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Think Twice Brasil: casal viaja pelo mundo praticando a empatia

Em 2014, Gabriele e Felipe (que aparecem de chapéu na foto ali em cima) juntaram as economias, pediram demissão e partiram numa viagem de 400 dias, passando por 40 países. Nada superincomum hoje em dia, com tanta gente dando “a volta ao mundo” e se tornando nômade digital. Mas os destinos e os objetivos do casal me chamaram atenção: a ideia era focar o roteiro em países com baixo IDH da África, Oriente Médio e Ásia, conhecendo pessoas que trabalham pra melhorar a vida da comunidade onde estão inseridas.

A jornada, que começou pela África do Sul e terminou na Coreia do Norte 13 meses depois, foi apelidada de Think Twice Brasil: Experiência de Empatia. E assim como Talita, autora do livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio, eles reforçam a importância desse conceito tão bonito e tão forte. Afinal, o foco principal dessa viagem era se conectar com os outros e viver diferentes realidades, pra depois compartilhar o que aprenderam e inspirar outras pessoas a buscar uma vida com mais propósito e menos centrada no próprio umbigo.

É claro que eles podiam ter feito tudo isso bem pertinho de suas casas aqui no Brasil, mas a escolha de viajar teve a ver com esse empurrão que a gente sente quando sai da zona de conforto e mergulha no diferente e imprevisível (como o tal do “despaisamento“). De volta ao Brasil, onde querem continuar vivendo, eles não tinham dúvidas: apesar de todas as diferenças, lá no fundo somos todos bem parecidos.

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Durante o percurso, felizmente eles não tiveram nenhum problema de saúde, nem de segurança, mas enfrentaram vários desafios. Desde os mais práticos, como dormir em locais com higiene precária e ter dificuldade de planejar a logística da viagem, até os mais profundos, como testemunhar situações muito duras e se sentir impotentes pra provocar uma mudança real.

Tentando viver ao máximo possível a realidade de cada lugar no tempo disponível, o casal buscou sempre andar de transporte público, dormir em lugares simples (que muitas vezes não tinham energia elétrica, nem água corrente) e comer o mesmo que os habitantes locais. “Em quase todos os lugares que passamos e fomos recebidos por amigos/famílias/projetos, escolhemos viver exatamente como os habitantes de lá vivem”, explica Gabi.

Durante e após o percurso, eles foram escrevendo no blog sobre suas experiências e reflexões, que resultaram em textos tão informativos quanto inspiradores. :) Pra quem quiser dar uma lida, eles indicam seus preferidos: Harare e Chiredzi, ZimbábueWagoma, QuêniaMongóliaTilonia, Índia e Retiro na Índia – Tushita (esse último, aliás, também é um dos meus preferidos).

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Não custa reforçar, no entanto, o que disse Gabi nesse texto: ninguém precisa “largar tudo e viajar o mundo” pra fazer algo transformador. “Largue só aquilo que não te serve mais. A mágoa que te fecha a garganta, os hábitos que te trazem angústia e sofrimento, o apego ao consumo e à competição, a baixa auto estima, a preguiça de tentar algo novo, o medo de não dar certo, não dar conta e, principalmente, o costume de não enxergar nada além de si. Largue o “amor” que te faz mal, o trabalho que não te realiza, o sentimento de culpa e a mania de sempre esperar que alguém resolva por você. Isso basta pra trazer novos ares pra vida e dar fôlego pra escolher novos caminhos”, afirma. <3

Se interessou pelo projeto? Então dá o play nesse vídeo, que mostra alguns momentos especiais que eles viveram nessa jornada, e rola a página mais pra baixo pra conferir algumas das respostas de Gabi pra minhas perguntas enxeridas. ;)

Como escolheram os destinos e as organizações visitadas?
Fizemos um primeiro roteiro com os países que têm o IDH mais comprometido e permitem a entrada de turistas. Ao longo do trajeto fomos adaptando conforme as possibilidades, mas quase sempre dentro da ideia inicial. Com relação às organizações, parte delas foram indicadas por amigos/conhecidos/leitores e outra parte considerável foi fruto das conexões que fizemos ao longo do caminho e íamos conhecendo despretensiosamente.

O que vocês planejaram antes de partir e o que foi decidido no percurso? 
A rota inicial estava traçada, mas as cidades foram sendo decididas uma a uma, conforme a viabilidade. Como usávamos muito transporte público/terrestre, era mais fácil adaptar o itinerário conforme as necessidades/vontades. Foi bastante desafiador cuidar da logística, especialmente porque quase sempre nos hospedávamos em lugares muito simples, com acesso limitado à internet.

Buscaram se informar sobre a história e o contexto atual antes de chegar em cada lugar?
Isso era uma premissa do projeto: nos aprofundarmos na história e nos aspectos político/sociais de cada um dos países que passamos. Isso se refletia nos artigos, mas principalmente nas pesquisas/estudos independentes que fazíamos antes de identificar organizações/projetos.

Quais foram as principais dificuldades práticas e emocionais?
As dificuldades práticas foram: encontrar informações confiáveis sobre locomoção e estadia, identificar organizações sérias e comprometidas, se alimentar adequadamente, planejar a rota. Já as emocionais estavam relacionadas a reconhecermos nosso limite de exaustão e contribuição. Nem sempre era possível contribuir – na medida do que gostaríamos – com os projetos que conhecíamos.

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E os momentos de alegria mais intensa?
Foram muitos, dentre eles uma caminhada no interior do Zimbábue que se transformou numa festa com as crianças, visitar Evangeline no Burundi, passar alguns dias com Roseline Orwa no Rona Foundation, visitar um campo de refugiados em Beirut… Difícil listar todos. :)

Houve algum momento de maior “choque cultural”?
Passamos por muitos desses momentos, especialmente em Angola e nos países do Oriente Médio, como Irã e Jordânia.

Fizeram algo que nunca imaginaram que fariam?
Comer coisas que nunca soubemos o que eram, dormir em barracas com muitos insetos e ratos, abdicar de conforto e higiene sempre que necessário e conhecer líderes comunitários que transformam seus entornos com pouquíssimos recursos. Foi inspirador e transformador. Mudou nossa forma de enxergar a nós mesmos e o mundo.

Do que sentiram mais falta e o que perceberam que não fazia falta nesse período?
Sentíamos muita falta de uma cama com lençóis limpos, um banheiro limpo e a comida do Brasil. Não sentimos falta do consumo exagerado e desnecessário ao qual estávamos submetidos e das notícias sensacionalistas.

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Algum país foi muito diferente das expectativas de vocês? 
Angola nos surpreendeu pela desigualdade extrema e pela generosidade de sua gente. Coréia do Norte também nos intrigou por ser enigmática e nos trazer mais perguntas do que respostas. Tailândia nos impactou negativamente pelo turismo irresponsável, abusivo e inconsciente, que envolve danos ao meio ambiente e exploração sexual.

Como veem a situação atual do país tendo em vista o que viveram nessa viagem?
Enfrentamos um momento nebuloso para a democracia e os direitos humanos. O Brasil tem uma história marcada por desigualdade e corrupção, que deriva de fatos marcantes para o povo, como os mais de 300 anos de escravidão e o período da ditadura militar. Não há como construir o presente ou o futuro sem reconhecer o peso do passado e as lições que ele nos deixou. É tempo de reconhecermos nossa responsabilidade para alterar o curso do que vem dando errado e nos mantermos vigilantes para, pelo menos, evitarmos retrocessos com relação às conquistas fundamentais que já foram feitas.

Quais são os próximos passos desse projeto?
O Instituto Think Twice Brasil tem por missão engajar as pessoas, através da empatia, a reconhecerem sua responsabilidade e potencial de transformação social. Desenvolvemos conteúdos e programas que dialogam sobre responsabilidade social, equidade de gênero e direitos humanos, e são implementados em parcerias com empresas, escolas e ONGs.

O que diriam pra alguém que pensa em fazer algo parecido com o percurso de vocês?
A primeira coisa que dizemos é: pra fazer algo pelo mundo não é preciso ir muito longe. Essa foi nossa escolha por uma série de motivos que não necessariamente se aplicam a todos. Pra quem pretende fazer o mesmo, é fundamental que haja um planejamento financeiro detalhado, organização de informações e referências e o coração totalmente aberto para enfrentar surpresas e percalços. Ser gentil com todos que cruzarem o caminho e acreditar nos sinais. :)

Crédito das fotos que ilustram o post: Think Twice Brasil

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2 Comentários

  1. larissa mayra grippe da silva

    eu trabalho numa creche de periferia
    sempre adorei cuidar das crianças daqui e as vezes até gasto mais dinheiro do que eu poderia gastar pra comprar algo pra elas …
    atualmente faço faculdade de arquitetura e urbanismo e cheguei num ponto de uma determinada matéria que a empatia e o enchergar que o mundo é mais doq coisas tem que ser algo que os alunos precisam fazer
    achei muito linda a iniciativa !!

    • Oi, Larissa! Que bom que você curtiu, também adorei a iniciativa deles ;) Um abraço!

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