ela. A construção me parecia bem familiar, e aí descobri que seu minarete inspirou a Giralda, em Sevilha (cidade onde fiz intercâmbio durante a faculdade).
As duas são consideradas mesquitas irmãs, construídas pelo mesmo povo e com o mesmo desenho arquitetônico. E assim como na Giralda, o minarete da Koutoubia tem rampas internas, e não escadas, para que fosse possível subir a cavalo.

Passamos também pela Kasbah, entrando pelo Bab Agnaou, antigo portão real da medina, e seguimos até o antigo bairro judeu, o Mellah. O nome vem da palavra “sal”, já que ali se vendia esse produto. Muitos judeus se estabeleceram nessa área após a Inquisição Espanhola, quando foram expulsos da Península Ibérica.
Uma das partes mais interessantes do tour foi ouvir sobre questões culturais e do dia a dia. O guia nos falou, por exemplo, sobre como a cidade nova é diferente da medina, mais moderna, e com mais lugares autorizados a vender álcool. Segundo ele, muita gente de outras cidades do Marrocos vai para Marrakech passar o fim de semana para curtir a vida noturna.
Ele também explicou que o rei tem poder executivo e o sistema é uma monarquia de dominação masculina: mulheres não podem ser rainhas, apenas princesas. Por outro lado, ele considera que o país tem passado por um processo de modernização e tem visto alguns avanços em termos de direitos das mulheres. Por exemplo, a atual prefeita de Marrakech é uma mulher, assim como a ministra do turismo.
Você certamente vai ver fotos do rei em vários lugares. Eu reparei nisso durante a viagem, e soube que o retrato oficial do monarca é obrigatório em instituições públicas, e muitos estabelecimentos privados também têm o costume de exibi-lo.
Conversar com uma pessoa local sobre esses aspectos culturais ajuda a enxergar Marrakech além do exotismo turístico, entendendo a cidade como um espaço vivo e político. Recomendo muito fazer um passeio assim (eu fiz em todas as cidades marroquinas por onde passei, exceto Tânger, onde tinha uma colega local).
Riads, hammams e vida cotidiana
Durante o tour, passamos por vários riads, como se chamam as casas tradicionais marroquinas organizadas em torno de um pátio ou jardim interno, muitas das quais hoje funcionam como hospedagens.
Por fora, os riads parecem simples; por dentro, muitas vezes são belíssimos. As janelas se voltam para dentro, e não para a rua, e eles não têm varandas. Os riads eram construídos assim porque não se queria expor diferenças de riqueza, e também para manter as mulheres da casa longe do olhar de outros homens.
Também vimos hammams, os tradicionais banhos públicos. Eles têm relação com a religião, já que para o islamismo é importante se limpar antes de rezar, depois do sexo etc.
Ali aprendi que existem os hammans locais e os turísticos. Nos locais, com entrada barata (cerca de 1,50 euro), homens e mulheres ficam separados, você leva seus próprios itens (sabonete etc.) e pode pagar um funcionário para ajudar na esfoliação. Os turísticos são bem mais caros (por volta de 30 euros), são mistos e têm tudo incluído – pelo que entendi, é mais uma pegada de spa.
Antigamente, os hammams eram importantes espaços de socialização e até de arranjos matrimoniais. De acordo com o guia, na era pré-Tinder muitas mulheres iam nos hammams procurar possíveis pretendentes para seus filhos.
Gastronomia e mercados
Passamos também por um mercado local de frutas, verduras e carnes (quase tudo cultivado ali, com exceção do abacaxi). Achei um ótimo lugar para ver a vida cotidiana, sem o foco turístico. Também visitamos uma das muitas lojas de ervas da medina, que vendem produtos para fins medicinais, cosméticos e alimentícios.


Depois fomos no Moroccan Culinary Art Museum, que tem entrada gratuita. O museu em si não é extraordinário, mas traz informações interessantes sobre a gastronomia marroquina.
Uma das histórias que mais gostei foi sobre o papel do chá, que provavelmente vão te oferecer em alguns momentos, como na chegada nas hospedagens. Para os marroquinos, o chá está presente em momentos felizes e tristes, visitas, celebrações e conflitos. Quando qualquer bronca aparece, eles dizem algo como “vamos tomar um chá e resolver isso”.
Além disso, o prédio do museu é lindo e tem um belo jardim e um restaurante no terraço, que segundo nosso guia vale a visita. Também são promovidas oficinas de culinária lá.


Nesse trecho da viagem eu não foquei muito na gastronomia, mas se você estiver procurando um lugar legal onde comer em Marrakech, me recomendaram o Café Babouche, o Chez Bahia, o Titrite, o Atay Cafe, o Bacha Coffee e o Mandala Society.
Caminhada sem rumo pelos souks
Depois do tour, fui caminhar sem rumo pelos mercados (souks) da medina com uma amiga alemã que conheci em Fez. Sofremos juntas com a tentação constante de comprar tudo: cerâmicas, tecidos, lanternas, tapetes… A vida de quem viaja com uma mochila pequena é mais prática, mas tem seus desafios.
Obviamente nos perdemos várias vezes, mas já estávamos acostumadas à dinâmica das medinas e aceitamos o ritmo da cidade, confiando que eventualmente chegaríamos a algum ponto reconhecível.


Entre uma esquina e outra, surgiam lojas lindas e restaurantes charmosos. Um dos mais bonitos que vimos foi o Le Jardin, instalado em um riad com jardim interno. Entrei para dar uma olhada, mas não estávamos com fome na hora.
Um dos pontos altos desse passeio foi passar por uma micro cafeteria numa rua aleatória da medina, onde um senhor simpático perguntou se queríamos provar o tradicional café feito na areia quente. Ficamos conversando com ele enquanto uma moça, que segundo ele era “a melhor barista de Marrakech”, preparava o café mexendo lentamente um bule de cobre sobre um monte de areia aquecida.
Esse método é originário da Turquia, mas é também comum no norte da África. A areia distribui o calor uniformemente, permitindo fervura lenta. E além do café são usadas especiarias como cardamomo, resultando em uma bebida encorpada e aromática. A aparência é quase como um chocolate quente espesso, e o sabor é forte; eu achei bem interessante.


Madraça Ben Youssef
Depois de já ter visitado muitos atrativos pagos em outras cidades do Marrocos (onde tudo era mais barato, aliás), preferi ser seletiva em Marrakech. Muitos dos pontos turísticos por lá têm entrada paga, e eu já tinha visto um monte de palácios e museus antes de chegar lá. Por isso, o único lugar que realmente fiz questão de visitar foi a Madraça Ben Youssef.
Uma madraça é uma escola islâmica tradicional, onde se estudava o Alcorão, teologia e direito islâmico, além de outras disciplinas como matemática e astronomia. Essas escolas geralmente impressionam pela arquitetura, com pátios com fontes, mosaicos elaborados, madeira entalhada e outros detalhes delicados.
Eu já tinha visitado a madraça de Fez, mas a de Marrakech me pareceu ainda mais bonita, e lá você pode acessar o primeiro andar, onde ficavam os quartos dos estudantes. Fiquei horas ali, observando os detalhes, imaginando a vida de quem estudou ali e esperando o calor diminuir. Foram bons momentos de tranquilidade e contemplação na baguncinha da medina.


Outras atrações de Marrakech
Mesmo sem ter ido a todos os pontos turísticos clássicos, acho importante citá-los. Estes aqui são os principais itens das listas de “o que fazer em Marrakech”, e acho que vale a pena conhecer a maioria deles se você não for passar por outras cidades marroquinas.
Maison de la Photographie
O único lugar que me arrependo de não ter visitado dentre as opções do que fazer em Marrakech é a Maison de la Photographie, que fica a poucos minutos da Madraça Ben Youssef. O museu tem exposições temporárias que mostram o Marrocos através de diferentes olhares e parece ser um bom lugar para fugir do rebuliço dos souks.
Palácio Bahia
Perto do bairro judeu, o Palácio Bahia foi construído no fim do século XIX e reúne alguns dos melhores exemplos de mosaicos e outros recursos da arquitetura marroquina. Fica bem cheio em alta temporada, então considere chegar cedo.
Algumas pessoas consideram que vale a pena ir com guia, para entender mais sobre os significados culturais e históricos por trás do espaço. Atualmente, partes do palácio passam por reformas depois do terremoto de 2023.
Palácio El Badi e Túmulos Saadianos
Também próximo ao bairro judeu, o Palácio El Badi hoje está em ruínas, mas dá pistas da opulência do passado da cidade. Já os Túmulos Saadianos, ali perto, são conhecidos pela decoração delicada em mármore, estuque e madeira de cedro. Ficaram selados por séculos e só foram redescobertos em 1917.
Jardin Majorelle e Museu Yves Saint Laurent
Talvez o lugar mais “instagramável” de Marrakech, o Jardin Majorelle foi criado em 1931 pelo pintor francês Jacques Majorelle durante o protetorado e depois comprado por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé.
Os jardins são muito bonitos, como eu já tinha visto em muitas fotos. O azul-cobalto contrastando com cactos, palmeiras e espelhos d’água deve ser ainda mais legal ao vivo, mas achei o ingresso de 17 euros muito salgado. Junto dos jardins funciona o Yves Saint Laurent Museum, dedicado à obra do estilista, fortemente influenciada pelas cores e formas do Marrocos.
Se você tem interesse especial por YSL, deve valer a pena ir até lá. Como não era meu caso, o preço alto, a localização fora da medina e o fato de não serem lugares realmente conectados à história e cultura local me fizeram pular essas visitas.
Jardin Secret
Esse é um jardim bem bonito, aparentemente feito para turistas. A entrada era 10 euros e as avaliações no Google diziam que o lugar não é extraordinário; fui até a porta e dei uma espiada lá dentro e não achei que valia a pena… Vários lugares na cidade têm jardins bonitos com acesso gratuito.

Vale a pena incluir Marrakech no roteiro?
Para mim, a resposta é: depende. Se você tiver pouco tempo no Marrocos e a chance de conhecer outras cidades, eu não teria problema em eliminar Marrakech do roteiro. Não me arrependi de ter ido, mas não senti que ela trouxe algo muito único em relação ao que já tinha visto em Fez ou Chefchaouen.
No meu último dia, resolvi fugir do calor e passei o dia em Essaouira, cidade à beira-mar localizada há umas três horas de carro. Contratei na recepção do hostel um tour de um dia, porque não tinha mais noites de viagem. Normalmente evito esses bate-voltas com deslocamentos mais longos, mas foi a melhor escolha que fiz.
Eu queria muito conhecer Essaouira, que algumas viajantes tinham me recomendado, e estava incomodada com o calor e a confusão em Marrakech. Foram umas boas horas de carro, mas muito confortável e barato (20 euros) e gostei muito da cidade litorânea (e ventilada!). Se pudesse voltar atrás, talvez tivesse dormido lá e visitado Marrakech apenas de passagem.
E aí, curtiu esse relato sincero e as dicas sobre o que fazer em Marrakech? Ficou com alguma dúvida? Qualquer coisa é só falar comigo lá no Instagram @janelasabertas. Boa viagem!












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